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Literatura que desafia.

A fuga do absurdo (Camaco Ladope)

A mala de couro que parecia pesar umas toneladas, o casaco surrado com cor de merda, os óculos escusos, escuros e alucinantes, e o javali demoníaco, como apresentado. Uma floresta densa de mata fechada, com toda a sorte de plantas, animais e existências mais, úmida e estava para chover. Três bancos do lado direito dele, um altar vertiginoso penteado de tapetes pretos dos mais diversos animais contrastando com colossais velas dispostas ao chão e duas pessoas esquartejadas mais atrás. Pessoas… Diego e Roberto, irmãos gémeos que assim como eu foram sequestrados e submetidos ao que fomos submetidos. Uma coruja ao longe fingindo desdêm. A lua sendo encoberta tacitamente por nuvens repletas de efemeridade. Minha garganta seca. É disso o que me lembro daquele momento, disso e de sentir que aquela única palavra significaria mais do que todos os diálogos que se deram em minha vida. “Corra”. E eu corri.

Quando se corre para salvar sua pele não se consegue lembrar se o correto é encher o diafragma primeiro ou implorar aos zéfiros por mais um pouco de oxigénio, se a raiz quadrada de 87 é tanto vezes tanto ou se o amor e o ódio são realmente tão distintos adiante da indiferença e o que o tudo quer dizer adiante de cada passo dado. O que você consegue pensar em um estalo de segundo traduz a angústia humana de um corpo tridimensional possuir caracteres quadridimensionais. Quando seu sangue pode correr o seu corpo todo pela última vez, você pensa com o corpo mais do que nunca e entende sua mente como um conjunto de átomos que falam em amar. Quando um segundo pulsa a eternidade, qualquer divagação intelectual perde-se adiante do esplendor da existência. Pois pulsa, pois pulso, pois vida. A existência que busca não ser, é, mas seu corpo não entende bulhunfas quando ou é correr ou morrer. E tu corres. Como eu corri. Sem olhar para trás, mas sabendo o que estava ali. Eu tive olhos nas costas e vi o horror. A carnificina. A possibilidade humana. E eu estava ali apenas por amor.

Quando se aceita a morte a existência lhe prega peças. Comer merda, mutilar a si e ter de observar seus amantes serem dilacerados, dançar o mais sensualmente que o tremor de suas pernas puderem permitir, além de responder perguntas como “qual a letra que traduz todo o alfabeto na constância da inconstância?” ou “o mundo é infinito adiante da finitude do seu ser que não se pode provar finito?” ou “qual o sentido para dar sentido à vida?”. Mostrar fotos de sua irmã sendo violada das formas mais indignas que se possa imaginar. E imaginar que palavra alguma poderia suportar o que é o real. Trazer a cabeça de seu amante para lhe fazer perder tudo o que lhe significava a esperança. Tremer. O terror é quando fazem com você o que você não se importa que façam com os outros porque os outros não são você. E eu estava aterrorizado.

Acreditei durante muito tempo que era a morte quem afirmava a vida, pois era um ingênuo conformado. Quando uma fuga pede, inquisitiva, que você desvencilhe-se da morte a cada passo bem dado, cada ponto de alcance, cada suspiro resistente, você percebe os erros lógicos e suas contradições. Se A+B é igual a C, nada isso quererá dizer se seus músculos não souberem inconscientemente a distância entre uma extremidade de um precipício a outra. O que afirma a vida é a vida mesma. Não se perde um ano, ganha-se. Quando se tem 0 e vai para 1, ganha 1. Quando não vai a 2, não perde 1, apenas deixa de ganhar 1, logo, apenas se ganha. A vida é ganhar, mesmo isso sendo absurdo de se dizer quando se está para cair  fundo em um buraco sem fim ou adiante de todas as absurdidades possíveis que possam se consumar como realidades neste mesmo exato momento. O momento em que eu pulo.

Querendo ou não, o tremor se faria quase que impercetível adiante do respirar desesperado que se podia ouvir de longe, os gemidos e a quase morte por excesso de adrenalina se dariam por contingentes e a resistência do ar seria sentida mais do que em qualquer avaliação besta do 2º grau. O som quando propaga-se no vazio constitui muito mais do que apenas uma relação física, constitui significado. Nada do que se aprenda na escola. No meio da floresta o som que você faz quando corre da morte faz com que os espíritos da floresta se questionem; “será mesmo que ele vai conseguir?”, e rirem-se aos montes, pois bem o sabem do que se trata uma tragédia. A corrida enuncia a mecanicidade necessária ao monte de carnes e ossos desnecessário, o bufar pleita o desespero e o cosmos se perfaz no acaso casual chamado vida. Surpreender-se com a morte é fingir-se cínico até o fim. Cair de um precipício por não saber medir espaços (apesar de os saber calcular) é apenas a pura possibilidade que se constitui no real demonstrando que se existe como existe, existe porque existo. Nada do que acontece é impossível, tanto o é, que acontece. Tanto e tal como no final do precipício um rio corre, irrompe e salva. E salva-me.

Para variar a inconstância que é a vida diz à morte mais um agora não. Agora não. Agora não. A fúria tormentosa das águas correntes do rio que me salvou, maltrataram-me ao dizer que existe uma certa lei no universo onde “nada se obtêm sem uma espécie de sacrifício”. O sacrifício é a vida mesma. E rochas. Sobreviver poderia agregar vários nomes, coincidência, concatenação de eventos, destino ou milagre, sobretudo sobre a torrente e seu ímpeto, agregaria interjeições de dor. O homem que caiu nesse rio ainda é o que por ele é açoitado, todavia, ainda é outro completamente diferente por ter sorbrevivido. A pluralidade do ser humano lhe confere características contraditórias, um rio venenoso não, um rio venenoso quer apenas dizer uma coisa, um rio venenoso.

Não morrer afogado. Não morrer esmagado. Não morrer asfixiado. Não morrer. Tais séries de eventos particularizam a existência de tal forma que não poderia ser de maneira diferente, tal como o foi em meu caso. Algumas árvores depois ser preso pelo pé e como num chicotear de uma chance só meu corpo ficar preso entre arbustos é acaso. O universo não se importa comigo mais do que com caprichos abobados. Desmaiar e esperar o que a existência prover. E ela prove. E ela prove-me. Proveu de três jovens que por ali passavam conseguir destingir um corpo inerte de um cadáver. Saber a diferença entre um homem vivo e um homem morto e se importar com isso. E olha que eu era pessimista e esperava apenas o pior. Bom, depois do absurdo o mundo é apenas uma borda. O que a vida me apresentou foi ela mesma em suas facetas perversas, mas ao fim inocentes, pois se não permite a Diego e a Roberto, permitiu a mim. O horror ficou para trás grudado num canto de meu cérebro e os policiais queriam além de tudo minhas digitais. Perguntar se eu estava bem se encontrava no mesmo protocolo. Diego e Roberto em protocolo algum. Jamais foram encontrados e a vida seguiu, como sempre se segue. E eu sinto muito.

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4 comentários em “A fuga do absurdo (Camaco Ladope)

  1. Ana Monteiro
    25 de maio de 2017

    Olá Camaco. Li um conto? assim parece, mas não é o que sinto. O que sinto vai muito além. Li a escrita de alguém que transmitiu a essência do ser-se (ser-se vida, ser-se vivo, ser-se rio ou árvore ou animal, ser-se). Adorei, devo dizer. Além de ser um excelente exercício de escrita rápida (corre, corre, corre.. e nós lemos correndo, de língua de fora). Que pena as gafes (ainda que num texto tão intenso quase passem despercebidas). Mas nem falarei disso, outros já o fizeram e o que ainda não foi apontado,alguém notará. Passo aos parâmetros de avaliação propostos: pois, a parte da gramática já ficou dita; criatividade (aqui sob a forma de desconstrução da imagem do real) máxima; adequação ao tema proposto quase ausente; emoção, quase excessiva; enredo, relativamente pouco (mas acredite, mais enredo só teria servido para atrapalhar). Muito bom trabalho. Parabéns!

  2. Ricardo Gnecco Falco
    25 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Alguns probleminhas com certas palavras específicas, que se repetem e, muitas das vezes, com grafia incorreta. No Word, colocando o dicionário para Português (BR), boa parte destes problemas serão certamente sanados.

    – CRIATIVIDADE
    Boa criatividade. Um proposta diferente e ágil (no sentido do decorrer da história), se comparado aos demais textos do Desafio.

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    Os pré-requisitos estão todos lá: mala, javali e trajes. Porém, pareceram-me simplesmente jogados ali, no início do texto, exatamente para cumprirem requisito. Depois, não se fala mais deles e tais elementos simplesmente desaparecem da história. Estão presentes, mas sem representatividade na história.

    – EMOÇÃO
    A agilidade dos acontecimentos e ações trazem uma sensação claustrofóbica ao texto, como se fôssemos amarrados ao protagonista e sofrêssemos, junto dele. Muitas vezes nos sentimos arrastados, dada a rapidez das ações e da quantidade de descrições do texto.

    – ENREDO
    Rapaz parte em uma fuga pela própria vida através de uma floresta, fugindo de algo que não fica muito claro, assim como os motivos de tudo o que está a acontecer, rapidamente, diante de nossos olhos. Aparentemente, o rapaz consegue escapar com vida, salvo por transeuntes que o encontram quase morto. Contudo, fica a impressão que o protagonista poderá ser acusado dos crimes que não cometeu.

    *************************************************

  3. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Olá!
    Olha, perdi o fôlego junto com o rapaz ae.. nossa!
    Na verdade, me cansei.. rsrs
    No final, eu ja tinha até esquecido dos gêmeos mortos lá do começo.
    Então, eu acho que a pessoa não pensa tudo isso qd tá correndo em fuga pela vida e bota tudo isso nisso.. achei demais, sinceramente.
    Mas entendo que é a proposta do teu conto e a respeito. Só que eu vi q o texto era curto mas enquanto lia me pareceu imenso..rsrs
    Eu gostei e achei bem eficientes o primeiro e o último parágrafo, nos demais eu acho q vc pesou a mão no prolixo… mas não me leve muito a sério, vamos ver os demais colegas e suas opiniões. 😉
    Boa sorte ae e abração

    • Anorkinda Neide
      21 de maio de 2017

      ahh no segundo parágrafo a palavra ‘adiante’ aparecendo umas tres vezes ou mais, mas o problema mesmo é que todas estas vezes a palavra correta seria ‘diante’.

E Então? O que achou?

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.