EntreContos

Literatura que desafia.

Beterrabas (José Leonardo)

Banana Cabana St. John USVI Full Moon

Descemos ao trabalho. Topografia extremamente ruim, madrugada, mas enfrentamos porque urgia. Só sentíamos a poeira nas narinas, não ante os olhos, que quase nada tateavam. Eu tinha de ensinar o novato; muito bem, que fosse assim, terreno ruim e tudo.

“Acho que pisei em uma”, ele disse.

“Tudo bem. Vê as folhas do talo? Puxe devagar, que o resto vem.”

Ele assentiu. As horas correram e colhemos muitas dezenas.

“Mas tão pequenas, tão roxinhas, mal madurando!”, meu companheiro lamentava.

“Quieto! É nosso dever.”

Terminamos de ensacar cuidadosamente. Concentramo-nos e, com o sol entrando em Aleppo, batemos nossas asas.  

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88 comentários em “Beterrabas (José Leonardo)

  1. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Não entendi quem são os personagens, mas não ficou ruim não. Boa sorte.

  2. Felipe Teodoro
    27 de janeiro de 2017

    Olá!

    Extremamente bem conduzido, tocante e com excelentes imagens. É o tipo de conto que surpreende no fim e exige uma segunda leitura, só para sentir ainda mais as sensações que o autor provavelmente intencionou. Eu gostei muito, principalmente pela capacidade de sintetizar tanta emoção.

    É um conto triste, bem feito, escrito com segurança. Estou terminado as leituras do desafio em grande estilo. Meus sinceros parabéns ao autor!

  3. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Conto bastante criativo e escrito com maestria. A descrição e o título dá a entender que são simples agricultores, mas a surpresa final só deixa o texto ainda mais bonito.

  4. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Este é mesmo bom, sem nada para queixar, apenas para chorar,ou quase chorar de emoção com a leitura. Abraço, Pórcia.

  5. rsollberg
    27 de janeiro de 2017

    Provavelmente o conto mais bonito do desafio.
    Uma história que faz a gente querer acreditar na ficção, morar nesse mundo onde o autor se faz Dele! A analogia foi perfeita, beterrabas imaturas e jovens com tanta vida pela frente, sentimos dó ao visualizar a imagem. Microconto que soube transmitir com rara felicidade essa explosão de sensações.
    Certamente estará no meu top 3
    Parabéns!

  6. Estela Menezes
    27 de janeiro de 2017

    Confesso que, para entender o sentido do conto, levei bem mais que os 5 segundos que o Thiago de Melo mencionou… E só confirmei as minhas “suspeitas” quando fui aos comentários… Daí que comecei a tentar entender os motivos para a dificuldade, que, aliás, não foi só minha… Algumas explicações me ocorreram: alguém observou que “o suspense foi mantido até o fim”; pareceu-me, entretanto, mais um enigma que um suspense… E a própria palavra Aleppo, ao final, não esclarece completamente todas as hipóteses… Acho também que, se desejamos criar um duplo sentido, é preciso que as palavras utilizadas já contenham em si esse mesmo duplo sentido, o que não percebi ter ocorrido aqui: “Beterrabas” e “Crianças mortas”? “Colher almas puxando pelas folhas do talo”? “Almas roxinhas sendo ensacadas”? Enfim, claro que as imagens são criativas, mas pareceu-me que nada no texto, mesmo ao final, ajudava a decifrar efetivamente a charada… Talvez valha a pena considerar a sugestão que algum comentarista ofereceu, de que o autor só mencionasse uma colheita, mas sem especificar o que estaria sendo colhido… De qualquer modo, uma concepção original, o texto muito bem desenvolvido e atual e a narrativa primorosa, sem faltas ou excessos, indicam um invejável domínio da técnica. Para mim, está entre os melhores textos do desafio.

  7. Lee Rodrigues
    27 de janeiro de 2017

    Pórcia, você apertou meu coração, terminei com aquele suspiro triste de quem entendeu mas gostaria de estar enganada.

    “Mas tão pequenas, tão roxinhas, mal madurando!” 😢

    A leveza da narrativa equilibra o peso do subtexto, o que, apesar da beleza, não impede o nó na garganta.

  8. Gustavo Aquino Dos Reis
    27 de janeiro de 2017

    O conto é bom e carrega em si um mistério de quem são os personagens.

    A escrita também é competente e agradável de ler.

    No entanto, analisando bem essa obra, ela confere muito mais empatia por conta dos acontecimentos recentes na cidade de Aleppo. Se o conto não tivesse colocado esse fator, com certeza, perderia a potência.

    Tudo isso para dizer que é um texto de peso, mas que toca muito mais pela tragédia em Aleppo do que por qualquer outra coisa.

    Tem cara de ser do xará.

  9. Thiago de Melo
    27 de janeiro de 2017

    Amiga Por ia,

    Que lindo o seu conto.

    Terminei de ler e por uns 5 segundos eu não tinha entendido nada. De repente, tudo se encaixou e eu arregalei os olhos dizendo: Noooooossssaaa!
    Foi muito bom viver esse momento de revelação literária. Obrigado!

    Achei, no entanto, que essa frase aqui complicou um pouco: “Vê as folhas do talo? Puxe devagar, que o resto vem.”. acho que a metáfora é apresentada pelo narrador. O personagem poderia falar alguma coisa para despistar,mas não achei que folhas e talos têm muita relação com almas.

    Mesmo assim, seu conto é muito bom! Parabéns.

  10. Vanessa Oliveira
    26 de janeiro de 2017

    Não sei se entendi. Reli, li os comentários, e só fui entender depois de ler um de alguém ai, não lembro qual. E achei bem bonito, pensando pela perspectiva de morte buscando crianças. O título confunde a gente, porque já pensamos nas beterrabas, e com o bater de asas imaginei pássaros. Enfim, gostei, apesar da confusão. Boa sorte!

  11. Davenir Viganon
    26 de janeiro de 2017

    Texto na superfície é bonito e o subtexto forte e triste. Aleppo e as asas, revelam o contexto atual, uma visão bem diferente das guerras colhendo vidas sem estarem maduras. Muito bom conto!

  12. Cilas Medi
    26 de janeiro de 2017

    Quem são os personagens? Pisam e tem asas? Um misto de homem-pássaro? Enfim, saber ler não quer dizer que tenhamos obrigatoriedade de entender o que o autor tentou fazer. Metáforas sempre são confusas a não ser que tenhamos conhecimento prévio ao que se refere.

  13. Thata Pereira
    26 de janeiro de 2017

    Mesmo tendo contexto para entender a história (sempre acompanho tudo que posso sobre Aleppo), precisei dos comentários e isso, infelizmente, quebrou o encanto do conto para mim. Sei que se tivesse entendido seria um dos meus preferidos, histórias sobre guerras me afetam muito.

    Mesmo entendendo onde o conto se passava e tudo que está ocorrendo por lá, não consegui associar beterrabas com as crianças mortas. Infelizmente. Talvez se o autor tivesse feito referência à colheita, mas não tivesse determinado o que estava sendo colhido… mas vejo que muitos gostaram e, pelo que parece, entenderam, então desconsidere.

    Boa sorte!

  14. Glória W. de Oliveira Souza
    26 de janeiro de 2017

    Difícil comentário. Parece-me encontro de agricultores as escondidas, mas a palavra Aleppo fez desmoronar a imagem que vinha construindo. Li e reli. Mas continuei na ignorância. E creio que assim continuarei. Enquanto gênero conto, dentro dos parâmetros convencionais, não identifico elementos de apresentação, desenvolvimento e conclusão que possam direcionar o leitor para um final impactante.

  15. Srgio Ferrari
    26 de janeiro de 2017

    Gostei bastante. Mas falei “mal madurando” em voz alta e descobri que ninguém falaria assim e anjos certamente falariam com mais peculiaridade essa concepção……fora isso, perfeito, parabéns.

  16. Rubem Cabral
    26 de janeiro de 2017

    Olá, Pórcia.

    Ótimo conto. A ideia de anjos “colhendo” crianças mortas no conflito é muito triste e bonita. O texto consegue esconder o que precisa ser escondido e apenas pelo tempo necessário, sem deixar o final enigmático ou algo do tipo.

    Nota: 9.5

  17. Vitor De Lerbo
    26 de janeiro de 2017

    Só após terminarmos o conto percebemos como as analogias são bem feitas. A releitura é ainda mais prazerosa por isso.
    Muito bem construído, atual, e faz a crítica de maneira sutil.
    Parabéns e boa sorte!

  18. Anderson Henrique
    26 de janeiro de 2017

    Camadas. E você as desenrola com o nome de uma cidade e um bater de asas. Quem fez sabia o que tava sabendo. Contaço!

  19. Matheus Pacheco
    25 de janeiro de 2017

    A principio que não havia entendido o tom do texto até me recordar sobre a cidade de Aleppo, antes de cair na realidade o conto para mim era sobre aves que vinham colher beterrabas na terra, mas depois percebi sobre uma profundidade um pouco maior que eu imaginava (na verdade bem maior).
    Um abração e um excelente conto.
    Dessa vez não serei eu que fiz o pior comentário do desafio.

  20. Leandro B.
    25 de janeiro de 2017

    Oi, Porcia.

    Acho que foi o conto mais atual que li, se não levar em conta as questões humanas que perpassam o tempo. Enfim, foi o texto mais contemporâneo.

    A escrita foi leve e a revelação ao final foi bastante competente… mas não curti muito o uso das beterrabas para simbolizar a vida das crianças. Há algum simbolismo em torno da raiz e da vida que eu desconheça?

    .
    .
    .

    Aliás, acabei de reler. O texto em si não faz menção a beterrabas, somos induzidos pelo titulo. Acho que o titulo me desagradou, mas é um ótimo trabalho.

  21. Simoni Dário
    25 de janeiro de 2017

    Boa tarde.
    Adoro metáforas e, embora tenha levado um momento para compreendê-las no conto, fui surpreendida. Um bom conto, forte e profundo.
    Bom desafio!

  22. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Olá Pórcia,

    Tudo bem?

    Seu conto me impactou e muito. No início eu pensei: “Nossa, não acredito que ela(e) está descrevendo a colheita de beterrabas”. E então, você dá um cheque mate primoroso em seu leitor, com uma só palavra “Aleppo”. Isso demonstra seu talento, sua maturidade, sua segurança ao escrever, sua habilidade com as palavras. Muito bom.

    Quanto às beterrabas como pequenos corações colhidos antes da hora, não sei se encontro imagem melhor dentro do desafio. Seu conto dói, além de encantar com a delicadeza das palavras.

    Sei que houve algo de “Beterraba” entre os vencedores do ano passado. Não sei até que ponto este aqui se comunica com o anterior. Não quis ler o outro, para não me influenciar. Agora vou.

    Parabéns por sua verve.

    Boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  23. Miquéias Dell'Orti
    25 de janeiro de 2017

    Cara,

    Simplesmente excelentes as alegorias que você usou para retratar as crianças de Aleppo. Os anjos colhendo “beterrabas” jovens, novas, que causam até certa indignação e lamento do anjo novato.

    Um tema atualíssimo e que me deixa bastante triste.

    Existe uma frase, que agora não me recordo de quem seja, que diz:
    “O ser humano eleva o fantástico, desconhecido e nebuloso, para negar a realidade, cruel e doentia.”

    Mas não acho que essa máxima se aplica, por exemplo, a textos como esse, que usam alegorias não para negar, mas para nos colocar mais próximos ainda dessa realidade que é sim cruel e doentia como diz a frase.

    Parabéns.

  24. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    As crianças-beterraba e os anjos aprendizes. Hum, sei não. Fiquei triste com essa história. Para mim, o que acontece em Aleppo é uma terra arrasada, não um cultivo, como na história aqui. Na parte técnica, o uso do narrador, a meu ver, impediu que o personagem dele se desenvolvesse, pois seu ponto de vista prevaleceu. É um exemplo de texto que eu gostaria de ver transcrito com narrador onisciente. Boa sorte!

  25. Gustavo Castro Araujo
    25 de janeiro de 2017

    Excelente! Atual, bem construído, mantendo o suspense até o último parágrafo. Confesso que não esperava por esse arremate – imaginava dois garotos brincando de alguma coisa, mas não dois garotos numa expedição por alimentos em Aleppo. Naturalmente, as entrelinhas do conto incomodam – não sabemos quem são, de onde vêm, para onde vão. Se vão. A situação na Síria daria azo a um artigo científico, mas não creio que seja o caso aqui. O conto se sustenta sozinho na medida em que aproveita a (suposta) ingenuidade de dois meninos e os atira sem dó nem piedade em um dos locais mais tenebrosos do planeta. Há espaço para fraternidade no inferno – aliás, dizem que é o local onde é melhor forjada. Parabéns pelo conto.

  26. Pedro Luna
    25 de janeiro de 2017

    “Mas tão pequenas, tão roxinhas, mal madurando!”

    Para mim, essa passagem fez total diferença no conto. Primeiro porque emociona aos nos remeter a vidas que ainda estavam em formação, e que precisam ser interrompidas. É exatamente isso uma situação de guerra.

    A resposta do outro: quieto, é nosso dever, só mostra a irracionalidade de tudo. Perguntas não são bem vindas. Só vá lá e cumpra o seu papel. O dia vai nascer e ao final dele, estaremos aqui de novo.

    Gostei do conto.

  27. Laís Helena Serra Ramalho
    24 de janeiro de 2017

    Demorei um pouco para pegar o sentido do conto, mas no fim acabei gostando bastante. Da narrativa, principalmente: a ambientação inóspita foi muito bem feita. Me fez esperar uma coisa, e no fim era outra, algo que eu não antevi (o que é outro mérito).

  28. Poly
    24 de janeiro de 2017

    Texto interessante, em que só se compreende o total sentido ao final. Gostei da temática e da escrita. Não tenho certeza se compreendi a totalidade, algumas coisas ficaram obscuras para mim, como o porquê da atividade ser um dever e que tipo de novato o menino é. Mas de forma geral gostei bastante.

  29. Amanda Gomez
    24 de janeiro de 2017

    Olá, Pórcia.

    Aí vem as palavras finais e tudo se transforma…

    Gostei muito do que li aqui, sensibilidade em nos mostrar algo muito real, recente, ainda sangrando.

    A metáfora com as beterrabas ficou inesperada e muito eficaz – um solo vermelho de sangue onde anjos(?) vêem recolher os frutos que ainda estavam madurado, não era a hora, mas era preciso.

    Achei todo o contexto bastante comovente, não é piegas, ou sensacionalista, é uma forma singela e amarga de contar uma história real.

    E a rotina de colher beterrabas antes do tempo continua, e infelizmente vai persistir por um tempo que não sabemos ainda.

    Parabéns!

    Boa sorte no desfio.

  30. vitormcleite
    24 de janeiro de 2017

    Gostei mas o recurso às beterrabas tirou-me todo o impacte que o texto poderia ter. Penso que devemos ter cuidado na escolha de todos os elementos, bem como os nomes de personagens, e as beterrabas… não percebo qual a importância para aqui. Desculpa problema meu.

  31. elicio santos
    24 de janeiro de 2017

    Muito criativo. O título e a narrativa despistam o leitor até o desfecho, completamente imprevisto e de cunho provocante, forte, reflexivo. Gostei!

  32. Sabrina Dalbelo
    24 de janeiro de 2017

    Nossa que bonito!
    Os anjos da morte, um experiente, outro novato, buscando almas em Aleppo.
    Metalinguística muito bem apurada. Domínio na escrita.
    Sensibilidade.
    Um conto sobre a morte que não é triste, é sereno.
    Parabéns!

  33. Mariana
    24 de janeiro de 2017

    O texto me fez pensar se é certo o artista descrever com tanta beleza algo tão bruto. Fiquei divagando se obras assim não nos causam um amortecimento, um conformismo com as tragédias. Interessante, muito interessante…
    Enfim, o texto faz pensar e isso é sempre positivo. Está escrito com primor, as frases são bonitas, delicadas… Por isso as reflexões já colocadas. Meus parabéns.

  34. Luiz Eduardo
    24 de janeiro de 2017

    Parabéns, vocÊ construiu uma narrativa instigante e uma metáfora muito inteligente, apesar de triste. Boa sorte!

  35. Juliano Gadêlha
    24 de janeiro de 2017

    Bom texto. O nome é uma pegadinha do Mallandro, e eu fiquei buscando o sentido dele até a surpresa no final. Falar sobre a morte e sobre a Morte (o ceifador) tem sido comum nesse desafio. Aqui até que houve um enfoque um pouco diferente. Um bom conto, parabéns!

  36. Lohan Lage
    23 de janeiro de 2017

    Oi, Pórcia,
    Que metáfora, tão bem alinhada ao contexto social que vive-se hoje; o do massacre gratuito, da dor e das tantas crianças que têm suas vidas ceifadas.

    Parabéns 🙂

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Publicado às 12 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .