EntreContos

Literatura que desafia.

Sob(re) Mitos e Lendas (Rafael Sollberg)

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Tédio era um tremendo eufemismo para qualquer pessoa que tivesse acesso remoto ao meu cérebro. Não suportava mais as marchinhas, o gosto constante de álcool e as inesgotáveis considerações do meu convidado. Sua voz melosa parecia sofrer de náuseas, como se possuísse o seu próprio sistema digestivo. As sílabas ao final das palavras saiam melancólicas, como se tivessem exagerado na sessão de quimioterapia. Há dez minutos ele fez uma lista com motivos para se suicidar e, em seguida, com motivos para não se suicidar, ambas começavam com “minha ex-esposa” e terminavam com “Jazz”. No convite havia exigido a não presença de seu famoso clarinete, agora, no quarto dia, percebo o meu erro e anseio por apenas uns instantes de silêncio vocal. Estava vivendo o inferno neurastênico.

– Como alguém ainda hoje acredita que a terra é plana? – Woody perguntou limpando as grandes lentes de seu famigerado óculos.

– Se eles tiverem razão, vai ser bem difícil dar a volta ao mundo – respondi esfregando a testa e ajeitando o chapéu panamá na minha cabeça.

De cinco em cinco minutos alguém vinha nos oferecer amendoins torrados. Eram praticamente os operadores de telemarketing da boemia carioca, com um produto mais honesto, obviamente. O gringo do meu lado era um chamariz de malandros, mas também preciso reconhecer que minha camisa florida era uma espécie de farol. Só queria deitar minha cabeça no balcão engordurado e dormir até quarta-feira de cinzas, mas meu amigo continuava puxando minha manga e fazendo observações sem fundamento. De repente, um sujeito vestido de pirata me pediu um cigarro. Sem dizer uma palavra, retirei o resto do maço amassado do bolso e entreguei as duas últimas unidades prazerosas e mortais. Afinal, há quinze minutos atrás havia prometido pela sétima vez na noite que iria parar de fumar. O falso marujo aceitou a oferta, agradeceu balançando a cabeça e saiu cambaleante em direção a porta do bar. Olhei para o diretor ao meu lado e ele estava petrificado. A pele rosada dos últimos dias de sol completamente branca. Os olhos grandes arregalados e a boca miúda torta.

– Que foi? A última vez que vi essa sua cara foi em “Bananas”.

– Não acredito que você não viu….

– O pirata pedindo cigarro? – perguntei, revirando os olhos.

– Não é um pirata, é um “Sauce”! – Woody disse, agitado.

– Oi?

– Um “Sauce”!

– Saci! Não “sauce”, ele não vem com molho – compreendi enquanto encarava o indivíduo escorado na porta do bar – e ele está vestido de capitão gancho!

– É para disfarçar!

– Por que um Saci iria precisar se disfarçar de pirata em pleno carnaval?

– É lógico!

– Não tem lógica nenhuma! Alguém veio te pedir autógrafo?

– Não!

– Exato! Todos pensam que você está fantasiado de Woody Allen.

– Cala a boca. Tenho certeza que é um “Sauce”.

– É a porra de um pirata!

– “Sauce”! – ele gritou, despertando todos os bêbados da espelunca.

Nesse momento, o foco da discussão olhou assustado em nossa direção, retirou a perna de pau e saiu pulando apressado. Woody pulou da banqueta e agarrou o meu braço. Pedi um novo maço de cigarro, paguei a conta e desejei nunca ter enviado a coleção ilustrada do Monteiro Lobato para o idiota.

No início, seguíamos a figura como personagens de um filme de suspense de pouco orçamento e roteiro duvidoso, tal qual um genérico do “garganta profunda” atrás de um jornal. Não demorou muito e resolvemos abandonar a discrição, éramos muito peculiares para esse tipo de tática, tipo girafas de gravata borboleta tentando trabalhar em um bufê de pinguins. As ruas estavam movimentadas e, para piorar, todos estavam felizes. Sentia-me como um ativista vegano entregando panfletos num zoológico no domingo pela manhã. Fiquei com vergonha de dizer para o meu companheiro que acabávamos de entrar na Cinelândia. Um antigo reduto de cinemas transformado em um imenso parque de diversão de templos de fé estática. Na realidade, poucas igrejas para o número de almas honestas que precisavam ser exorcizadas. E, nosso fugitivo continuava pulando como um diabrete.

Passamos por inúmeras fachadas do século passado sustentadas por escombros de fazer inveja ao Stonehenge. O diretor me olhou com as sobrancelhas arqueadas, mas eu dei de ombros.

– Por que vocês não derrubam isso?

– Porque foi tombado.

– Não, está de pé.

– Está de pé porque foi tombado.

– Ah, é tipo uma piada de “ken está na segunda base!?”…

– Não, é outro tipo de piada – cortei, sem muita paciência para explicar nossos institutos desvirtuados.

O tal “sauce” vestido de pirata, ou simplesmente o homem fantasiado, invadiu uma via principal e começou a pular em uma velocidade estonteante. Woody fez sua cara de incredulidade mais uma vez, e eu só conseguia pensar que se tratava de um atleta paralímpico de muito sucesso. Mister Allen assoviou de forma estridente e eu expliquei que não estávamos em Manhattan. Aqui era bem diferente. Fiquei de soslaio, levantei um dos meus braços e balancei o dedo indicador sem parar, tal qual uma aristocrata desesperada que acabou de dispensar o seu chofer. Meio segundo depois, três carros amarelos já faziam fila na nossa frente.

– Segue aquele Negão Perneta que não para de pular!

– Isso não é muito correto, senhor?

– Isso é Uber ou taxi? Ok, segue o Afrodescendente com necessidades especiais cabriolante.

– Cabriolante?

– O “Sauce”, porra! O “Sauce”! – meu parceiro baixinho interrompeu em um tom meloso autoritário.

Seguimos no encalço, mas o motorista estava com a atenção dispersa, olhando para todos os outros carros que estavam estacionados com o pisca alerta ligado.

– Tenho certeza que aquele Volkswagen é Úber! – ele disse reduzindo a velocidade. Momento exato em que Woody aproveitou e saltou do veículo ainda em movimento.

– É que a última vez que o povo dele ouviu Uber e Volk na mesma frase as coisas não terminaram muito bem – eu disse, jogando duas notas de dez reais no colo do sujeito e saindo em disparada na perseguição do meu colega.

As ruas de paralelepípedos do centro histórico do Rio de Janeiro eram famosas pela crueldade com os tornozelos incautos. Sem dúvidas, o melhor local para o início da reforma previdenciária. O fugitivo despontava no horizonte, mantendo sua margem de segurança. De Súbito, uma ratazana cruzou nosso caminho, desfilando de queixo em pé, com a confiança de quem sabe que manda no pedaço. Olhou com desdém para gente e seguiu em frente, como se tivesse coisas muito mais importante para fazer.

– Nossa Majestosa Fauna – disse alto, uma pontada de orgulho na voz.

– Em Nova Iorque temos maiores – ele retrucou com empáfia.

– Vocês “Yankees” não entendem que tamanho não é documento, parecem não ter aprendido nada com o Vietnã!

Com o brio ferido e castigado, resolvi agir com a idiossincrática malandragem carioca para surpreender o arisco saltador. Acompanhado de meu pequeno hóspede, resolvi cortar caminho pelas ruas menos conhecidas e badaladas. Cruzamos um punhado de becos suspeitos – tão suspeitos como o homem de cicatriz e tapa-olho capitaneando uma fila de reconhecimento atrás do vidro grosso. A umidade palpável no ar, trazia consigo o gosto de urina fresca. Como num filme de zumbis fashions e elegantes, dezenas de travestis tentavam nos agarrar nas calçadas diminutas. As mãos apalpavam todos os quadrantes de nossos corpos. Em plenos pulmões, eu só queria gritar “minhas regras”, mas no fundo apenas pensava que devia ter dedicado mais tempo para a tonificação dos meus glúteos. O diretor parecia estar se divertindo, pois senti seu corpo um tanto quanto relutante quando o agarrei pelo pescoço e o arrastei em direção a luz.

Por menos crível que possa parecer, o plano havia dado certo. Surpreendemos o sujeito, que estava há pouco metros da gente. Desafiador, o tipo invadiu uma roda de capoeira para delírio geral. Aos poucos os risos deram lugar as palmas e eu logo compreendi sua intenção. O cineasta e eu paramos ao lado do berimbau, completamente embasbacados pelo show. Pela primeira vez estava em dúvida se a figura era um ginasta ou uma verdadeira assombração. Sem a mínima ideia do motivo, encarei o falso desprovido e fiz um gesto muito famoso em filmes de luta. Passei a mão na garganta, num movimento de degola e fiz uma cara de maníaco. Certamente uma cena patética, fruto de quem assiste muitos filmes e gosta de transportar arquétipos para vida real. Claro que o cretino nem se abalou, ao contrário, sorriu em provocação. Woody, que havia observado toda a sequência, vestiu o colete de diretor e me empurrou para o centro da roda.

De modo absolutamente improvável, como ganhar na mega-sena jogando os seis primeiros números, consegui desviar dos três primeiros ataques furiosos. Céticos diriam que foi efeito do vento, niilistas dariam o crédito para o álcool, eu prefiro acreditar que foram as sessões da tarde com o Van Damme. A luta despertou minha coragem, como facas despertam maldade e batons vermelhos o tesão. Mas como a sorte não costuma respeitar muito tempo os idiotas, o golpe seguinte atingiu minha testa e eu caí sentado. A cantoria aumentou, bem como o entusiasmo do meu adversário. Todo o movimento era um chute perfeito. A perna solitária me acertava sem parar, em lugares que eu nem sabia da existência. “Devia ter malhado glúteos” continuava voltando a minha mente durante a surra. As rasteiras tinham o atabaque como trilha sonora, o safado planava e eu mal podia ficar de pé. Se acreditasse em bruxas, centauros e alienígenas do passado, podia jurar que o maldito “Saci” havia feito um pacto nefasto com a maldita gravidade. Não apanhava tanto desde que Hanna havia me pegado espiando sua calcinha.

Cansado de comtemplar minha humilhação, o pequeno “corner” judeu avançou na direção do meu algoz, agarrando-o pela cintura. Os dois foram ao chão e começaram a rolar. Instantes depois, a roda tinha se transformado em uma comemoração de touchdown. Guernica de Picasso com purpurina e confetes no coração da cidade. Saímos de fininho, tal qual protagonistas de um desenho animado. Novamente o Saci estava alguns passos, ou melhor, saltos na nossa frente. A perseguição continuou por mais alguns quarteirões e o fato de termos sobrevivido era combustível suficiente. Estávamos próximos, o dilema estava perto do fim. Dobramos uma esquina e demos de frente com um imenso descampado onde uma multidão se apinhava. Nosso Santo Graal reluzia diante dos primeiros raios de sol. Ele ajeitou a bandana na cabeça, retirou o colete de pirata, puxou o cachimbo do bolso do short vermelho e sorriu de forma zombeteira em nossa direção. Como num passe de mágica de algum filme mudo, sumiu no meio da massa homogênea e acinzentada.

– Não falei que era um “Sauce”?!!! – Woody vibrou, ignorando a presença daquele exército de errantes que mal notava a nossa existência.

– Sim, você falou.

– Odeio ter razão, mas…

– Cala a boca e vamos tomar uma! – falei de maneira melancólica e girei nos calcanhares, deixando para trás aquele pedaço de lugar esquecido pelo carnaval.

 

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42 comentários em “Sob(re) Mitos e Lendas (Rafael Sollberg)

  1. Olá, Rcok,
    Tudo bem?
    Eis que Wood Allen vem ao Brasil para presenciar o carnaval carioca, na Lapa.
    Seu conto é ousado, bem escrito, com grandes momentos e um caleidoscópio de personagens que se mesclam à multidão, como na imagem escolhida para representar seu trabalho.
    Para mim, o ponto forte é a luta de capoeira com o Saci.
    Gostei da estrutura e me lembrou o God, claro, do Wood Allen.
    Sua narrativa é quase uma crônica ficcional carioca, se é que isso existe. Mesclando folclore propriamente dito, como o imaginamos, ao “folclore” urbano e toda a sua “fauna”.
    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  2. Vitor De Lerbo
    31 de março de 2017

    História surreal, bem comédia. O Woody Allen correndo atrás de um saci durante o carnaval já é algo engraçado por si só, mas a narrativa ajudou ainda mais. Algumas das analogias são ótimas.
    Boa sorte!

  3. Wender Lemes
    31 de março de 2017

    Olá! Para organizar melhor, dividirei minha avaliação em três partes: a técnica, o apelo e o conjunto da obra.

    Técnica: em termos de gramática e construção, achei o conto bom. O sentimento que é criado casa bem com as cenas: no começo, durante a calmaria tediosa que toma conta do protagonista, as cenas demoram mais a se desenrolar, é quase palpável a chatice do Woody Allen. Durante a perseguição, no entanto, o leitor é levado junto em um frenesi de imagens (como a parte da luta de capoeira), culminando quase num anticlímax.

    Apelo: gostei bastante da narrativa, corre com facilidade, mas o final foi meio desanimador (acredito que fosse até a intenção). Em uma perseguição com tantos picos de adrenalina, com os dois quase alcançando o objetivo, ter o – suposto – saci simplesmente desaparecendo no meio da galera sem que eles o alcançassem me deixou com a mesma sensação do protagonista.

    Conjunto: a dinamicidade do conjunto me agradou, o final nem tanto, como disse. Apesar da presença do Woody, a narrativa cinematográfica cai mais para um filme de ação e perseguição – Seagal caberia perfeitamente bem no papel de coadjuvante.

    Parabéns e boa sorte.

  4. Anderson Henrique
    31 de março de 2017

    Tipo de narrativa nonsense que sempre me agrada. Gostei das piadinhas e dos trocadilhos, de chamar o Saci de Sauce. Algo que me incomodou um pouco foram as metáforas que você usou no texto, algumas me parecendo exageradas ou pouco encaixadas como “as palavras saiam melancólicas, como se tivessem exagerado na sessão de quimioterapia”, mas de forma geral o texto é competente e diverto. Um bom trabalho.

  5. Pedro Luna
    31 de março de 2017

    A luta de capoeira entre Saci e o cidadão foi melhor que a luta final entre Van Damme e Stalone em Mercenários 2.

    Que conto louco, e no entanto, bonzão. Gostei da inserção de Woody Allen no conto. Completamente inesperado para esse desafio. De início estava achando forçado, mas depois entendi a intenção do conto, ou a falta de. Só sei que é bem escrito e cheio de imagens engraçadas e absurdas. Eu gostei pra caramba dessa perseguição maluca.

    • Pedro Luna
      31 de março de 2017

      “Por que um Saci iria precisar se disfarçar de pirata em pleno carnaval” Hahahaha

  6. mitou
    31 de março de 2017

    o conto tem criatividade ,admito. colocar o Woody Allen nesse cenário pitoresco foi no minimo interessante, porem peca muito na estrutura. os parágrafos são muito longos e você usa figuras de linguagem em excesso, é bom uma figura de linguagem, porem tudo demais estraga.

  7. Fabio Baptista
    31 de março de 2017

    Meu, que conto do caralho!

    Divertido, inteligente, maluco, politicamente incorreto, excepcionalmente bem escrito. Será realmente uma pensa se não vencer o desafio.

    – Há dez minutos ele fez uma lista com motivos para se suicidar e, em seguida, com motivos para não se suicidar, ambas começavam com “minha ex-esposa” e terminavam com “Jazz”
    >>> Isso foi sensacional, provavelmente o melhor “cartão de visitas” do desafio

    – Em plenos pulmões, eu só queria gritar “minhas regras”, mas no fundo apenas pensava que devia ter dedicado mais tempo para a tonificação dos meus glúteos
    >>> outro momento épico! kkkkkkkkkk

    – que estava há pouco metros da gente
    >>> a
    (chatice gramatical do dia, só para não pensarem que é outra pessoa comentando no meu lugar hauhauauh)

    Excelente.

    Abraço!

    NOTA: 10

  8. Priscila Pereira
    30 de março de 2017

    Oi Rcok, seu texto está perfeito!!! Chorei de rir em algumas passagens, está muito bem escrito, muito inteligente e bem humorado… Completamente doido e original!! Amei!! Parabéns, nota 10!!

  9. Antonio Stegues Batista
    30 de março de 2017

    O autor se preocupou mais com frases rebuscadas do que com uma historia. Todas as frases, ou quase todas, tem palavras com sentido figurativo, algumas para fazer graça o que em mim não provocou. Não sei se esse tipo de escrita combina com o estilo de trabalho de Woody Alenn. Acho que ele é mais romântico em seus filmes. Não deu para reconhecer o cineasta na história.

  10. Marsal
    30 de março de 2017

    Olá, autor (a). Parabéns pelo seu conto. Vamos aos comentários:
    a) Adequação ao tema: sim. Com certeza.
    b) Enredo: muito interessante. Embora o conto seja contemporâneo, há um certo clima de inicio do século XX, lembrou-me um pouco o clima de “o Bebe de Tarlatana Rosa”, de Joao do Rio. Há uma curiosidade instigante em relação ao fugitivo e ao fato de ele ser ou não um saci, e de passagem uma bela descrição de uma noite terca feira de carnaval, extremamente pitoresca.
    c) Estilo: achei a escrita bastante madura. O balanço certo em termos de objetividade e rebuscamento. O foco narrativo ficou perfeito em primeira pessoa.
    d) Impressão geral: Um otimo conto, que com certeza irei reler no futuro próximo. Talvez o meu favorito. Parabéns! Boa sorte no desafio!

  11. Cilas Medi
    29 de março de 2017

    Erros:
    paralímpico = paraolímpico.
    Um conto com mais citações que já vi. Apesar de bem elaborado, não gostei porque nos leva a querer ter certeza do que foi citado e não é do nosso conhecimento, portanto, um escritor de e para si, colocando um saci para transformar em folclore popular. O lado positivo é que o mesmo saiu da roça e do interior e apareceu na cidade, no carnaval, ainda arrumado como capitão gancho, diferente da maioria, com ironia e hilaridade.

    • Rsollberg
      1 de abril de 2017

      Então, Cilas!
      Sinto te decepcionar, mas o certo é Paralímpico mesmo. (mudou, meu caro)
      Abraço

  12. Gustavo Castro Araujo
    29 de março de 2017

    Cara, que conto foda! Sem dúvida, o mais criativo, o que mais me fez mexer na cadeira, o que mais me fez rir. De um encontro improvável você fez uma espécie de roadmovie nas ruas do Rio de Janeiro. Allen persegue o saci – puta que o pariu, como eu não pensei nisso??? Kkkkk O texto todo é uma delícia de ler, uma sobremesa dessas, das mais saborosas, justamente no fim das minhas leituras. A narrativa fantástica (em todos os sentidos da expressão) está repleta de tiradas ótimas. Destaco duas: “As ruas de paralelepípedos do centro histórico do Rio de Janeiro eram famosas pela crueldade com os tornozelos incautos. Sem dúvidas, o melhor local para o início da reforma previdenciária. “, e “De modo absolutamente improvável, como ganhar na mega-sena jogando os seis primeiros números, consegui desviar dos três primeiros ataques furiosos. Céticos diriam que foi efeito do vento, niilistas dariam o crédito para o álcool, eu prefiro acreditar que foram as sessões da tarde com o Van Damme. A luta despertou minha coragem, como facas despertam maldade e batons vermelhos o tesão.” O mais interessante é imaginar que o próprio Woody Allen se comportaria exatamente da maneira como você descreveu, embasbacado, curioso e mandão. Embora eu prefira textos com pegadas mais filosóficas e psicológicas, não posso deixar de reconhecer que você ultrapassou todas as expectativas com uma narração que vai totalmente no sentido contrário, primando pela irreverência e com um leve tom questionador. Show de bola, meu amigo!

  13. catarinacunha2015
    29 de março de 2017

    Era só o que me faltava: um Saci com molho no Carnaval da Lapa. O passeio pelas ruas é tão real que eu senti o cheiro de urina e cerveja daqui. As construções são criativas e a pegada urbana me encanta. O narrador típico carioca com o gringo ficou underground. Tem gordura no caminho (sou chata com dieta textual), mas adorei.

  14. danielreis1973 (@danielreis1973)
    28 de março de 2017

    O texto mais anárquico e experimental do desafio, com elementos que me lembraram do Catatau, do Paulo Leminski, e momentos de puro deleite nos diálogos e diversão nas ações, completamente absurdas. Um dos meus preferidos, sem dúvida. E a sacada do “sauce” foi “saussacional”! Abraços!

  15. Matheus Pacheco
    28 de março de 2017

    Cara, tem coisas que eu adorei no conto, do mesmo jeito que eu não gostei de algumas, o mais legal da estória é que mostra o carnava pelos olhos de um estrangeiro e de uma maneira bem engraçada.
    Mas minha única critica são os tamanhos dos parágrafos.
    Ótimo conto, abração ao autor.

  16. jggouvea
    28 de março de 2017

    Esse texto, em minha opinião, tem muitas qualidades, porém tem, também, muitos defeitos que o prejudicam.

    A sua ideia central é muito boa. O saci e Woody Allen em um carnaval carioca. Um cenário excelente. O problema é que o autor abusa de clichês de linguagem, que se tornam irritantes com o tempo. O principal deles é os personagens se desrespeitarem verbalmente e se ofenderem sem haver nenhuma razão aparente para tanta animosidade. Subentende-se do contexto que o narrador e Allen são amigos, tanto assim que o segundo veio ao carnaval a convite do primeiro. Por que, então, chamá-lo de idiota e incomodar-se com a mera presença dele sem um motivo?

    O momento em que a linguagem clichê comprometeu mais foi aqui: “fiz um gesto muito famoso em filmes de luta. Passei a mão na garganta, num movimento de degola e fiz uma cara de maníaco. Certamente uma cena patética, fruto de quem assiste muitos filmes e gosta de transportar arquétipos para vida real.” Eu não sei exatamente qual técnica foi usada errado, mas isso ficou muito ruim, muito mesmo.

    Enfim, vamos às notas:

    Média ponderada: 7.37

    Introdução: 6 – a introdução com um personagem entediado no carnaval é clichê e ainda é ilógica. Entediados só vão ao carnaval se tiverem um motivo explicado para isso.

    Enredo: 7.5 – a ideia é boa, mas a concepção falha

    Personagens: 5 – o típico malandro desbocado e mal educado que trata todo mundo com palavrões e está sempre pronto para brigar é muito clichê, e o seu uso ‘a seco’ não cria empatia.

    Cenário: 9 – a boa ambientação é o ponto forte da história.

    Forma/Linguagem: 7.5 – várias escorregadelas em clichês e trechos desagradáveis, embora o ritmo narrativo seja bom.

    Coerência: 8 – a única grande incoerência está na construção do fraquíssimo protagonista. De resto a história está bem amarrada.

  17. Olisomar Pires
    28 de março de 2017

    Bom conto, divertido e bem escrito. Fluído e envolvente.

    Criatividade em alta, alguns detalhes mais “inverossímeis” não prejudicaram o texto.

  18. G. S. Willy
    28 de março de 2017

    Olha, realmente este foi um conto inesperado. Woody Allen correndo atrás do saci pelo Rio de Janeiro parece enredo de um pesadelo sem sentido que nos faz acordar com vontade de dormir de novo pra ver se esquece logo aquilo. Sério, mas vou tentar ser mais direto.

    Primeiro que não fica claro que língua eles estão conversando. Presumo que seja no inglês, já que Woody Allen, e eu pesquisei, não fala português, e o(a) autor(a) decidiu por traduzir a conversa, um movimento muito válido, é claro. Mas então vários problemas surgiram. Primeiro com a piada do tombado. Só falantes do português falariam essa palavra, já que ela se refere à Torre do Tombo, de Portugal. Em inglês usam outros termos, heritage enlisted por exemplo. por isso, toda minha credulidade no conto, que já estava baixa, caiu por terra. Mas se ele fala português, como ele não entendeu o que o taxista falou? E sinceramente brincar com o holocausto foi de um mau gosto tremendo.

    Agora sobre a história, ela saiu de nenhum lugar e não chegou em lugar algum. Eles estavam ali, caçando o saci, sem um propósito aparente, e vai saber como Woody Allen descobriu que era um saci, e eles fazem tudo aquilo para entrar numa roda de capoeira contra o ele e depois que o ser troca de fantasia eles desistem e está tudo certo. Foi realmente uma experiência diferente essa leitura e principalmente ter lido até o fim…

  19. Rafael Luiz
    27 de março de 2017

    História bem narrada e ritmo empolgante. Peca um pouco talvez no excesso de sarcasmo, mas ajuda a dar o tom cômico ao conto. Apesar da perseguição parecer ser sem sentido, e o final não recompensá-la tanto, foi bem divertido acompanhar a perseguição.

  20. Ricardo de Lohem
    26 de março de 2017

    Olá, como vai? Vamos ao conto! História urbana que tenta inserir a mítica figura do Saci num contexto moderno. Tudo gira em torno da perseguição de um homem sem uma perna que pode ou não ser um Saci, pois o final deixa tudo em aberto. Bom, o problema não é o final, questão é o meio do conto, aquilo entre o começo e o fim, também chamado de recheio. Ele é todo centrado na perseguição, e pessoalmente achei o resultado meio… Sem graça. O tipo de conto que dá vontade de cortar fora o meio e enfiar outra coisa, porque o começo e o fim estão bons. De qualquer jeito, um bom conto, desejo pra você muito Boa Sorte no Desafio.

  21. Elisa Ribeiro
    26 de março de 2017

    Muito criativa sua abordagem para o tema. Um cineasta americano que reconhece um saci (sauce, nas palavras do personagem, ou seja um molho, um tempero) por baixo de uma fantasia de pirata, depois de esse saci passar despercebido por um carioca anfitrião, entediado com a maior da festa popular brasileira, foi uma ideia incrível. Parabéns! A perseguição ao saci teve momentos impagáveis como a passagem pelos travestis zumbis agarrando os heróis em algum beco sombrio da Cinelândia. O que não gostei muito no conto foi a recorrência excessiva de comparações que, embora divertidas, me cansaram um pouco durante a leitura. No parágrafo que começa com “No início, seguíamos a figura” há 2 “como”, 1 “tal qual” e um “tipo” introduzindo comparações; no parágrafo que começa com “De modo absolutamente improvável” , há 5 vezes a palavra “como”. Também não entendi muito bem o final que você deu ao conto. Finalizo dizendo que me diverti muito com a leitura. Boa sorte!

  22. Elias Paixão
    26 de março de 2017

    Criativo este conto certamente foi. Louco? Também, mas felizmente, desta vez, não foi uma loucura que me fez abstrair do que lia. O conto é bem interessante, ousado e com cenas completamente inesperadas, como o saci em uma roda de capoeira! O autor foi muito feliz ao trazer o tema para a atualidade e o coadjuvante surreal foi exatamente isso… surreal!

  23. Bia Machado
    25 de março de 2017

    Fluidez da narrativa: (2/4) O texto não fluiu pra mim, provavelmente porque não foi uma leitura que me interessasse muito, acabei não me envolvendo.

    Construção das personagens: (3/3) – Gostei da firmeza com que construiu suas personagens. São bem delineadas, têm personalidade. Uma pena que não me conquistaram.

    Adequação ao Tema: (0,5/1) – Apesar do mito estar dentro da história, achei que ele ficou meio em segundo plano.

    Emoção: (0,5/1) – Não gostei tanto. Foi interessante, uma prosa boa, mas que não me conquistou, como já disse.

    Estética/revisão: (1/1) – Construído de forma a dar bastante ênfase no estilo da narrativa, e não é um estilo fácil, o que é bom. Acho que conseguiu uma narrativa bem balanceada nesse sentido, não sendo simplista e ao mesmo tempo sem entregar tudo de mão beijada para o leitor. Quanto à revisão, nada de mais que não possa ser consertado em uma revisão básica.

  24. Evelyn Postali
    24 de março de 2017

    Oi, Rcok,
    Gostei muito desse ‘sauce’ perambulando pelas ruas do Rio de Janeiro. E entre o Volks e o Uber me diverti com os personagens. A história é leve e o roteiro muito bem trabalhado. Linguagem que nos deixa tranquilos, dentro do contexto que nos apresenta com tamanha precisão e segurança.

  25. Miquéias Dell'Orti
    23 de março de 2017

    Olá.

    Um dos melhores contos que li até agora. Ri do começo ao fim com as comparações que o personagem fazia da própria situação.

    A ação tão presente que dava pra perder até o fôlego. Parabéns, é 10 e tá amarrado.

  26. Roselaine Hahn
    20 de março de 2017

    Glauber Rocha, que contaço! O Desafio reservou para o final a cereja do bolo. É o tipo de ficção que me agrada, me remeteu à linguagem de Antonio Prata e aos contos de Rob Gordon, irretocável. As ótimas metáforas, os diálogos precisos e funcionais, as palavras certeiras, cadenciadas, tem até a referência (se não era referência, acabei de inventar), ao filme o “Homem que copiava” com os seis primeiros números da mega-sena; as tomadas cinematográficas, carnaval e Saci, bela salada. Falar mais vai estragar o autor, tipo, se achar uma Trakinas, rsrs. Vai para o pódium. Parabéns.

  27. Fátima Heluany AntunesNogueira
    19 de março de 2017

    O “Glauber” do pseudônimo deve ser o cineasta brasileiro e também ator e escritor, pois todo o texto faz referências a cinema, tevê e gente relacionada; além disso, acontece, no conto, uma perseguição a um suposto “saci”,digna de um filme de ação , durante o carnaval carioca e com direito a roda de capoeira, etc…

    O texto é original, irônico, brinca com os costumes carnavalescos. Bem escrito, bom ritmo, apenas com a leitura meio travada pelos inúmeros detalhes do ambiente, nomes estrangeiros e situações que podem ser desconhecidas pelo leitor.

    Gostei do jogo de palavras do título. Bom trabalho. Abraços.

  28. felipe rodrigues
    19 de março de 2017

    A figura do cineasta foi bastante carismática no conto, destoando bastante do protagonista, que não me agradou muito com seus comentários. Enfim, achei que a história parte de um acontecimento aleatório, a aparição do sauce no bar, o que me agrada bastante, assim como em filmes do homenageado, vide “A Rosa Púrpura do Cairo” e, mais recentemente, “Meia-noite em Paris”. Somente senti falta de mais desenvolvimento para a construção da trama, embora a proposta do autor pareça ser outra.

  29. Neusa Maria Fontolan
    18 de março de 2017

    Coitado do Saci. Não pode nem curtir o carnaval sossegado, que La vem um gringo para persegui-lo! E tudo pra que? Só para provar a si mesmo que estava realmente vendo um Saci! Porque ele não ofereceu uma cerveja pro Saci fazendo amizade? Quem sabe teria descoberto muito mais sobre aquele ser. O conto é bom e tem uma pitada de humor. Parabéns.
    Destaque: “Sentia-me como um ativista vegano entregando panfletos num zoológico no domingo pela manhã.”

  30. M. A. Thompson
    18 de março de 2017

    Olá “Rcok Glauber”. Parabéns pelo seu conto. A história até que está bem construída, mas não foi um dos contos que mais me agradou. Sucesso.!

  31. marcilenecardoso2000
    17 de março de 2017

    Conto denso do ponto de vista físico e estético, com frases e parágrafos longos, tornando o conto cansativo. A parte da perseguição é repetitiva. Por ser a maior parte do texto, isso pesou. Porém, vejo nessa repetição a ênfase que o(a) autor(a) dá à agonia do momento, então o recurso é aceitável. Alguns deslizes gramaticais, alguns erros de grafia.

  32. Marco Aurélio Saraiva
    15 de março de 2017

    Que conto divertido!

    Gostei da leitura. Sua escrita é muito interessante, cheia de construções maravilhosas e notações “fora da caixa”, além do domínio óbvio do português e uma excelente revisão. O volume muito grande de comparações (algumas excelentes) atrapalhou algumas vezes, mas logo eu voltava para os trilhos e lia, curioso para saber o que aconteceria com o saci.

    Para mim, o conto é uma grande viagem de dois bêbados no carnaval do Rio. O Saci poderia ser qualquer coisa – ou pessoa. Daria um bom filme de Woody Allen mesmo: uma ode à cidade do Rio de Janeiro; uma história que não se importa muito com o senso comum e mais com a estética e com o pensamento. A presença do diretor como um dos protagonistas é uma boa homenagem.

    Me diverti lendo o conto. Prefiro histórias com roteiro mais fechado e definido, mas isso é gosto pessoal e não vai atrapalhar na nota. Como defeito mesmo na leitura, que eu tenha notado, vi apenas algumas comparações que me soaram desnecessárias e acabaram freando um pouco o ritmo da leitura.

    Parabéns!

  33. Rubem Cabral
    13 de março de 2017

    Olá, Glauber.

    A ideia do conto é muito criativa e divertida. O texto é bem escrito, os diálogos estão ágeis e algumas tiradas são realmente engraçadas. Contudo, precisa de um pouco de polimento aqui e acolá e outras piadas não funcionaram tão bem. O trocadilho do tombamento, por exemplo, só funcionaria se Woody falasse português.

    Bom conto!

    Nota: 8.5

  34. angst447
    12 de março de 2017

    Conto divertido envolvendo o diretor de cinema Woody Allen, o carnaval, e a figura folclórica do Saci.
    Trama bem movimentada, ritmo acelerado pelo diálogo entre Allen e o seu anfitrião.
    Bem escrito, com estilo próprio do autor.Pouca coisa escapou à revisão:
    de seu famigerado óculos. > de seus famigerados óculos. (óculos é plural)
    em direção a porta > em direção à porta.
    O tema proposto pelo desafio foi respeitado e desenvolvido a contento. Proposta original de enredo envolvendo o saci.
    Mas afinal,o que você andou cheirando,hein?
    Bom trabalho!

  35. Bruna Francielle
    12 de março de 2017

    Tema: penso que se adequou

    Pontos fortes: a criatividade e o humor, talvez. Deixou-se levar pela imaginação e não se importou muito com nada mais. Também gostei de algumas partes irônicas, com menções ao politicamento correto. A descrição da cidade do Rio também foi bacana, por ter sido sincera em algumas partes, como a da urina e dos prédios históricos mal conservados. Também gostei da ambientação no Carnaval.

    Pontos fracos: bem, o “Sauce” apareceu apenas para fugir deles e fazer eles se meterem numa briga ? Achei pouco, confesso. Poderia ter colocado mais alguma “capetice” do Saci pra justificar a presença dele. Também não gostei muito do título, não achei que tem muito a ver com a história, uma vez que só abordou o Saci, e não falou bem dos “mitos e lendas” como prometia. Pelo título, se imaginava algo mais filosófico, não sei. Só sei que não combinou.

  36. Fernando Cyrino
    11 de março de 2017

    Pois é. Um conto diferente, pós moderno, criativo, uma abordagem do saci, tendo como pano de fundo o Rio de Janeiro, estando ao lado ninguém mais, ninguém menos que Wood Allen. Grandes peripécias, mas senti falta de um enredo mais elaborado. algo mais consistente que desse maior sentido à sua trama.

  37. Iolandinha Pinheiro
    11 de março de 2017

    Parabéns pela criatividade. Colocou Woody Allen no carnaval do Rio de Janeiro com direito a Saci vestido de pirata e capoeirista. Matei que era o diretor judeu no primeiro clarinete, e lamentei que o autor não deixou isso sugerido até o fim do texto. O problema do seu conto é que ele parece uma fala de um personagem de novela do Carlos Lombardi, é uma falação sem fim. O narrador sofre de um verborragia descontrolada e insere um sem-número de informações absolutamente desnecessárias, e ainda introduz mini observações que só conseguiram me fazer cair no tédio e me deram a quase irresistível vontade de encerrar a leitura. Fiquei aqui tentando imaginar como uma pessoa consegue jogar capoeira e dar rasteira com uma perna só, mas saci é saci, não é uma pessoa. O texto tem algum humor, é muito criativo e eu gostei de você ter colocado a entidade em um cenário urbano e atual, mas precisa de uma limpeza geral para cortar os excessos. Escrever muito não é escrever sobrando. Abraços e boa sorte.

  38. Evandro Furtado
    11 de março de 2017

    Resultado – Outstanding

    Por onde começar? Estrutura de roteiro de cinema? Narrativa noir? Woody Allen de personagem? Perseguição a um Saci no meio do carnaval? Quem diria que alguém seria capaz de colocar tudo isso junto e produzir uma coisa tão sensacional. Tem ainda os diálogos que são pra lá de excepcionais. O tom sarcástico é colocado no momento certo. A brincadeira com as línguas é uma coisa muito especíica que requer certo conhecimento por parte do leitor, em mim, particularmente, não só causou um puta impacto como conferiu ao texto um caráter ainda mais especial.

  39. Bruno Garcia
    10 de março de 2017

    O ritmo é muito bacana, algumas piadas não me pareceram fazer sentido mas só a referências as ex-mulheres e ao clarinete fecha a conta e passa a régua.

  40. Eduardo Selga
    10 de março de 2017

    É usada uma estratégia interessante no uso do personagem mitológico: ele perde o caráter inculto, a atmosfera interiorana, e passamos a lidar com um saci urbano. Não apenas é original: concede ao personagem a dimensão que ele possui no imaginário brasileiro. Não exclusivamente rural, como o Negrinho do Pastoreio, ou circunscrito aos povos da mata, como o Boitatá. Talvez seja nossa lenda mais caracteristicamente identitária. E, ressalte-se, um personagem negro.

    Em algumas partes do estado de São Paulo pratica-se uma intervenção urbana batizada Saci Urbano ( http://eosaciurbano.art.br ), com um nítido viés de rebeldia social, que vai da crítica à estrutura sociopolítica à dominação cultural norte-americana.

    O saci desse conto não caminha nesse sentido, ao menos não diretamente, o que não é uma escolha depreciativa. Embora em minha opinião a presença na metrópole de um personagem tão icônico para o imaginário brasileiro enseje a ideologização do enredo (o que é saudável, a depender da condução), não foi essa a escolha, imagino que pelo risco do panfletário.

    Outro aspecto criativo é a presença do cineasta norte-americano Woody Allen. E por meio dele ocorre um fenômeno que merece atenção: esse personagem, que não pertence à cultura brasileira, reconhece de imediato o saci, mesmo estando ele disfarçado de pirata. Esse reconhecimento não ocorre por parte do outro personagem, um brasileiro que acompanha o cineasta. O brasileiro não se identifica com sua cultura, e isso é algo a ser discutido.

    Em “[…] e o arrastei em direção a luz” faltou o uso da CRASE.

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Publicado às 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro e marcado .