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Literatura que desafia.

Pat Coelha contra o Porco – Conto (Evelyn Postali)

pat-coelha

— É simples. Você faz e ficamos zerados, Pat. O último trabalho para o grupo.

Lembrou-se das palavras de Crocodilo Mendonça. Retirou o capacete com visor computadorizado liberando as longas orelhas brancas e sentou-se próxima da parede, largando o acessório ao seu lado.

Tremia feio. Nem parecia uma profissional. O cheiro dos pelos queimados e da catinga lhe invadia as narinas, bem como a percepção do que fizera. Lá no fundo de sua cabeça ecoava a risada de Dilo ao afirmara ser só mais um serviço e depois estaria tudo pago. Só mais um.

— Está liberada depois de fazer. O que me diz?

Quanta promessa! Acreditara nisso. Queria muito! acreditar nisso. Mas para ela não havia salvação possível, nem alternativa que não fosse o inferno. E sem cenouras!

Sempre pensava no inferno ao julgar os contratos executados no submundo. O inferno, como destino final das ações praticadas; pagamento merecido, pelos infelizes que deixavam de usurpar espaço no mundo através do uso daquela arma de raios desintegradores. Mas eram traficantes, outros assassinos, aliciadores. Entrar no mérito da questão consistia ir além da capacidade que tinha.

Muitas vezes, enxergava-se como uma justiceira, uma heroína limpando o mundo das porcarias da criação divina. Eles eram porcarias. Uma faxina bem feita, era o que ela fazia. E, ao ponderar sobre essas questões, aí, sim, o paraíso se fazia recompensa, aposentadoria justa. Uma relva verdinha e uma horta de legumes.

A lembrança da origem pobre, dos ensinamentos maternos, da vida no interior, o estudo com sacrifício, contudo, desequilibrava a balança. Fazia-a se dar-se por conta da necessidade de sair daquela vida dupla. Arrumar um emprego decente. Deixar de fazer bicos como segurança. Tornava-se impossível sustentar uma vida diurna depois de viver a noite em meio ao crime. Além do mais, vida de bandida não é vida. Vida de assassina, pior ainda.

Se a mãe estivesse viva, morreria de desgosto.

— Seja honesta nessa vida, minha filha. Não é bom carregar um nome cheio de lama.

— Os honestos levam dessa vida senão uma viagem dentro de uma caixa de madeira para sete palmos de fundura? — A contestação entranhava-se. Era parte dela.

— Não seja ingrata. Olhe o que temos? Temos uma toca…

— Caindo terra por todos os lados.

— É uma toca boa. E você tem um trabalho.

— Para receber uma míngua de cenouras mensais.

— Você está assim porque a cidade grande carrega o seu coração com coisa inútil.

Ela, que carpia o chão com as mãos calejadas e duras e a criara rezando o couve-nosso todos os dias, não aguentaria ver a filha querida embarcar naquela viagem de matadora de aluguel. Nem se fosse para alimentar as bocas dos outros dez irmãos orelhudos. Dona Maria das Dores Coelha seria levada para o além sem misericórdia. Mas o jeito, agora, era enxotar a imagem da mãe e partir para a ação.

O serviço dera errado desde o começo. Precisava consertar toda a bagunça. O desgraçado enfiara-se em algum quarto daquela caverna gigante. Fora esperto ao deixar um dos capangas na cama, com a prostituta.

— Infeliz.

Nem para encarar a morte Javali Eustáquio servia, mas o miserável não tardaria a encontrar o caminho do fim. O abrigo não era tão grande e sobraria raios desintegradores se contasse o resto dos capangas e as cargas que ainda possuía no pente extra de energia.

Ainda sentada próxima da porta, sentindo o frio que vinha da galeria, observou com cuidado a cena. Desejou não ter acertado a preguiça de batom vermelho, mas ela gritara sem respeitar o sinal de silêncio. Jamais imaginaria a rapidez de um grito de preguiça. Poderia estar viva, a infeliz. Estúpida e burra. E lá, parada no olhar arregalado do Carlos Hiena, morto-mortinho, um estalo ligou todas as pontas.

Crocodilo Mendonça escondia-se por trás da armadilha. Mas que idiota eu fui! Dilo a convencera do trabalho não por nada! Estava ali para ser morta. Sabia demais. Fizera demais. Ela se tornara um peso para o grupo.

— Desgraçado. Filho da mãe.

Os dentes frontais rasparam no pelo do queixo e o tremor se juntou a um arrepio, fazendo o rabo eriçar. As orelhas se enrolaram e desenrolaram várias vezes. Agora, mais do que largar aquela vida, queria mesmo acabar com os desgraçados. Não sairia morta daquela tocaia. Morreria de velha, em uma pradaria do interior, onde a fertilidade do solo a presentearia com o que havia de mais suculento, mas não ali, no meio daquele bando de animais traficantes. E o Dilo que se preparasse. Haveria de fazer um par de botas.

— Vou abrir suas mandíbulas e enfiar a cabeça do Eustáquio goela abaixo.

Verificou a arma e apertou o botão de carga máxima. Faria muito estrago. Talvez aquela toca gigante desabasse sobre sua cabeça.

— Que droga!

Recolocou o capacete. Ajustou o traje para segurança máxima e acionou todos os mecanismos de busca.

Ligou o celular acoplado àquele elmo protetor. Discou o número da polícia. Conhecia Pedro Raposão, o delegado da área. Tirou da cintura a arma sobressalente de projéteis explosivos. Disparou três vezes para o alto fazendo desabar parte do teto enquanto a atendente do outro lado da linha fazia perguntas. Quanto mais bicho atirando dentro daquela caverna, mais fácil seria sair ilesa de dentro da confusão.

Deu um tempo e seguiu pela direita, em direção das outras galerias mais estreitas.

— Sai da toca, Porco! O seu tempo de fuçar acabou.

……………………………..

Nota: Personagens pelúcios. Baseado nas construções de Tim Davys.

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10 comentários em “Pat Coelha contra o Porco – Conto (Evelyn Postali)

  1. Gustavo Castro Araujo
    4 de fevereiro de 2017

    A trama aparentemente infantil esconde um questionamento filosófico instigante: como escapar das armadilhas em que nós mesmos nos enredamos? Ou melhor, como fugir de um destino infame que nós mesmos construímos? O uso de personagens de pelúcia foi uma ótima sacada, porque tira o peso de uma narrativa cruel, permitindo ao leitor concentrar-se no que realmente importa, o preço das escolhas que fazemos. Se fossem sacadas as alusões aos animais, a história terminaria igual a centenas de outras com tal mote. Pela proposta que aqui vemos, a autora merece muitos parabéns, se bem que eu, confesso, esperava um final menos aberto. Em suma, um ótimo trabalho!

    • Evelyn Postali
      12 de fevereiro de 2017

      Obrigada, Gustavo! Que bom receber um comentário como esse. O final é aberto porque não tinha certeza se deveria ou não continuar com ela.
      Obrigada novamente!
      Abraço!

  2. mariasantino1
    21 de janeiro de 2017

    Olá, Evelyn!

    Cara, eu quero um desafio ANIMAIS FALANTES, ou TRAMA ENVOLVENDO ANIMAIS DE PELÚCIA. Gostei bastante e me lembrou “Uma Cilada para Roger Rabbit”, pelo teor adulto, mas com personagens fofinhos. Acho que você tem aqui um ótimo material para uma revista em quadrinhos (seria show).
    Ri de todas as sacadas >>> não havia salvação possível, nem alternativa que não fosse o inferno. E sem cenouras! … não aguentaria ver a filha querida embarcar naquela viagem de matadora de aluguel. Nem se fosse para alimentar as bocas dos outros dez irmãos orelhudos. >>> E ela falando que morreria em uma pradaria, mas não ali.
    Então, já disse, faz uma HQ logo desse conto.

    Parabéns e Boa sorte no desafio 😉

    • Evelyn Postali
      22 de janeiro de 2017

      hahahaa faço! Se eu tiver tempo para isso. Obrigada pelo incentivo. Gostaria demais de um desafio desse tipo. Esse texto foi uma aventura porque não sabia se eu seria capaz de vencer o desafio proposto pelo mestre na oficina. Que bom saber que gostou do texto! Obrigada. Um grande e carinhoso abraço!

  3. Miquéias Dell'Orti
    2 de janeiro de 2017

    Olá Evelyn.

    Gostei da construção do seu conto, deixa na gente um desejo de continuar e saber o que vai acontecer (por favor, diga que terá continuação rs).

    PS.Já li Amberville do Tim Davys (ou seja lá quem for o autor) a algum (muito) tempo e achei inclusive o ritmo da sua narrativa muito parecido com a história.

    • Evelyn Postali
      2 de janeiro de 2017

      Oi, Miquéias,
      Que bom ler suas palavras!
      Eu não sei dizer se terá continuação. Esse conto é o resultado do 5º desafio da Oficina Colaborativa do Estranho Mundo, ministrada por Eric Novello tendo como plot twist: personagens pelúcios. A bibliografia: Amberville, do Tim Davys. Como eu gosto de histórias policiais, meu personagem, Pat Coelha é uma matadora de aluguel e o contraponto é o Pedro Raposão, o delegado (ele não aparece muito porque o exercício tinha um limite de palavras). Além de gostar de histórias policiais, gosto de ficção científica, então, dei uma misturada nos gêneros e esse foi o resultado. O ritmo é meu, mas fico feliz que ele tenha se parecido com o do autor. Ainda não li Amberville. Está na minha lista de leituras.
      Então, é isso. Obrigada por ler e comentar.
      Abraços!

  4. Cilas Medi
    31 de dezembro de 2016

    Interessante e com ação, diálogos precisos.

  5. Davenir Viganon
    31 de dezembro de 2016

    O conto é sucinto e bem gostoso de ler. Gosto da forma que compõe os diálogos e os entremeia na ação. Deixa a leitura fluída.

    Boa sorte no desafio 🙂
    [é a nossa piada do pavê por aqui]

    • Evelyn Postali
      31 de dezembro de 2016

      Você pare com essa coisa de desafio. kkkkk Me aguarde nos próximos. 😉
      Eu já reconheço a tua escrita, homem. Vai levar umas chicotadas nos dedos kkkkkk
      Obrigado por tirar um tempo para ler e deixar comentário.
      Abraço de quebrar costela!

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Publicado às 30 de dezembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .