EntreContos

Literatura que desafia.

A Fuga (Jota Silva)

O homem atravessa o portal. Errante. A mala na mão direita. Passageiro do tempo. Pretende se instalar por alguns dias que seja no lugar por onde viaja. Do que foge? As viagens são dolorosas. Perde massa muscular e vai envelhecendo a cada chegada em território novo. Como se passassem anos em frações de segundo. Frações. Fracionado o homem vai se estabelecendo, vai saindo de um lugar ou de outro. Não tem família nem um porto que possa atracar e fazer raiz. Árvore sem sustança e sem miolo. Sua capa grossa de couro, seu chapéu de motoqueiro antigo, seus óculos escuros também de quem sabe pilotar uma moto. Dessas antigas, dessas que se perderam no tempo, dessas que ficaram esquecidas em algum museu, mas que ainda queima na memória do homem que erra por mundos paralelos e sem solução.

E o javali o olha.

Docilmente, amigo de viagem, companheiro de destino adverso. As adversidades.

O homem não se importa. Acha que tem um destino a cumprir. Mesmo que suas crenças religiosas estejam abaladas e enroladas em um véu preto de fumaça. Neblina, fuligem. As lembranças não são mais nítidas, mas ainda queimam, ainda marcam. A morte. Uma menina brutalmente assassinada, uma mulher violentada e tentando proteger sua cria. Morta. Os javalis pastando na relva. Comendo carnes podres. O homem não se aguenta de tanta dor. Aldeias dizimadas, padres, reis e rainhas. Tudo através do tempo. Os poderosos invadindo, dizimando e rindo.

Através dos tempos.

Sempre a mesma história. Invasões. Espadas, tiros, cavalos, tanques, emblemas, brasões, símbolos, bombas, metralhadoras, submarinos, naves espaciais. Tudo se repetindo. Famílias dizimadas, mulheres estupradas, crianças esquálidas e sem futuro, poderosos rindo e o homem tentando curar sua dor de tempo em tempo.

E o javali o olha ternamente.

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14 comentários em “A Fuga (Jota Silva)

  1. Olá, Jota,
    Tudo bem?
    Você escreveu um texto optando por usar um tipo de “narrador câmera”. Palavras soltas, visões de pequenos trechos, de um momento específico da vida de seu protagonista, um viajante no tempo. Gosto muito dessa técnica.
    Tenho a forte convicção que literatura é feita para contar uma história (sim, claro), mas também e sobretudo (como em todas as artes) para causar uma sensação ímpar ao leitor. Nesse sentido, seu conto é excelente. Ele consegue, em poucas palavras, deixar em quem lê (ao menos em mim) a sua marca. O texto ecoa no leitor.
    Quanto à premissa, gostei bastante do tema abordado. A fé na humanidade, mais que isso, a busca de algo em nossa história, através dos tempos, que possa comprovar que nossa jornada é mais que guerra, sangue e morte. Claro que é. Há a arte, a solidariedade, enfim. Mas essa seria uma outra história, não é?
    Quanto ao personagem Javali, gostei da maneira como o bicho, passivo, assiste tudo que se passa na trajetória do protagonista como um companheiro, mas, mais que isso, como um animal domesticado faz com seu tutor. Quem convive com animais, consegue entender essa cumplicidade muda do porco (como um cão) assistindo o ser humano destruindo a si mesmo. Ou à própria raça. Por outro lado, o protagonista também funciona como um tipo de espectador, já que viaja no tempo vendo as mazelas do mundo a se desenrolar sem, necessariamente, interagir com elas. Como em um ciclo, o javali, assiste ao protagonista, que assiste ao mundo, tudo assistido pelo leitor.
    Um belo texto.
    Parabéns por sua verve e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  2. Jowilton Amaral da Costa
    25 de maio de 2017

    Achei o conto médio. Elucubrações de um viajante do tempo, que tem um javali de estimação. Achei curto demais, poderia ter aumentado o texto e terminado de uma forma mais impactante. Foi uma boa e rápida leitura, mas, que não deixará nenhuma lembrança. Boa sorte.

  3. Vitor De Lerbo
    25 de maio de 2017

    Um bom conto, com muito mais potencial do que o que foi atingido. A reflexão levantada é ótima, gostaria de saber mais sobre esse personagem e suas viagens – pelo menos sobre uma.

    Boa sorte!

  4. Evelyn Postali
    24 de maio de 2017

    Oi, Jota Silva,
    Gramática – Só algumas poucas repetições. Mas li corrido, sem parada.
    Criatividade – Gostei do conto. Curto e direto. E talvez por isso, bastante denso. São coisas que estão colocadas de forma sutil. Ele viaja desde muito tempo. Ele atravessa os tempos. E, apesar de viajante, não encontra evolução na humanidade. A cada passagem ele se desumaniza, perde a força e, talvez, a esperança.
    Adequação ao tema proposto – Tem homem, tem javali, tem mala.
    Emoção – Não seria bem emoção, mas reflexão. Reflexão sobre nosso tempo aqui, que poderia ser diferente, não fôssemos tão resistentes à mudança, à nossa própria transformação. Tudo poderia ser diferente.
    Enredo – Começo, meio e fim interligados. Achei coerente e bem estruturado.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

    • Evelyn Postali
      24 de maio de 2017

      Em tempo: o javali, contemplativo, complacente, talvez apenas figurativo, me remete àquilo que é imutável, aquilo que não muda, que é a natureza do tempo. O tempo não muda. O tempo é o tempo todo igual. Nós é que passamos. Nós é que mudamos.

  5. Neusa Maria Fontolan
    24 de maio de 2017

    Solitário a não ser pela companhia de seu javali, o viajante foge da crueldade que sua mulher e filha sofreram, procura paz, mas em todo lugar só encontra mais crueldade. Ele irá continuar sua busca mesmo que isso custe a sua vida.

    Esse foi meu entendimento
    Gostei
    meus parabéns

  6. Mariana
    24 de maio de 2017

    Mérito do autor tratar da natureza humana em tão poucas linhas, além de conseguir inserir a imagem do desafio. No entanto, apesar de estar muito bem escrito, tive a impressão de que era apenas uma cena de um conto maior. Sucesso no desafio.

  7. angst447
    23 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título é bem simples, alguém está fugindo.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado? Bem, temos aqui o javali (espectador solidário) e o protagonista caracterizado como o sujeito da imagem.
    Claro que adorei encontrar um conto tão curtinho e com um tom poético. Sinto que o autor gostaria de ter participado de um desafio “viagem no tempo”, estaria mais adaptado.
    Há a repetição de alguns radicais, deixando as palavras muito parecidas e próximas. De resto, achei o texto bem construído, mas sem muito enredo.
    Boa sorte!

  8. Anorkinda Neide
    23 de maio de 2017

    Bem curtinho, isso é bom 🙂
    Vc concentrou-se numa cena, q é o básico do conto curto mas nela vc falou de toda a historia da humanidade!!
    Muito bom.
    Porém as palavras parecidas e derivadas próximas umas das outras poderia deixar o texto poético ou com ritmo, mas nao sei se deu certo.. rsrs
    ‘por alguns dias que seja’ é uma expressao que usamos ao falar, mas ela não é correta. Tb ‘não se aguenta’ também é da fala, mas não se escreve assim. E as frases q tem ‘o olha’ eu nao sei se tá errado, tem outros colegas q saberão responder isso, mas eu acho feio pra caramba. E vc usou isto nas frases mais importantes do texto, seria a hora de emocionar, mas como esta construção em incomoda, acabou não me atingindo.
    Voltando ao enredo o cara é um viajante imortal do tempo? Assistiu tudo o q se passou, isto lhe dói e o javali o consola com o olhar.. e… q mais? q q tem? tipo.. e daí? rsrs
    desculpe se estou sendo insensível mas não captei nossa mensagem.
    Espero que outros sejam atingidos pela sua prosa. Boa sorte

  9. Luis Guilherme
    23 de maio de 2017

    Boa tarrrde Jota, beleza?

    Primeiro conto mais poético com que me deparo nesse desafio. Já gostei de cara!
    Adorei a construção de imagens e sensações. Em especial, gostei muito da última frase. Ideias sendo passadas rapidamente e a sensação de movimento, que combina com “a fuga”. Achei pesado o conceito passado.

    Não consigo me decidir se o tema do desafio foi seguido. Tudo bem, tem um javali e a roupa, mas não entendi bem a função do javali. É como se eu não conseguisse ver a imagem enquanto leio. Acho que isso tira uns pontos, mas de forma alguma estraga o todo.

    No fim, refleti enquanto lia e me causou sensações, ou seja, uma bela poesia.

    Parabéns e boa sorte!

  10. Ana Monteiro
    23 de maio de 2017

    Jota, parabéns! Em meia dúzia de palavras você descreve o peso da vida sobre os ombros do “Homem”. Toda a repetitiva história da humanidade. E o amor também, as relações, única verdadeira valia da existência, aqui no olhar do javali. Só o que falha é a construção do retrato físico do personagem e isso é consequência da necessidade de adequar o texto à imagem. Gostei mesmo. Parabéns e boa sorte.

  11. Milton Meier Junior
    21 de maio de 2017

    Jota, as “imagens” são até interessantes, mas não contam história alguma. Acho que esse era o objetivo do desafio, não? Contar uma história? Mesmo assim está bem escrito e é curto o bastante para não fazer o leitor pensar que perdeu seu tempo por completo.

  12. Priscila Pereira
    21 de maio de 2017

    Oi Jota, temos aqui um conto diferente, várias imagens mentais contando uma estória, praticamente sem enredo. Ainda não decidi se é genial ou desleixado… Boa sorte!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.