EntreContos

Literatura que desafia.

Sob(re) Mitos e Lendas (Rcok Glauber)

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Tédio era um tremendo eufemismo para qualquer pessoa que tivesse acesso remoto ao meu cérebro. Não suportava mais as marchinhas, o gosto constante de álcool e as inesgotáveis considerações do meu convidado. Sua voz melosa parecia sofrer de náuseas, como se possuísse o seu próprio sistema digestivo. As sílabas ao final das palavras saiam melancólicas, como se tivessem exagerado na sessão de quimioterapia. Há dez minutos ele fez uma lista com motivos para se suicidar e, em seguida, com motivos para não se suicidar, ambas começavam com “minha ex-esposa” e terminavam com “Jazz”. No convite havia exigido a não presença de seu famoso clarinete, agora, no quarto dia, percebo o meu erro e anseio por apenas uns instantes de silêncio vocal. Estava vivendo o inferno neurastênico.

– Como alguém ainda hoje acredita que a terra é plana? – Woody perguntou limpando as grandes lentes de seu famigerado óculos.

– Se eles tiverem razão, vai ser bem difícil dar a volta ao mundo – respondi esfregando a testa e ajeitando o chapéu panamá na minha cabeça.

De cinco em cinco minutos alguém vinha nos oferecer amendoins torrados. Eram praticamente os operadores de telemarketing da boemia carioca, com um produto mais honesto, obviamente. O gringo do meu lado era um chamariz de malandros, mas também preciso reconhecer que minha camisa florida era uma espécie de farol. Só queria deitar minha cabeça no balcão engordurado e dormir até quarta-feira de cinzas, mas meu amigo continuava puxando minha manga e fazendo observações sem fundamento. De repente, um sujeito vestido de pirata me pediu um cigarro. Sem dizer uma palavra, retirei o resto do maço amassado do bolso e entreguei as duas últimas unidades prazerosas e mortais. Afinal, há quinze minutos atrás havia prometido pela sétima vez na noite que iria parar de fumar. O falso marujo aceitou a oferta, agradeceu balançando a cabeça e saiu cambaleante em direção a porta do bar. Olhei para o diretor ao meu lado e ele estava petrificado. A pele rosada dos últimos dias de sol completamente branca. Os olhos grandes arregalados e a boca miúda torta.

– Que foi? A última vez que vi essa sua cara foi em “Bananas”.

– Não acredito que você não viu….

– O pirata pedindo cigarro? – perguntei, revirando os olhos.

– Não é um pirata, é um “Sauce”! – Woody disse, agitado.

– Oi?

– Um “Sauce”!

– Saci! Não “sauce”, ele não vem com molho – compreendi enquanto encarava o indivíduo escorado na porta do bar – e ele está vestido de capitão gancho!

– É para disfarçar!

– Por que um Saci iria precisar se disfarçar de pirata em pleno carnaval?

– É lógico!

– Não tem lógica nenhuma! Alguém veio te pedir autógrafo?

– Não!

– Exato! Todos pensam que você está fantasiado de Woody Allen.

– Cala a boca. Tenho certeza que é um “Sauce”.

– É a porra de um pirata!

– “Sauce”! – ele gritou, despertando todos os bêbados da espelunca.

Nesse momento, o foco da discussão olhou assustado em nossa direção, retirou a perna de pau e saiu pulando apressado. Woody pulou da banqueta e agarrou o meu braço. Pedi um novo maço de cigarro, paguei a conta e desejei nunca ter enviado a coleção ilustrada do Monteiro Lobato para o idiota.

No início, seguíamos a figura como personagens de um filme de suspense de pouco orçamento e roteiro duvidoso, tal qual um genérico do “garganta profunda” atrás de um jornal. Não demorou muito e resolvemos abandonar a discrição, éramos muito peculiares para esse tipo de tática, tipo girafas de gravata borboleta tentando trabalhar em um bufê de pinguins. As ruas estavam movimentadas e, para piorar, todos estavam felizes. Sentia-me como um ativista vegano entregando panfletos num zoológico no domingo pela manhã. Fiquei com vergonha de dizer para o meu companheiro que acabávamos de entrar na Cinelândia. Um antigo reduto de cinemas transformado em um imenso parque de diversão de templos de fé estática. Na realidade, poucas igrejas para o número de almas honestas que precisavam ser exorcizadas. E, nosso fugitivo continuava pulando como um diabrete.

Passamos por inúmeras fachadas do século passado sustentadas por escombros de fazer inveja ao Stonehenge. O diretor me olhou com as sobrancelhas arqueadas, mas eu dei de ombros.

– Por que vocês não derrubam isso?

– Porque foi tombado.

– Não, está de pé.

– Está de pé porque foi tombado.

– Ah, é tipo uma piada de “ken está na segunda base!?”…

– Não, é outro tipo de piada – cortei, sem muita paciência para explicar nossos institutos desvirtuados.

O tal “sauce” vestido de pirata, ou simplesmente o homem fantasiado, invadiu uma via principal e começou a pular em uma velocidade estonteante. Woody fez sua cara de incredulidade mais uma vez, e eu só conseguia pensar que se tratava de um atleta paralímpico de muito sucesso. Mister Allen assoviou de forma estridente e eu expliquei que não estávamos em Manhattan. Aqui era bem diferente. Fiquei de soslaio, levantei um dos meus braços e balancei o dedo indicador sem parar, tal qual uma aristocrata desesperada que acabou de dispensar o seu chofer. Meio segundo depois, três carros amarelos já faziam fila na nossa frente.

– Segue aquele Negão Perneta que não para de pular!

– Isso não é muito correto, senhor?

– Isso é Uber ou taxi? Ok, segue o Afrodescendente com necessidades especiais cabriolante.

– Cabriolante?

– O “Sauce”, porra! O “Sauce”! – meu parceiro baixinho interrompeu em um tom meloso autoritário.

Seguimos no encalço, mas o motorista estava com a atenção dispersa, olhando para todos os outros carros que estavam estacionados com o pisca alerta ligado.

– Tenho certeza que aquele Volkswagen é Úber! – ele disse reduzindo a velocidade. Momento exato em que Woody aproveitou e saltou do veículo ainda em movimento.

– É que a última vez que o povo dele ouviu Uber e Volk na mesma frase as coisas não terminaram muito bem – eu disse, jogando duas notas de dez reais no colo do sujeito e saindo em disparada na perseguição do meu colega.

As ruas de paralelepípedos do centro histórico do Rio de Janeiro eram famosas pela crueldade com os tornozelos incautos. Sem dúvidas, o melhor local para o início da reforma previdenciária. O fugitivo despontava no horizonte, mantendo sua margem de segurança. De Súbito, uma ratazana cruzou nosso caminho, desfilando de queixo em pé, com a confiança de quem sabe que manda no pedaço. Olhou com desdém para gente e seguiu em frente, como se tivesse coisas muito mais importante para fazer.

– Nossa Majestosa Fauna – disse alto, uma pontada de orgulho na voz.

– Em Nova Iorque temos maiores – ele retrucou com empáfia.

– Vocês “Yankees” não entendem que tamanho não é documento, parecem não ter aprendido nada com o Vietnã!

Com o brio ferido e castigado, resolvi agir com a idiossincrática malandragem carioca para surpreender o arisco saltador. Acompanhado de meu pequeno hóspede, resolvi cortar caminho pelas ruas menos conhecidas e badaladas. Cruzamos um punhado de becos suspeitos – tão suspeitos como o homem de cicatriz e tapa-olho capitaneando uma fila de reconhecimento atrás do vidro grosso. A umidade palpável no ar, trazia consigo o gosto de urina fresca. Como num filme de zumbis fashions e elegantes, dezenas de travestis tentavam nos agarrar nas calçadas diminutas. As mãos apalpavam todos os quadrantes de nossos corpos. Em plenos pulmões, eu só queria gritar “minhas regras”, mas no fundo apenas pensava que devia ter dedicado mais tempo para a tonificação dos meus glúteos. O diretor parecia estar se divertindo, pois senti seu corpo um tanto quanto relutante quando o agarrei pelo pescoço e o arrastei em direção a luz.

Por menos crível que possa parecer, o plano havia dado certo. Surpreendemos o sujeito, que estava há pouco metros da gente. Desafiador, o tipo invadiu uma roda de capoeira para delírio geral. Aos poucos os risos deram lugar as palmas e eu logo compreendi sua intenção. O cineasta e eu paramos ao lado do berimbau, completamente embasbacados pelo show. Pela primeira vez estava em dúvida se a figura era um ginasta ou uma verdadeira assombração. Sem a mínima ideia do motivo, encarei o falso desprovido e fiz um gesto muito famoso em filmes de luta. Passei a mão na garganta, num movimento de degola e fiz uma cara de maníaco. Certamente uma cena patética, fruto de quem assiste muitos filmes e gosta de transportar arquétipos para vida real. Claro que o cretino nem se abalou, ao contrário, sorriu em provocação. Woody, que havia observado toda a sequência, vestiu o colete de diretor e me empurrou para o centro da roda.

De modo absolutamente improvável, como ganhar na mega-sena jogando os seis primeiros números, consegui desviar dos três primeiros ataques furiosos. Céticos diriam que foi efeito do vento, niilistas dariam o crédito para o álcool, eu prefiro acreditar que foram as sessões da tarde com o Van Damme. A luta despertou minha coragem, como facas despertam maldade e batons vermelhos o tesão. Mas como a sorte não costuma respeitar muito tempo os idiotas, o golpe seguinte atingiu minha testa e eu caí sentado. A cantoria aumentou, bem como o entusiasmo do meu adversário. Todo o movimento era um chute perfeito. A perna solitária me acertava sem parar, em lugares que eu nem sabia da existência. “Devia ter malhado glúteos” continuava voltando a minha mente durante a surra. As rasteiras tinham o atabaque como trilha sonora, o safado planava e eu mal podia ficar de pé. Se acreditasse em bruxas, centauros e alienígenas do passado, podia jurar que o maldito “Saci” havia feito um pacto nefasto com a maldita gravidade. Não apanhava tanto desde que Hanna havia me pegado espiando sua calcinha.

Cansado de comtemplar minha humilhação, o pequeno “corner” judeu avançou na direção do meu algoz, agarrando-o pela cintura. Os dois foram ao chão e começaram a rolar. Instantes depois, a roda tinha se transformado em uma comemoração de touchdown. Guernica de Picasso com purpurina e confetes no coração da cidade. Saímos de fininho, tal qual protagonistas de um desenho animado. Novamente o Saci estava alguns passos, ou melhor, saltos na nossa frente. A perseguição continuou por mais alguns quarteirões e o fato de termos sobrevivido era combustível suficiente. Estávamos próximos, o dilema estava perto do fim. Dobramos uma esquina e demos de frente com um imenso descampado onde uma multidão se apinhava. Nosso Santo Graal reluzia diante dos primeiros raios de sol. Ele ajeitou a bandana na cabeça, retirou o colete de pirata, puxou o cachimbo do bolso do short vermelho e sorriu de forma zombeteira em nossa direção. Como num passe de mágica de algum filme mudo, sumiu no meio da massa homogênea e acinzentada.

– Não falei que era um “Sauce”?!!! – Woody vibrou, ignorando a presença daquele exército de errantes que mal notava a nossa existência.

– Sim, você falou.

– Odeio ter razão, mas…

– Cala a boca e vamos tomar uma! – falei de maneira melancólica e girei nos calcanhares, deixando para trás aquele pedaço de lugar esquecido pelo carnaval.

 

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.