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Literatura que desafia.

Nos Bosques de Puttin – Conto (Fabio D’Oliveira)

bosques

O vento gelado bateu com força nos dois, mas somente Helena sentiu frio. Hiems sorriu gentilmente ao ver a careta da menina.

— Vamos falar das estações do ano — falou Hiems, tirando o excesso de neve que estava no cabelo de Helena.

A garota espirrou, dando uma bela esfregada no nariz em seguida, e concordou com a cabeça.

— O que você acha da primavera?

— Apaixonante! — exclamou ela, sem pensar.

Hiems riu, suave, como sempre.

— E o verão?

— Hum… Alegre, sem dúvidas.

— É mesmo? O que você acha sobre o outono?

— Ah, essa é difícil. Deixe-me ver… Parece que o mundo está envelhecendo nessa época. Sinto-me mais calma. É isso! Paz!

— Interessante. Agora, fale-me sobre o inverno.

Helena ficou quieta e observou o ambiente. Suspirou e encarou Hiems.

— O inverno sempre trás consigo um pouco de solidão e tristeza.

O jovem olhou fixamente para Helena. Tão pequena e inteligente. De fato, as leis universais sempre acertavam. As crianças sabem das coisas.

Helena vivia num pequeno vilarejo chamado Puttin. Localizada numa clareira da cadeia montanhosa de Han, a vila era uma espécie de refúgio. O mundo era cruel. E o desejo de paz é inerente ao ser humano. Puttin oferecia isso. Era um lugar lindo, com fauna rica e flora exótica. Porém, quando chegava o inverno, um intenso manto branco escondia as maravilhas da região. Somando isso com as condições difíceis de vida, a população viajava para onde o verão estivesse. A família de Helena, entretanto, ficava para proteger e cuidar de Puttin.

A vida seria realmente solitária se não fosse por Hiems. O jovem aparecia sempre no inverno e ficava perambulando pelos bosques de Puttin. Sua pele era branca e fria como a neve. Seus cabelos negros como a noite. Usava uma manta azul com detalhes em preto. E tinha o semblante mais triste do mundo.

Conheceram-se por acaso…

Estava frio, muito frio. Helena olhou ao redor, confirmando que seus pais não estavam por perto, e pulou a janela. Não podiam prendê-la, ainda mais por causa de algumas suposições.

— Não vai ter nenhuma nevasca. Oras, sequer está nevando! Humpf…

Saiu da vila e entrou no bosque, saltitante. Conhecia o terreno perfeitamente. Começou a nevar, mas Helena não percebeu, estava distraída demais observando um casal de lebres. Adentrou a floresta, brincando sozinha, como sempre. Até que uma borboleta das neves chamou sua atenção. Seus olhos brilharam.

— Basta um leve tocar para fazê-la brilhar, brilho tão intenso que faz o amor brotar — recitou Helena, imitando a voz arrastada do ancião da vila.

A imagem de Eron, seu vizinho, brotou em sua mente. Menino quase homem e futuro caçador, ele encantava todas as garotas de Puttin, incluindo Helena. Havia algo de diferente nele… Em seu sorriso… Ela balançou a cabeça, ignorando o frio na barriga, e se decidiu. Iria capturar aquela borboleta. Disparou atrás dela, sem pensar duas vezes.

Helena nunca foi um exemplo de delicadeza. Esbarrava em tudo, quebrava as coisas de casa e tropeçava no próprio pé. Qualquer outra pessoa teria visto aquela raiz, mas não aquela menina. Não teve tempo de pensar muito enquanto via o mundo virar. Pensou apenas num “Ai”. Ficou alguns segundos naquela posição, deitada, olhando para cima. Percebeu os flocos de neve. Sentou-se e notou que estava mais frio do que antes. Viu como os galhos das árvores dançavam ao ritmo do vento.

— Não…

Os sinais eram inconfundíveis. Iria ter uma nevasca.

“Por que os adultos sempre estão certos?”, pensou Helena, mal humorada.

Decidiu retornar para o vilarejo. No entanto, quando tentou levantar, sentiu uma forte fisgada no pé direito. Apoiou-se na árvore.

— Ai… — gemeu ela.

Balançou a cabeça e começou a caminhar com calma, apoiando-se no que podia. O tempo começou a se agravar. Ficou com medo e fraquejou, deixando a ventania derrubá-la. Não conseguiu se levantar, então começou a se rastejar. O desespero tomou conta de sua mente. Abraçou o próprio corpo e fechou os olhos. Gritou. Sentiu uma mão agarrar seu casaco e puxá-la para longe.

— Você está segura agora — disse uma doce voz.

Helena abriu os olhos, devagar. Viu-se num ambiente seco e quente, muito parecido com o interior de uma árvore. Levantou-se com cuidado, tremendo de frio e medo. Um rapaz estava na sua frente, olhando-a com carinho.

— Pode me ver? — perguntou ele.

— É claro…

Ele sorriu. E tal sorriso acalmou a alma de Helena.

— Como você se chama?

— Ahm… Helena.

Ele se sentou de pernas cruzadas e voltou sua atenção para uma pequena escultura, que, por acaso, lembrava uma criança. Helena permaneceu quieta por um tempo, tímida. O ambiente era mágico, lembrando uma verdadeira fábula. Bolas de luz flutuavam no ar. Diversas espécies de insetos andavam pelas paredes tortas, sem se atacarem, numa bela trégua. Ouvia-se, bem ao longe, como se estivesse vindo de outra dimensão, o cântico de vários pássaros. A menina estava maravilhada.

— Gostou daqui?

— Ah… Sim…

— Me diga… O que você acha daqui?

— É diferente de tudo que já vi… Há magia aqui.

O rapaz continuou sorrindo, encarando-a.

— Qual é o seu nome?

— Hiems.

— …

Ele apontou para o pé direito de Helena. Ficou confusa por alguns segundos, mas logo entendeu o que ele queria dizer.

— Não doí mais! — disse ela, enquanto apalpava o pé, surpresa.

— Isso é bom, não e?

— Claro! Como você fez isso?

— É segredo.

Ela não era o tipo de pessoa que gostava de mistérios, mas a forma como Hiems falou a deixou encantada. Não conseguiu evitar a risada.

Passaram-se algumas horas. Tão pouco tempo para Helena, que sentia que poderia ficar naquele lugar mágico por dias sem enjoar. A nevasca acabou. Ao sair, a menina constatou que estava dentro de uma árvore pequena.

— Como isso é possível?

— Nada é impossível quando se trata de magia.

— …

— Se você quiser, Helena, pode voltar aqui.

— Sério…?

— Claro.

— Não tem problema? — perguntou Helena, empolgada.

— Não.

Helena riu gostosamente. Hiems a acompanhou até o final do bosque. Acenou, prometendo que retornaria no dia seguinte. E o rapaz abriu o sorriso mais bonito do mundo.

Helena tinha oito anos quando conheceu Hiems. Não demorou muito para se tornarem grandes amigos. No final do inverno, o rapaz se despediu.

— Por que você tem que ir embora? — questionou Helena, fechando a cara.

— Tenho que ir para onde o inverno vai. É assim que as coisas funcionam. Mas não se preocupe. Voltarei no ano que vem.

— Promete?

— Prometo.

E ele retornou. Antes, Helena ficava ansiosa para que a primavera chegasse, para encontrar as outras crianças e poder brincar livremente. Era a sua estação favorita. No entanto, depois de conhecer Hiems, a menina começou a gostar do inverno. Ah, quantas vezes Helena correu pelos bosques de Puttin ao lado de seu amado amigo! Quando a neve começava a cair e as pessoas se preparavam para a migração, ela corria ao encontro do rapaz.

Helena gostava de contar suas aventuras com Hiems para os adultos. Falava sobre a árvore mágica e como se encontravam todos os dias no sopé dela. Descrevia as imagens fantásticas que via ao redor do rapaz. Ria muito quando lembrava das travessuras que fazia com os animais e reclamava dos sermões do amigo. Alguns adultos, inclusive, tinham um grande interesse em Hiems. Ficavam fascinados, riam com gosto, e pediam para ela repetir algumas histórias. Em contrapartida, as crianças não acreditavam nela. Chamavam-na de mentirosa.

— Hiems… As outras crianças falam que você não existe.

— O que você acha? Eu existo ou não?

— É claro que existe.

— Somente isso importa, então. Não se preocupe com os outros. Eles vão sempre duvidar de você, pois não conseguem me ver com seus próprios olhos.

— E o que é necessário para te ver?

— Pureza.

Assim era a vida de Helena. Não era grandiosa ou especial, mas pacífica e cheia de amor.

Os anos foram se passando. Helena começou a crescer, mostrando que iria se tornar uma bela mulher. E assim como seu corpo, sua mente também estava mudando, devagar. Novos sentimentos e pensamentos surgiram, confundindo a menina. Apaixonou-se por um jovem viajante que apareceu em Puttin no verão em que completou quinze anos e deu seu primeiro beijo. Distanciou-se de algumas pessoas. Aproximou-se de outras. Antes, contava tudo para seus pais e vizinhos. Depois, fechou-se dentro de si. Não era mais um livro aberto.

No entanto, sua amizade com Hiems permaneceu a mesma. Era estranho. Helena não podia ver o rapaz sem sentir um terno calor em seu peito. Não conseguia explicar o porquê disso. Todos os conflitos que existiam iam embora e eles podiam correr pelos bosques de Puttin em paz. Era mágico, simplesmente mágico.

Mas as coisas mudaram quando Helena tinha 16 anos.

O inverno estava chegando ao fim. Helena e Hiems estavam sentados na neve, bem perto um do outro, observando uma espécie de raposa, que aquecia seus filhotes com paixão.

— Helena…

O rapaz aparentava certa aflição.

— Que foi?

— É provável que esse seja o último inverno que nos encontramos.

As palavras de Hiems ecoaram pelo bosque. Helena sentiu um intenso frio na barriga.

— Você me entendeu?

— …

— Helena.

— Por quê? Você quer ir embora?

— Não.

— Não quer mais me ver?

— Quero.

— Mas… Não estou entendendo.

Não quis acreditar nele.

— Se você não quer ir embora e ainda quer me ver, então simplesmente fique e me veja.

— Não é tão simples assim.

— Por quê?

Helena não sabia o que sentia. O turbilhão de emoções que a envolveu era poderoso demais e ela se perdeu dentro dele. Quase chorou, mas resistiu.

— Você sabe que existe apenas uma condição para me enxergar. Lembra-se qual é?

— Pureza, não é? — respondeu ela, depois de pensar por um tempo.

— Exato.

O vento assobia melancolicamente.

— Helena, o universo tem suas próprias leis. Por fazerem parte de Deus, elas são eternas. O ser humano não consegue manter sua pureza por muito tempo. Temos tudo dentro de nós, tanto a ordem quanto o caos. A realidade da humanidade faz com que a pureza hiberne com o passar dos anos. E assim a impureza desperta. As coisas são assim, por enquanto.

— Há algo que eu possa fazer para impedir isso?

— Sinto muito, minha doce amiga.

Helena soluçou, não conseguindo mais conter o choro.

— O que vou fazer, Hiems?

— Viver.

— Mas…

— Escute-me, Helena. Tente viver da melhor forma possível. Cultive as virtudes. E ignore as mentiras.

As lágrimas cessaram, devagar.

— O ser humano não consegue manter sua pureza por causa do seu destino. Porém, podemos, aos poucos e com muito trabalho, mudar o destino de nossas almas. Eu já fui humano, Helena, mas agora faço parte da natureza. Faço parte do inverno.

— É mesmo? — perguntou ela, esfregando os olhos. — Ainda existe alguma chance de vê-lo novamente?

— Sim, minha querida.

A menina ficou quieta por um tempo. Apoiou a cabeça no ombro esquerdo de Hiems.

— Sei que não sou mais pura. Você fica transparente, às vezes. Parece que vai sumir. Você percebeu isso, não é?

— Sim.

— Mas você está errado. Não sei quanto tempo vai demorar, Hiems, mas vou desperta minha pureza. Você vai ver…

O rapaz sorriu bondosamente, fazendo carinho nos cabelos de sua amiga. Aquela força de vontade sempre o surpreendia.

— Fique por aqui, Hiems. Sempre. Espere-me.

— Vou esperar.

Nesse momento, o vento voltou a cantar, mas a melodia era diferente dessa vez.

— Vamos brincar, Helena. Vamos aproveitar o tempo que temos, pois ele é curto. A vida é assim, cheia de despedidas, mas cabe a nós decidirmos como tudo acaba, com uma lágrima ou com um sorriso.

Ela sorriu. Ele sorriu. E aproveitaram o tempo que tinham com felicidade e amor.

Hiems estava certo. Depois daquele inverno, Helena não conseguiu mais vê-lo. Por alguns anos, insistiu em chamá-lo pelos bosques de Puttin, numa vã esperança. Chorou muito. Mas a vida continuou, como sempre continuava. O rapaz também estava certo sobre isso.

Depois daquele dia, decidiu que ficaria na vila por toda sua vida.

— Estou indo embora amanhã. Não sei se voltarei mais aqui… Venha comigo — disse Thales, o viajante que roubou o primeiro beijo da menina e, também, sua inocência.

— Não seja tolo. Aqui é meu lar — respondeu ela, desvencilhando de seus abraços e carinhos.

— O lar é aquele que está seu coração.

— Exatamente… — sussurrou ela com semblante triste e distante.

Tentou amar outra pessoa como amou Hiems, mas não conseguiu.

— Quando você era menina, olhava-me com tanta paixão… O que aconteceu? — perguntou Eron, num belo dia de primavera, no aniversário de vinte anos de Helena.

— Oras, não é óbvio? Cresci — respondeu ela, sorrindo com sinceridade.

Lutou muito para manter suas virtudes e evitou as mentiras do mundo.

— Por que você não se casa? — perguntaram-lhe um dia.

— Claro que casei, deixa de besteira! Casei comigo mesma!

Viveu.

— Olha só para ela, já grande e correndo pela cidade como menina. Ai, ai, quando ela vai se tornar adulta?

E um dia, observando a lua no céu estrelado do verão, ela percebeu o que realmente era o amor.

            Hiems não se lembrava muito bem de quando era humano. Sabia apenas que teve uma vida solitária e triste. E que amava o inverno. Ele também não sabia quando havia se tornado um espírito invernal. Sujeito à atemporalidade, nada daquilo fazia sentido, não precisava se lembrar de nada. Apenas existir.

No entanto, depois de conhecer determinada menina, algo mudou em seu peito. Quando o manto branco cobria as montanhas que circundavam Puttin e ele podia aparecer, seu espírito bebia um pouco do cálice da esperança.

Nas suas caminhadas pelos bosques, muitas vezes se perguntou o porquê de permanecer esperando por ela. Hiems e Helena eram opostos. Então, o que ligava essas duas almas?

— Eu não entendo, meu pai — perguntou Hiems ao Pai Invernal no dia do desgelo de Puttin. — Por que sinto necessidade de ficar aqui?

— Não é óbvio, meu filho? É porque você deve ficar aqui. Estamos todos sujeitos às mesmas leis universais. Você. Eu. E ela.

E nesse dia, observando o renascimento do verde, ele percebeu o que realmente era o amor.

O inverno havia chegado. Hiems apareceu, como sempre aparecia. Estava deitado num dos galhos de sua árvore mágica, observando o nascer do dia. Sentiu a presença de uma pessoa. Ouviu galhos se quebrando. Olhou para baixo e viu uma bela mulher. Seus olhos se encontraram. Um filete de lágrima desceu pelo rosto corado dela. Hiems sorriu.

— Olá, Helena.

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2 comentários em “Nos Bosques de Puttin – Conto (Fabio D’Oliveira)

  1. Priscila Pereira
    30 de agosto de 2016

    Fábio, que conto lindo!!! Tão meigo, singelo, puro. Muito bem escrito e apaixonante, amei ter lido. Parabéns!!!

  2. Neusa Maria Fontolan
    30 de agosto de 2016

    O que dizer?
    Apenas
    Lindo, lindo, lindo. Parabéns.

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Publicado às 27 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .