EntreContos

Literatura que desafia.

Cadu (Gólgota)

– Mas já? Acabei de deitar! – O celular berrava insistentemente enquanto uma mão tateava o criado mudo em busca do silêncio, da paz, um arrastar desajeitado de tela para cá, sem nem mesmo olhar, e o silêncio reina.

Por um minuto, e os berros retornam.

– Não é possível, cê tá de brincadeira com a minha cara, que porra de soneca foi essa? – Uma que não é soneca, mas uma ligação para ele – Quem telefona hoje em dia? – O código de área entregava, claro: alguém da terrinha, de casa, não casa, não, não dele, não desde muito tempo…

– Oi? Sim, sou eu… sim, sim… quê!? Tô indo. Sim, agora.

O Cadu morreu. O estômago redemoinhava e a barriga era geleia e a cabeça doía e ele estava abraçando a privada e vomitando, mas nada saía, como não saiu o grito, como não saiu o ar, como não voltava a força para as pernas.

O banho demorou, muito, nada das duchas rápidas pra ir pro trampo apressado, foi um banho propriamente dito. O quarto ele largou, como a casa, do jeito que tava, desceu, pegou o carro quase daquele jeito sem pensar de quem nem olha se tem gasolina e ele nem sabia como de repente estava na estrada.

Agora eram algumas horas em que seria ele, o volante e as lembranças. E claro os outros carros em volta dele.  Não gostava de carros, eram apenas máquinas para ele. Conseguia distinguir os sedans dos compactos das caminhonetas, mas era isso. Cadu achava isso completamente inaceitável. Como assim você não entende o que é uma caminhonete e o que é uma pick-up? Existe um universo de diferença entre um Monza e um diplomata, Cacá, você é um cara tão espero…

Era sempre assim, Cacá, você é um cara tão esperto… Porra Cadu, que merda cara… ele se concentra no plástico grudando na mão, no sol torrando a cara, a música trovejava enquanto os vidros espalancados deixavam o mundo entrar e o vento varrer as lembranças.

O mesmo ipê sinalizava a entrada. O mesmo ipê, isso taí faz quanto tempo? Duas ruas, uma avenida, o riozinho de apostar corrida de folha, esse lugar não muda. Mas tinham prédios novos, quando eu era moleque isso era tudo mato. Não pôde evitar.

O portão verde, a calçada portuguesa em losangos, o pingo de margeando a grade, tudo era igual. Igual, exatamente igual.

A sala era diferente. Mais moderna, o VHS sumiu e agora tem TV a cabo. Bom… muito bom.

– Oi, mãe? Cheguei. – Ela estava parada, sorria. Parecia menor. Não...

– Vem cá filho. – Os braços se abrem, o corpo sorri, um passo a frente e então se fecham. Lágrimas escorriam por sobre bochechas espremida e um teia de pequenos sulcos sobre a pele.  – Cê virou um homão, Carlinhos.

Não pôde controlar o riso, nem viu porquê. Estava em casa.

Encontrou seus próprios olhos em um retrato, quase não se reconheceu, mas a camisa listrada verde e branca de helanca atrás.

– Cadê ele? – Os braços se soltam e o abraço vira um aperto de mãos, as quatro, as dele dento das dela, ele tinha que abaixar um pouco a cabeça para olhar em seus olhos agora, quando foi embora não foi assim.

– Ele não vem, filho.

– Ele não vem!? Como assim, o Cadu vivia aqui em casa! Que velho escroto! Por que que ele não vem?

– Ele nem sabe mais dessas coisas filho, ele tem Alzheimer, ele nem lembra mais nem de mim…

– Desde quando? Como assim? – Por…

–  Faz pouco tempo, muito pouco tempo…

– Então…

– Eu não liguei porque nem sabia se você queria saber, se ia mudar alguma coisa.

– Tem café? Cacá, você é um cara tão esperto…

– Claro filho – o sorriso era de canto de boca, um sorriso reconfortante. Ela entende.

– Come alguma coisa, depois cê vai. Sabe onde é? – O senso prático assumia o controle, era isso ou se deixar levar, ela sabia disso.

– Sei. Sei sim.

O café desceu amargo, quente. Pão. Meia Cura. Casa.

Ele desceu uma alameda de flamboyants, seis quarteirões mais longe, só por que dava para ver o muro da escola. Ainda tá lá. Será que arrumaram o alambrado? Quantas vezes gente atravessou a fenda? Centenas. Para jogar bola. Sempre. Sempre para jogar bola.

A.U.

– Oi? Ninguém em volta. Que esquisito.

A igreja matriz ficava em frente a uma grande praça, todas as ruas do centro convergiam para lá. A Maior avenida da cidade passava embaixo. O mapa de todas as cidades em um raio de muitos, muitos quilômetros.

Antes de encarar a verdade, um pouco de coragem. Gelada.

– Uma breja?

– Qual? – A careca rodeado de fios grisalhos entregava um a idade que o corpo maciço negava, poucas pessoas olhavam Cacá tão de cima, esse homem olhava.

Qualquer uma, só me vê gelada. – O riso era nervoso, quem é esse? – Quanto? Tó, obrigado.

A marca era deliciosamente desconhecida, ainda mais pelo preço absurdamente baixo.

A.U.

– Oi? Que porra é essa?

– Nada. – As mãos faziam círculos no balcão.

– Tá. Esquisito.

– Voltou? – Era quase um rosnado, a dentadura levemente solta na boca.

– Só por hoje.

– Bom. – E uma tosse seca a soltava ainda mais. Ele arrumou, sua dignidade restaurada. – Bom. – A mesa quadrada de metal estava toda desgastada, as calças beges, as meias pretas, a sandália. Igual, tudo exatamente igual.

– … . Velho escroto.

– Seu amiguinho, né? – Uma hipótese de sorriso relampeou em seu rosto.

Gole –  É. – Gole.

– Bom. – O corpo todo concordava, um leve balançar para frente e para trás.

A.U.

Ninguém tinha falado nada. Os lábios secos estavam imóveis. Que porra é essa?

– Eu… – os pés o levaram, rápido, a calçado de basalto amarelado, ampla. Será? Não, eles escaparam.

Quantas crianças gostam do cemitério? As lápides eram testemunhas de muitas tardes, de muitos segredos, não só de quem emprestavam os nomes e os rostos, mas dele também. Eram um oásis de privacidade. Os mortos não falam, Cacá! Você é um cara tão esperto… havia uma ironia ali, ele sabia, Cadu também sabia. Até o túmulo! Eles juraram. Não deu, né? Não deu mesmo…

A.U. – Ali – No canto do olho um movimento. Um bezerro? Não!

Apressou o passo. Chegou.

O velório se calou. Ele causava esse efeito, ainda? Não sabia por que estava surpreso.

– Oi, Dona Chica, eu… – o quê? Eu, o quê? – Dona Chica não precisava, os braços estavam abertos, um óculos grosso com olhinhos de gato o encaravam, por trás, apenas lágrimas, na mão um lenço branco e sobre os ombros uma echarpe negra, os cabelos num birote no alto da testa. Hoje é dia de abraços e lágrimas, aparentemente.

– Você! – A voz de trovão, dava para ouvir o bigode naquela voz, ainda mais assustadora por vinha sem um rosto, das costas.

– Oi. – Se soltou do abraço já virando, se aprumou e esperou, não sabia bem o que. – Eu vim.

A.U. Forte agora. Perto. Ninguém se abalou. Só eu.

O bigode não sorriu, os olhos quase escondidos embaixo de duas taturanas eram apenas pontos negros em um rosto muito magro.  

– Ele gostava de você. Só Deus sabe o porquê. – Ele passou, sem cumprimentar, sem abraços. Apenas passou e parou aos pés do filho. Cacá se virou e encarou Cadu pela primeira vez. Até os nomes combinavam.

A.U. Porra, só pode ser ele.

Ele tocou os pés, tocou as mãos, quando foi tocar os lábios outras mãos o empurraram. Não chegou a cair, mas balançou. Quem? Otávio.

– Tavinho…

– Otávio. Você me chama de Otávio. – O rosto vermelho, a voz esganiçada, os nós dos dedos brancos. Ele nunca vai esquecer, ou entender. – Faz o que tem que fazer e vai embora.

A.U. A. U. Porra, preciso ir embora daqui. Porra Cadu, por quê?

– Você tá ouvindo? – O rosto vermelho deu lugar a um sorriso. Uma versão mais ova e mais feia de Cadu o encarava. – Tá, né?

– Tavinho? Você também…

– Otávio, porra. Não ouço não, mas ele ouvia, nos últimos tempos, o tempo todo. É coisa de vocês ouvir essas coisas, eu não, eu sou casado. – O rosto serenara, mesmo que o coração não.

– Otávio… mas ele ouvia? Eu achei que…

– Ele volta, se alguém acordar ele, ele volta. E ele lembra. Talvez não na cidade grande, mas aqui, aqui a memória é mais longa. Aqui todo mundo lembra. – Todo mundo lembra. Todo mundo lembra da gente correndo. Todo mundo lembra. Todo mundo lembra e eu fui embora. Todo mundo lembra, e nunca te deixaram esquecer, né, Cadu?

Ele encarou o corpo, frágil, pálido, rígido. Cacá, você é um cara tão esperto…

O silêncio ficou alto demais, ele saiu. Um pouco de ar, preciso de ar.

Assim que pisou a sala explodiu em rumores. Todo. Mundo. Lembra.

A.U.A.U – Algo se movendo, algo grande, branco, peludo, algo do passado, se movendo, no canto do olho. – Mas é dia! Era quase uma súplica, mesmo que para ninguém.

O cigarro tinha demorada a chegar, mas era hora. Puxou o maço do bolso.

A.U.A.U.

O isqueiro falhou. Sempre falha na primeira. Um trago.

A.U.A.U

– Cadê você? – Alto demais, os rumore às suas costas cessaram. Todo mundo lembra.

Ele não via, mas sabia quem era. Sabia exatamente quem era. Cadu e ele brincaram com coisas que não dava para manter escondidos, segredos entre túmulos. Não eles exploraram, eles descobriram, eles viram, eles sentiram e eles, finalmente, erraram. Foram longe demais, quiserem privacidade demais. E ele veio atrás deles. Uma dessas coisas que não tem porquê. Eles podiam sentir seus olhos o dia todo. E podam ouvir o caminhar entre as folhas. E viam pelo canto dos olhos o grande vulto. E sabiam, um dia ele viria, logo.

Dá primeira vez que ele veio expulsou os dois do cemitério onde faziam segredos, os perseguiu até o centro, até a palmeira imperial que tem do lado da igreja. Até ali, para todos verem. Então e fui embora, mas você ficou. Para viver com aquilo, todos nunca esquecem.

A.U.A.U – vinha da frente – A.U.A.U – do lado – A.U.A.U – Do outro lado – três passos para trás, errou, de costas é mais difícil e um pequeno degrau foi o que precisava para cair estatelado no chão. PLAU. Todo mundo lembra.

Ele se levantou, os olhos fitando o chão, ele sentiu o bago na nuca, levantando calmamente a cabeça. Ele sabia o que via. Mas não sabia o que via. Era uma ovelha. Mas era uma onça. Mas era também…gente? Era as três coisas e era nenhuma. Não como um boneco remendado, mas como um filme sobreposto ao outro, duas imagens mescladas, dois corpos existindo no mesmo tempo no mesmo lugar, mas, ao mesmo tempo, em outro lugar.  Como ele. Duas imagens, sobrepostas, até uma ser arrancada.

A.U.A.U.

– Todo mundo lembra, né? Eu não vou brigar. É verdade, É.

A.U.A.U.

Ele encarou os olhos do bicho como deu, tentando focar em uma das pupilas, tentando um contato, algo. Era difícil distinguir, era difícil entender o que ele via, mas havia uma certa familiaridade, uma certa…

– Cadu!?

A.U.A.U. Cacá! Você é um cara tão esperto…

Era Cadu e era Cacá, e ele estava ali, e era eles, e todo mundo lembra, e agora, não fazia diferença.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.