EntreContos

Literatura que desafia.

Mapinguari (Sílvia Werneck)

mapinguari

Nesse território vazio, todo o verde que agora me pertence é um quase nada. A mata formando muralha verde de não deixar atravessar gente, só sussurro de cachoeira beirando a estrada tinhosa. Silêncio de meter medo. A mata fechada tem barulho que só ouvido treinado pode ouvir. Sapo, rã, cobra, calango, onça, zumbido de inseto, passo de formiga de fogo.

O gleba de terra tornada realidade. Quem tinha amigo tinha tudo, militar rasgando estrada e servidor trabalhando em repartição pública. O título da propriedade saiu fácil, mais fácil que caçar tucunaré no baixio do igapó. Agora é botar tenência e cuidar dos arranjos que a chuva não demora a arriar. De primeiro, o vento chega, varando o céu, parecendo arrancar tudo, fazendo um zoadeiro estrondoso, torando galho, jogando árvore contra árvore. A mais fraca arriava no chão, tombando na terra pobre. Depois, o respingo achegava afastando tudo que é bicho. Aí ela caía forte, chuva branca despejada do céu, emendando com a terra, fazendo estrago na terra do caboclo. O vento zunindo no ouvido e as palmeiras caindo com a força. A barraca armada não aguentou tanta água, perdendo mochila, alimento, lampião. O jeito foi chamar ajuda, que homem sozinho nessas bandas não aguentava invernada.

Para chegar no sítio vizinho, uma pernada, mas o compadre é desinfeliz como eu, entende das aporrinhações. Como tem os seus de fazer, me empresta o de precisão e mais Ranulfo, que me ajuda a abrir picada no mato, rasgando caminho na terra virgem com o terçado afiado, colocando estacas para marcar propriedade nova, derrubando árvore para limpar terreno, fazendo aceiro, construindo tapiri para abrigar. Ranulfo é quieto, caboclo de não ter ouvido, vai torando o que encontra na frente sem se importar com sucuriju, onça, surucurana. Nem se importa comigo, que não lhe conheço. Nem ele a mim. Fosse um fugido da polícia, um assassino, um ladrão, me torava feito árvore. Ou eu a ele. Ainda deixava a carcaça para servir de comida para os bichos. Somos só nós dois neste mundo verde comendo a mata, deitando árvore para fazer morada. Chão encharcado, cheiro de lama podre subindo às narinas. A roupa molhada, colada no corpo. As árvores altas furtando a luz, as menores se amontoando por baixo, espremidas, querendo viver. Vida de árvore era que nem vida de homem, florescesse o melhor.

Seringueiras, castanheiras, sumaúmas, amapás, musgos, cipós. Com a picada feita, a luz vai riscando aqui e ali, metendo clarão no matagal. Ranulfo segue sereno, sério, num não falar que aperta o peito. Não era todo cabra que se acostumava com o silêncio do mato.

“Tudo isso pode ser um nada, mas pra mim é tudo, Ranulfo!”

“É só o doutor não especular com o ouro, que não arranja problema com os vizinhos.”

“Te aquieta, Ranulfo, que não sou homem de briga!”

“Doutor, temos visto muita gente assuntando nas matas, atrás de ouro, pedras, bicho e tudo o que é da gente.”

O caboclo tinha ciência do acontecido. Eu também. Farejavam num canto, se não avistassem nada, mudavam o passo e assuntavam noutro canto até achar o maldito ouro, do amarelo e do preto. E pedras, e couro de jacaré para fazer contrabando. Se encontravam índio no caminho, custavam a tomar aproximação. Se dessem gastura, abriam fogo. Era a estrada da morte, já tinha levado muito bicho. E índio, que também era uma espécie de bicho. Eu só queria a gleba de terra, sonho antigo. A estrada aberta, valorizando a terra. O milagre brasileiro. Militar povoando e cuidando do vazio amazônico. A gente fazia história. A noite veio com pressa. Os mosquitos entrando na boca, nos olhos, parecendo revolta, alvoroçados com a mata cortada.

“Não tem medo de se perder num matagal desses, Ranulfo?”

“Caboclo quando se perde, ou é cego ou tá caducando, doutor!”

“Aqui a gente não tem medo de nada, só faz aproveitar!”

“Bem se vê que o doutor não entende de nada. Aqui a bruxaria é verdade, fato de acontecer.”

Eu já tinha estendido minha rede nas estacas colocadas debaixo do tapiri e Ranulfo ajeitava a dele. Só faltava ajeitar o mosquiteiro que nem eu nem ele queria pegar malária. A lamparina de querosene trazia luz, dando para ver o rosto do caboclo envelhecido, pele morena, olhos puxados de índio, cabelos negros e escorridos. Ranulfo parecia querer colocar para fora o que lhe incomodava por dentro, o homem mudo desatou a falar ao mesmo tempo que um bando de guaribas começou a uivar no fim da tarde, pulando de galho em galho, guiados pelo macho mais velho. Chegou a assustar.

“Meu avô falava que a mata é de mistério e desafio!”

“Você tem família por essas bandas, Ranulfo?”

“Se tenho, um monte de curumim. Mas o doutor tá chegando agora, tem que saber que na mata o perigo ronda, os bichos saem para arranjar o que de comer e o que de tomar. Até formiga é de meter medo. Carece o doutor arranjar um cachorro, para dar sinal.”

“Falando em comida, estou com fome!”

“Calma doutor, que já vou assar uns tamboatás que eu achei no mato!”

“Isso é estória de pescador, Ranulfo! Onde já se viu achar peixe no mato?”

“Não é estória, doutor, esse é peixe do mato mesmo, costuma sair da água pra procurar alimento fora. A gente colhe ele que nem colhe castanha.”

Parecia que eu relembrava as estórias do avô, também caboclo. As pescarias que ele contava mais pareciam caçadas, trocando o anzol pelo terçado. Pai tinha vindo para a cidade, mudar de vida para os filhos terem estudo, deixando na mata meu avô e as estórias. Das estórias, eu relembrava agora com Ranulfo.

Ele contava na hora da sesta, quando o calor era insuportável e a gente procurava a proteção de uma árvore para se aguentar do sol, então se recostava nas redes, uns dormindo, outros conversando em voz baixa, porque ninguém era capaz de trabalhar no calor dos diachos. Eu escutava as estórias. Lembrava da boiúna, a sucuriju gigante de olhos de fogo que, à noite, tomava a forma de um tronco, percorrendo lagos e igarapés, destruindo as embarcações e engolindo pescadores. O curupira, um diabo preto que cavalgava pelo mato em cima de um caititu, com pés virados para trás, embaralhando o caminho dos caçadores. Me lembrei até da Matinta-Pirêra, a velha corcunda de um só dente na boca que saía pela mata com uma lamparina de nunca se apagar. Tinha ainda o Gorgo, que fedia mais que sovaco de mucura, um ser danado de pesado que penetrava nas barracas dos seringueiros de madrugada, deitando por cima deles até deixar todos desacordados.

“É por isso que o amigo ficou no desassossego nessa tarde?”

“Eu não tenho medo de nada disso não, doutor. Só tenho medo do Mapinguari, que aparece de dia. O bicho é todo peludo, passa bem por um tronco de árvore. Tem um olho na testa e a boca vai da barriga até o peito, abrindo na vertical. O cheiro é tão forte que atordoa a presa, facilitando a morte. Tem um bocado de força.”

“Não se avexe que tenho meu Colt aqui comigo, Ranulfo!”

“Não tem bala que atravesse não, doutor, nem flecha, nem terçado. Se encasqueta com um de nós, devora a cabeça e deixa o resto do corpo para os urubus, sem nem trabalho de enterrar.”

Só a desarrumação do encantado para dar fim à macheza. Tanto tempo vivendo no mato só com uma faca ao lado do bucho, perdia o tino. Disso tudo, meu pai quis se livrar, dessa consumição de magia que não servia para nada. Se queriam proteger a terra, ela já ia sendo desvirginada. Juntamos os galhos, preparando a coivara, na data certa permitida pelo INCRA. As chamas engolindo bambu, palmeiras e o que mais fosse, galhos e cipós estalando e sumindo nos novelos de fumo, matando tudo o que era verde e tivesse vida. Ranulfo voltou embirrado.

“E essa íngua no pé?”

“É uma estrepada que dei no toco. Um pouco de banha de sucuriju sara.”

“E onde eu acho isso, Ranulfo?”

“Na casa da Maria Preta, dois sítios adiante. Mas o doutor tem que tomar tenência que o marido da Maria Preta é lobisomem nas noites de sexta-feira.”

“Lobisomem?”

“Sim doutor. Não respeita cão, espingarda ou padre. Faz um estrago danado nos galinheiros.”

A noite caindo, achei melhor dar pernada até o sítio da Maria Preta na manhã seguinte. Comemos o peixe assado. A água que Ranulfo tinha achado no igarapé próximo era boa e limpa. Só a íngua do Ranulfo fazia estrago. A ferida aumentando, o caboclo entrevado e se queixando de dor. Sorte minha que era quinta-feira, sem ter de me preocupar com lobisomem porque a cabeça já andava buliçosa de tanto problema. Ao chegar no sítio da Maria Preta, expliquei do acontecido, reparando na cor do marido da dona, tão amarelo e esquálido de dar má impressão. Na embirração, nem cumprimentou.

“A senhora não é visitada pelos amigos do alheio?”

“Não tem um cabra por essas bandas capaz de me roubar um sabugo de milho, doutor!”

“E por que?”

“O povo acredita nas crendices. Com meu marido doente de malária, o jeito foi inventar que ele é lobisomem para não sofrer aperreio. Toma, leva essa banha de sucuriju para o desinfeliz que amanhã mesmo o homem está de pé. Como é mesmo o nome dele?”

“Ranulfo!”

“Conheço não!”

“Decerto é novo nessas bandas!”

“De certeza!”

Despedi da mulher e apressei o passo, porque a chuva branca não demorava arriar. Chuva branca chegando, despejada do céu, emendando com a terra, fazendo estrago. O vento zunindo no ouvido e as palmeiras balançando com a força. Zoadeiro estrondoso, torando galho, jogando árvore contra árvore. Vida de árvore era que nem vida de homem, floresce o melhor. Chegado no sítio, procurei por Ranulfo, deitado na rede, pé para cima. Espalhei o unguento na ferida. O homem se aliviava da dor. Deitei também, olhando a chuva lavar tudo à volta. Temporal passageiro, logo serena para eu cuidar dos arranjos. Fecho os olhos. Descanso enquanto espero a chuva passar. Então, sinto um cheiro insuportável que me causa tonteira, vontade de provocar. Uma sombra me cobre, uma garra me aperta o pescoço, procuro por ar, mas minhas mãos só conseguem tocar no pelo duro, tão duro como se fosse um escudo.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.