EntreContos

Literatura que desafia.

Afluentes (Mandu Ladino)

download

O corpo boiava rio abaixo. As garras seguraram-no pelo calcanhar e o arrastou até a margem. O céu encoberto, embora não significasse, precisamente, chuva por aquela terra desolada engolia as estrelas numa voragem de besta-fera. Escondeu-se atrás da vegetação seca que se entrelaçava e tornava-se uma pequena selva de galhos cinzas desnudos.

– Crispim, meu filho, não volte tarde!

– Não enche, velha dos infernos!

Não agradecia a roupa limpinha e engomada a ferro em brasa. O alimento escasso, mas constante no prato ralo, os poucos trocados que ela lhe dava para os cigarros e a cachaça. Não. Era obrigação dela. Afinal de contas não pedira para nascer no meio daquela merda toda, daquela miséria capaz de tirar o apetite da esperança. Quem pariu Mateus que o embalasse agora, já marmanjo. Nem um marido conseguiu segurar direito ao lado dela. Bem feito!

O corpo não estava pronto ainda. Haveria a hora em que a verdade lhe invadiria. Aí, sim, o serviço seria feito. Tinha que esperar um pouco mais. Acocorou-se. As garras afiadas começaram a desenha algo no chão ressecado. Parecia uma casa, uma tapera de palha, com direito a chaminé, fumacinha e tudo mais. Arfava. Não gostava de recordar o passado. Mas como fazer? Era o guardião de todos os passados. Tudo afluía na mente dele. Todas as sombras daquilo que já foi um dia, desde aquele maldito primeiro dia, desembocavam na foz de sua consciência.

Respirou fundo. O cheiro da água do Velho Monge, embora um tanto moribundo, ainda era forte o bastante para lembrá-lo de todo o reino aquático que comandava. A pele lisa e escamosa cintilava nos fugidios raios lunares que escapavam do abraço abafado das nuvens. A cabeça, iluminada, parecia um outro satélite natural, devido ao tamanho. Soltou uma espécie de urro, ou um gargarejo borbulhante. Estava prestes a acontecer.

– Ô, meu filhinho, Deus te abençoe! Você não viu um dinheirinho que estava no bolso do meu avental não?

– Peguei, bruaca! Tava sem cigarros.

– Mas filho, era pro meu remédio…

– Problema o teu! Assim é até melhor, vai que tu morre logo!

– Filhinho…

– Quem foi que já viu o cabeça-de-cuia nadar, no Rio Parnaíba e depois afundar! Não é ilusão, nem imaginação, é o filho maldito que a lenda contou…

Ouviu um barqueiro cantarolando tranquilamente rio abaixo. Uma força maior do que ele o fez se esgueirar até as margens. Urrou com fúria.

– Tesconjuro! – disse o homem, se benzendo e olhando para todos os lados, começando a remar desesperadamente.

Ia já mergulhar para dar vazão à sua sina, quando se recordou de sua missão ali. Pacientemente, controlou seu impulso instintivo e voltou a observar o corpo. Sabia que ele estaria pronto mais cedo ou mais tarde. Passara pela habitação de palafitas várias vezes, sempre guiado pelo barulho distorcido que a voz humana fazia do lado de fora da água. Sabia que eram gritos. Na fundura que nadava, conseguir ouvir alguma coisa da superfície, só sendo som bastante alto.

Uma noite, espreitou-os, com metade da cabeça para fora da água. Conseguiu testemunhar o exato momento em que ele a esbofeteou. Sorriu satisfeito. Sabia que era ele. Sua busca havia terminado. Estaria com os outros em breve.

– Crispim, meu filho, paciência tem limites! Não admito que você fale nesse tom de voz comigo!

– Não admite? Não admite? Tu tá maluca, velha duma figa? Tá pensando que tá falando com teus machos? Deixa só eu te ensinar o que é que tu admite ou não!

– Pare! Pare, meu filho, com isso! Eu sou tua mãe! Num faz assim comigo não, Crispim! Eu não mereço isso! Eu…eu…eu não mereço…não mereço…

– Toma! Toma, sua arrombada! Espero que agora tu aprenda a lição!

As lágrimas dela não o amoleceram na ocasião. Pouco se dava agora também. Para ele, ela nunca passou de uma sombra de nada. Só sentiu algo mesmo, quando caiu em si, pouco depois do ocorrido. Mas não foi choro, não foi piedade. Foi desespero. Algo ruim que começou a devorá-lo por dentro. Um fogo abrasador que o fez se jogar no mais fundo do rio, a fim de que apagasse aquelas chamas inextinguíveis.

À espreita, manteve uma rotina de todas as noites ir nadar por debaixo do soalho do casebre, escutando qualquer coisa que denotasse algo familiar, um barulho que soasse como passado, como presente, como um futuro certo e previsível. Chegou ao cúmulo do absurdo de passar um dia inteiro ali, naquela parte rasa do rio Parnaíba, entre os detritos despejados pelas residências famélicas de condições, de habitabilidade, só para ter certeza de que encontrara o que estava procurando desde que principiara sua existência.

– Anda, velha, cadê a boia que hoje eu tô com uma fome da moléstia!

– Olha, meu filho, o serviço não anda muito bom, quase não tenho mais freguesia para a lavagem da roupa, mãe não conseguiu muita coisa não, viu…

A panela amassada e sem cabo trazia em seu exterior a mesma miséria que continha dentro de si: um caldo ralo com um imenso osso de boi. Crispim olhou incrédulo para aquilo que estava em cima da mesa. Pegou a concha e retirou um punhado do caldo, para deixá-lo cair dentro da panela novamente, repetiu o ato inúmeras vezes, para constatar o quão rarefeito era realmente. Sua mãe começou a se perturbar com o silêncio do filho.

– Amanhã eu te juro que consigo algo melhor, meu filhinho, mamãe jura, viu? Você quer que eu arranje alguma farinha pra você fazer um pirão, quer? Eu vou ver se arrumo com a vizinha…

Ele se levantou da mesa, logo depois de passar o braço em tudo o que estava por cima e jogar ao chão.

– Tu pensa o quê, velha dos infernos? Que eu sou cachorro, é? Osso? É pra eu roer osso agora, é, fi di rapariga! Tu vai ver quem é cachorro aqui, sua cadela desgraçada!

E, pegando do osso no chão, partiu pra cima da pobre mãe.

– Toma, sua lazarenta! Toma, sua égua arrombada! Coma o osso você, desgraça! Num era osso o que tu ia me dar de comer, pois toma osso!

Quando parou, já exaurido de forças e sem fôlego, o rosto, a roupa toda salpicada, o osso recoberto por um molho, agora grosso e viscoso, enxergou a mãe, caída ao solo. O osso despregara-se de sua mão. Sentiu uma tremedeira tomar conta de si. A boca seca, forçou empurrar algum ar goela abaixo.

A mãe, inerte, já quase sem vida, ainda conseguiu fitá-lo. Um olhar brando, de candura materna, sem revolta, sem ódio, apenas amor, amor e receio pelo futuro do filho.

– Meu filhinho… – conseguiu ainda dizer, antes de ter a vida enxotada daquela carcaça.

Ele se desesperou. Olhava as mãos. Olhava aquela cena toda. Pensou na polícia. Na cadeia. Sentiu como se um fogo consumisse suas entranhas. Pulou a janela do casebre e se atirou no rio Parnaíba. Nunca mais foi visto. Não como Crispim.

O corpo começava a se mexer lentamente. Ele se agachou, encolhendo-se ainda mais. O jovem sentou-se, tossindo, expelindo a água do rio que engolira. Estava aturdido. Pôs-se de pé. Coçou a cabeça. Foi quando olhou para as mãos. E, num átimo de segundo, relembrou-se de tudo o que fizera antes de se atirar no rio.

– Mainha! – gritou.

Ele se dera por satisfeito. Sabia o que aconteceria dali por diante. Andou por mais meio quilômetro dali, deitou-se. Ao seu redor, ossadas de criaturas disformes jaziam alvas ao solo. Criaturas com a caixa craniana arredondada e avantajada, disformemente. Um cemitério de elefantes. Passou a mão em uma daquelas cabeças monstruosas, ali do seu lado.

– Cuia… – conseguiu ainda emitir, um dos últimos resquícios de fala humana que ainda guardava. Ele sabia que não era o primeiro, Crispim, e nem seria o último. Sabia, também, que Crispins há aos milhares por aí, que é uma raça que não se acabará tão cedo. Ele borbulhou, como se sorrisse. Emitiu seu último urro borbulhante antes de fechar os olhos, ao mesmo tempo em que o rapaz produzia o seu primeiro, vendo as mãos se transformando em garras e sentindo a cabeça a ponto de explodir. Pulou no rio, dando continuidade à sua linha sucessória.

O Velho Monge fazia seu curso mansamente, brando, como a uma mãe que embala o filho no colo e ora, silenciosamente, para que tudo de bom lhe aconteça. Ele testemunhava aquilo tudo. Uma vez mais.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.