EntreContos

Literatura que desafia.

Fissuras (Bill Denbrough)

Cresci ouvindo essa ladainha de que meu pai era o Boto que em noites de festa junina se transformava num moço. Balela, papo furado, eu bem sabia. Mesmo assim, perdi muitas noites indo até a beira do rio, me esgueirando entre as pedras, observando bem quieta na esperança de vê-lo. O que eu faria se ele aparecesse, era um pensamento pra se ter depois. Um passo de cada vez, era o que minha vó costumava me dizer. Fiz isso até me tornar moça.

Ele nunca veio. 

Hoje, mais cedo, ao retornar à minha cidade, não pude controlar o impulso de revisitar aquelas águas. Fugi da minha família afoita pela saudade e do clima festivo de junho para me sentar sobre aquelas pedras. Aquela era uma fé que havia sido enraizada em mim quando criança, uma desculpa tão injusta que, ainda hoje, mesmo já tendo atingido a maior idade, me assombra. É estranho esperar por algo que você sabe que nunca virá.  Quem seria meu pai senão o Boto? Mamãe nunca tocava no assunto. As vizinhas e minha vó é que diziam: O Boto, menina, ele se transforma em moço e vem deixar suas crias. Mas na escola mesmo eu nunca podia dizer que meu pai estava nadando no rio, despreocupado. Enquanto isso, eu tive que aprender a nadar sozinha.

Minha mãe não batia muito bem da cabeça, nunca nem procuraram saber o porquê, eu imaginava que deveria ter ficado assim depois de ter percebido que caíra nas graças de um ser que era homem e era bicho… Ou talvez não fosse nenhum dos dois, mas quem iria nos dizer? Só uma vez ela me contou aos sussurros que meu pai tinha sido um homem muito bonito e gentil, depois disso, nunca mais. Perdeu-se entre os lençóis nos varais sem nem me dar tempo de perguntar se ele tinha bigode e cabelos, porque soava estranho que um Boto transformado em homem tivesse muitos pelos, fazia mais sentido assim, com a cara pelada… 

Sempre me doeu esse passado que não me pertence, essa raiz que desconheço, esse medo de não saber o que sou… Por isso há alguns meses fui-me embora morar na casa de uma tia em outra cidade. Fui pensando em deixar esse medo, essa falta, essa esperança sem pé nem cabeça… Mas estava tão enganada. Longe de casa é que os buracos no peito incomodam. Toda a gente me olha, mas não me enxerga, não sabem de mim. E eu sem nem poder correr até o rio e culpar o Boto pela minha desconfiança sobre o que sou. Agora estou de volta, diante dessas águas e mais desesperada que nunca.

Há um segredo crescendo em minhas entranhas e não posso compartilhá-lo com ninguém sem antes entender o que sou. Conheci um rapaz no bairro em que morei com minha tia e sei que ele é homem e apenas homem, sem traços de bicho. Ainda assim, sinto que o que cresce em mim não é tão singular. E só quem pode me responder é esse pai-fantasma que se transforma em Boto para fugir das obrigações terrenas e sumir nestas águas, sem vir ao meu encontro, sem me dar explicações ou consolo. Deixei a descrença e a duvida na cidade da minha tia, vim pensando muito nisso de que hoje sou moça, que cresci sem pai e com uma mãe louca… E que agora gero outro. Se ele possui bracinhos, perninhas e dedinhos ou pequenas barbatanas, eu não sei. Queria saber. E meu pai não vem me dizer, não vem me explicar como se transforma em bicho e como é possível que eu que me transforme em mãe sem ter todas as respostas do mundo, como a minha.

Acariciei a minha barriga ainda escassa enquanto caminhava em direção ao rio, o meu filho cresceria tendo um pai e eu já tinha decidido que não me transformaria em mãe sem antes aprender a tapar o buraco no meu peito. A água morna foi envolvendo meu corpo, como um colo, como uma casa, como uma argamassa tapando minhas fissuras. Então, de repente, eu o vi. Vinha submergindo na água muito lentamente. Meu corpo todo estremeceu porque mesmo quando esperamos por milagres, nos chocamos quando eles acontecem. Esforcei-me para ir contra a correnteza do rio e me aproximar mais dele, aos poucos fui analisando, sanando duvidas, procurando semelhanças. Tinha os olhos muito grandes, na cabeça havia um buraco que não escondia. Os lábios grossos, ombros e braços musculosos. Era bonito, mas com um aspecto humanoide. E eu tão mulher, tão gente… Como podia?

– Aceita quem você é. – Falou num tom austero, como se de repente tomasse de volta toda a autoridade de pai que havia abdicado ao me deixar. – Existem respostas que só alcançará assim. Não há medo, não há vergonha, o que tem é minha ausência, mas também tem o que de mim deixei em você.

Então meu pai começou a se afastar à medida que eu me aproximava. Meu coração acelerado e respiração ofegante não impediam que eu continuasse a caminhar mais e mais fundo no rio. Quando todo meu corpo estava submerso e meus pés não tocavam o chão, agitei os braços e as pernas e fiquei em paz. Sentia que o rio me acarinhava como acarinhava meu pai e aquele carinho era tão bom que eu quase podia entender que não o tenha deixado para me ver. Talvez eu pudesse optar por ficar ali, recebendo aquele acalento e parir meu filho e dizer: Sente, criança, sente o carinho das águas e cresça desde já com todas fissuras tapadas. Porque naquele momento eu também me transformava em alguma outra coisa, sem saber no que. Era gente, bicho, mãe, buracos, fissuras tapadas, me transfigurando toda no ritmo daquelas águas.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.