EntreContos

Literatura que desafia.

Diabo na corrente (O Etrusco)

Mal tinha eu descido do ônibus e o padre Josefo já me esticava a mão para cumprimentar. Sorriso nervoso na cara. Suspeitei que não quisesse ter ido me buscar na rodoviária. Minha mãe deve tê-lo pressionado, pensei. Sentia-se em obrigação com minha família desde que meu pai lhe livrou de um quiproquó jurídico há muito tempo.

– Não trouxe mala?
– Trouxe não, padre. Amanhã já vou embora. Só vim pra quermesse, minha mãe insistiu.
– Ela organizou uma baita festa, o dia de Santo Antônio esse ano vai ser lindo.

O carro do padre se arrastava, gemendo pelas ruas de terra da cidade. Depois de dois anos morando na capital, a ausência de asfalto, semáforos e prédios de vidro me deram a sensação de estar em uma vila primitiva. As árvores crescendo selvagens, visivelmente intocadas pelas mãos de um urbanista e os senhores barrigudos que conversavam em cadeiras de plástico postas na calçada em frente às casas reforçavam essa impressão. O carro passava devagar e eles me olhavam atentamente, me buscando na memória. Olhavam-me diretamente nos olhos. Muito primitivo.

Minha memória me alertava toda vez que virávamos nalguma rua. Acho que vim aqui com o Baiano uma vez. Foi nessa rua que o Teta e o Morto foram atacados por um cachorro. Ali foi que dei o terceiro ou quarto beijo, foi com a loirinha que sentava lá na frente. Não achei que essas lembranças brilhariam tanto, deve ser sinal de idade.

O padre parou o carro em frente a uma pracinha completamente deserta. Mãos no volante. Os dedos contorciam-se nervosos, encenando uma aranha agonizando. Fiquei encarando-o com cara de “que é?”.

– Eu tenho que te contar uma coisa sobre seu amigo. O Narciso.

Fez mais meio minuto de silêncio, buscando palavra. Quando foi falar, sussurrou como se temesse que as sombras das árvores pudessem esticar o ouvido para ouvi-lo. Fez aquele preâmbulo típico da fofoca.

– Você sabe que eu não sou de falar da vida de ninguém. Sendo padre, se quer saber, sou até proibido de contar coisas que me são confessadas. Mas o caso é sério. Olhava por cima dos ombros e para o retrovisor a todo momento.

– Sei.

– Deve ter por uma semana que ele entrou no confessionário se vangloriando de ter ganhado uma aposta. Fedia a cachaça. Eu disse que para se confessar era necessário antes um pecado, a não ser que ele tivesse trapaceado… Pecado é o escambau! Eu num vim confessar, padre. Eu vim te dar um aviso. As coisas vão mudar aqui nessa cidade. Daí começou a contar que ganhou nas cartas de um galego que nunca tinha visto por aqui. No meio do jogo percebeu que o galego era o próprio Demônio. Eu sei o que parece, me ouve. Aí ele disse que teve uma ideia. Lançou um desafio. Que se perdesse, podia lhe levar a alma. Mas se ganhasse, o galego ia realizar um desejo. Qualquer desejo. Ele ria de um jeito tão feio, nem parecia aquele menino pequeninho que vivia atrás de você. Eu enganei ele, padre! Tava com umas cartas escondidas. Dissimulei tão bem que nem o capeta percebeu. E depois enganei ele de novo. Sabe o que eu desejei? Na esperança dele acabar mais rápido, dei trela. O quê? Eu falei pra ele que agora ele tinha que me contar o nome verdadeiro dele. E ria que não parava. Antes de sair apontou para o altar. As coisas vão mudar!

– Ok. Entendi. O senhor acha que é bom eu conversar com ele? Dizer pra parar de beber?

-Antes fosse isso, filho. Eu não tava levando ele a sério, claro. Mas a forma como ele apontou pro altar. O fogo no olho que mirou no Salvador me deixou apavorado. Você sabe que sou um homem cético, mas vi que tinha alguma coisa estranha nele. Conheço o homem desde que era menino. Sei de tudo que é ruim que ele carrega. O que faiscava na vista dele é novo. Não é o mesmo.

– Padre, sinceramente.

– Você vai ver. Escuta só, no dia seguinte ele “pediu demissão” da oficina. O Sebastião me contou que ele não apareceu pra trabalhar, ficou preocupado. Ligava, ninguém atendia. Foi até a casa dele. Diz que o Narciso já abriu a porta todo grosseiro. Que tu quer? Disse que não precisava mais daquela droga de serviço, chamou a oficina de lugarzinho de merda. Você conhece o Sebastião, é cabeça quente. Parece que brigaram feio. De rolar no chão. Se os vizinhos não viessem acudir, diz que acontecia tragédia. E agora ele anda cheio de dinheiro. Sai toda tarde, volta com os bolsos cheios. Dizem que fica de bar em bar, só no carteado. E não perde uma.

– Vou falar com ele sobre a cachaça. Mas ele é adulto, padre. Se quiser pedir demissão pra viver das cartas, problema dele! Vou é dar parabéns e ver se um pouco dessa sorte não sobra pra mim, já tem quase ano que num arrumo emprego. Agora, podemos seguir ou a festa vai ser aqui mesmo?

O padre acenou com a cabeça, conformado. Acho que devo desculpas, talvez tenha soado mais grosseiro que esperava. O pior é que ele tinha alguma razão, era mesmo estranho isso do Narciso. Nunca foi homem de escarcéu. Dado a uma cachaça, mas quem não é? Desde pequeno assim, quieto. Demais até. Me seguia pra todo lado, concordando alegre com tudo que eu opinava. Nunca bateu boca comigo nem com ninguém. Baita senso de responsabilidade. Ou o coitado tá ficando louco ou se descobriu um gênio do carteado. Ou vai ver ele ganhou governo de um capeta mesmo.

Chegamos na casa da minha mãe, que já me esperava no portão, e seguimos a pé para igreja. Era ali pertinho. Nem perguntei nada do Narciso pra ela, parecia já ter muito na cabeça.

A igreja tava toda arrumada, bem bonita. Enquanto eu concordava, meio distraído, com minha mãe sobre como a vida na capital não é vida, acertei com a vista no Narciso. Encostado em uma pilastra fazendo pose de malandro. Me olhava e ria o que pensei ser um riso de alegria por me ver. Fiz pra ele um sinal de cigarro e apontei com a cabeça pra nos encontrarmos lá fora. Dei um abraço forte nele, fazia dois anos que não nos víamos. Um telefonema vez ou outra, mas foi pouco. Parecia bem. Muito bem. O padre me criou uma figura acabada, suja e bêbada na cabeça. Essa aqui tava saudável e sorridente. Elegante até.

– Ainda desempregado? Perguntou em tom de desaforo. Estranhei, num era assim que ele falava. Bobagem, pensei. Coisa da minha cabeça. Ele só fez uma pergunta. Muito justificada, aliás. Eu é que tô entortando a conversa. Devia é esquecer as besteiras do padre.

– Pois é, rapaz. Tô.

– É… Acho que tá difícil pra todo mundo mesmo.

– Fiquei sabendo que nem pra todo mundo. Cê largou a oficina? Tá se virando como?

A risada que ele deu me trouxe na cabeça uma imagem de desenho animado. Aqueles vilões que riem forçado e esfregam as mãos planejando suas vilanias . Invés de fazer graça, a imagem me deixou assustado.

– Eu me viro. Homem mesmo não precisa de ninguém. Nem de mãe, nem de padre, nem de burguesinho engravatado pra dar emprego como se fosse favor.

Olhei feio. Não era impressão minha, foi isso mesmo que ele quis dizer. Esfriei o sangue e respirei fundo. Num vim até aqui pra arrumar briga com amigo, eu me disse. Se o safado acordou atormentado e quer descontar em mim, que se lasque. Num vou dar gás.

– Mas aconteceu alguma coisa lá na oficina? Falaram que cê brigou com o Tião.

– Aconteceu que eu num vou ficar abaixando a cabeça pra vagabundo que acha que manda em mim. E num foi briga, não. Eu bati, ele apanhou. Isso não é briga, é surra. Aquele lá vai morrer esturricado antes de querer vir falar grosso comigo de novo.

– Tu tá esquisito pra porra, hein?! Eu num queria me estranhar com Narciso, mas num tava dando. Parecia outra pessoa. O sujeito que cresceu comigo era bom, educado. Falava sempre manso com as pessoas, pra não incomodar ninguém. Se pecava, era pela mansidão com que tratava até quem não merecia. Isso aí que ele virou era bruto, cínico. Dava risada o tempo todo e não como quem acha graça, mas como quem quer machucar.

– Esquisito o escambau! Agora é que eu tô vendo direito. Eu sei que o padre te contou, e é verdade. Cê logo vai entender. Você ainda mais que eles todos, rapaz. Sempre olhou pra mim como se eu fosse um bosta!

– Cê tá louco?!

– São pra caralho! Tô até combinando com um camarada de ir pra capital. Levar meu nome pra lá, entende? Eu passo pra te ver na sua casa. Só tenho que acertar uma coisa aqui antes.

Ele falou olhando nos meus olhos, em tom de ameaça. Não cheirava a bebida, tava sóbrio. Fiquei indignado, era mentira essa história. Nunca me aproveitei dele. Ao contrario, eu que protegia ele quando moleque mais velho queria dar nele. Eu que ajudava nas lição que ele era burro demais pra fazer. Só não aconteceu nada ali por que de repente começou uma gritaria dentro da igreja e eu corri pra ver o que era. Minha mãe veio chorando e me abraçou. Disse que num ia mais ter festa, tava todo mundo indo pro hospital. Ver a Lurdes, ela disse. Diz que vinha ela e o Sebastião pra quermesse quando ele foi querer pegar um pedaço de fio que atravessava a estrada pra jogar no mato. Só que o fio tava pendurado no poste, ele num tinha visto. A coitada ficou vendo o marido gritando e se contorcendo, grudado no fio. Teve um ataque de ver uma coisa dessa e internaram.

– O Tião…?

– Jesus. Os meninos que levaram ela pro hospital disseram que o coitado ficou esturricado. Seco. Parecia um pedaço de carvão. Chegou a encolher, falaram.

Narciso, que tava encostado num canto, ergueu a mão simulando um brinde. Fiquei até sem reação. Se tinha diabo envolvido eu não sabia, mas o que eu tinha certeza era que ele tinha mudado. Muito. Deve ter endoidecido. Virou um homem ruim, cruel. Um grandessíssimo filho da puta.

À noite, na casa da minha mãe, o padre apareceu querendo conversar comigo. Pra saber do Narciso, de certo. Eu tava sem um pingo de paciência. Me tranquei no quarto e mandei minha mãe dizer que já tava dormindo. O padre deixou recado. Disse que precisava me ver no dia seguinte, se eu pudesse passar na igreja rapidinho antes de ir embora, ficaria agradecido. Eu ainda tentei me enganar dizendo que passava por lá antes de ir pra rodoviária, mas no fundo eu sabia que essa conversa com o padre ia ficar pruma próxima.

No ônibus voltando pra casa foi que eu fiquei pensando. Lembrei de uma coisa estranha. O Narciso disse que o Tião ia morrer esturricado antes de querer falar com ele de novo. Me deu um arrepio e senti uma urgência de olhar sobre os ombros. Eu não acredito nessas superstições, mas no momento em que liguei uma coisa na outra ouvi a risada do Narciso de dentro da minha cabeça, como se ele estivesse ali esperando que eu entendesse. A sensação de que alguém me observava me acompanhou até em casa, onde achei que estaria seguro.

Tinha três ligações não atendidas na secretaria eletrônica. Eram da minha mãe. Deixou mensagem. Fui de cômodo em cômodo enquanto ouvia seus soluços gravados na fita magnética. Abri a janela da sala para entrar ar e puxei uma cadeira, me recostei com o corpo todo tenso. Acendi um cigarro e dei um longo trago. Um vento quente entrou forte agourando a casa inteira. Já não importa o que eu acho que acredito ou não. Padre Josefo tá morto.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.