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Detox Literário.

Outono Místico – Poesia (José Leonardo)

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Folhas suicidas atravessando a estrada
Toc, toc — mensageiros violetas permitem à abelha
Na usual gentileza dos ventos
Usufruir de pólen e orgias negras de outono,
Enquanto o besouro se estica
E o macaco trepida nas amoreiras.

O caminho levado a cabo é de inteira perplexidade hormonal
— Há heras e tarântulas maiores que um domingo no parque
Aparvalhando o orvalho seco e intransigente de uma alface.
Seios descascados ainda enervam as luxuriosas melancias que
Habitam o centro desse caminho; passageiras moscas
Voejam certas imprecações contra as borboletas

Nessa estranha estação desconcertada.
Passeio com a filhinha diante das acácias; ela
Tem nos seus poucos anos papel para esmagar entre os dedos
Uma varejeira curiosa, e enquanto
Posso vê-la no alicate da engenhosa operação, a agulha
Da nostalgia pica dolorosamente meu coração, levando-me

Atrevida e lúgubre aos aposentos da memória; a saudade
É adaga estraçoando a garganta
Displicente da tragédia. Mas minha criança
Reluz nessa parte escura e bocejante da floresta
Como um anjo da astúcia aleijada, esperando as rosas
Secarem, encarnando uma coruja ou Helena.

Junho de 2006.

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14 comentários em “Outono Místico – Poesia (José Leonardo)

  1. Priscila Pereira
    25 de junho de 2016

    Oi José Leonardo, que poesia encantadora, totalmente psicodélica e emocional. as metáforas são muito boas e a construção do texto bem original. Força a imaginação a ver algo novo. Gostei bastante. Parabéns!

    • José Leonardo
      25 de junho de 2016

      Olá, Priscila Pereira. Muito obrigado pela leitura e opinião. Abraços.

  2. Rubem Cabral
    16 de junho de 2016

    Olá, José.

    Gostei: é um texto bonito, sinestésico, que margeia os limites da prosa e da poesia.

    Penso que o bosque seria algo imaginário, pois algumas informações passadas sobre ele são meio conflituosas sob o aspecto geográfico: a imagem que ilustra o texto, um outono de folhas amarelas, amoreira, por exemplo, evocam algum lugar de clima temperado. Macaco, acácia, varejeira, por outro lado, evocam uma floresta tropical. Porém, isso pode ser somente implicância de quem tem a mente muito metódica, rs.

    • José Leonardo
      16 de junho de 2016

      Olá, Rubem. Fico muito agradecido pelo comentário. Certamente foi erro meu na escolha da imagem ilustrativa, obrigado pelo apontamento. Abraços.

  3. Brian Oliveira Lancaster
    14 de junho de 2016

    Uma construção interessantíssima, fugindo um pouco das rimas e se atendo aos significados e sensações. Apreciar o micro, em vez do macro, torna a aura do texto mais intimista e produz o que se espera no leitor. Admiração.

  4. Eduardo Selga
    12 de junho de 2016

    As fronteiras entre poema e prosa de há muito não tem a fixidez que muitos gostariam. Muitas vezes não é indubitável a separação, além de muito pouco produtivo tentar fazê-lo, porque vivemos tempos fluidos e essa fluidez decerto se faz visível na produção artística literária.

    Digo isso porque a obra apresenta o hibridismo textual, na medida em que está escrito em versos (portanto, poema) mas, ao mesmo tempo, ela possui um ritmo que muitas vezes faz lembrar a prosa, além de um pequeno enredo e personagens. Nesse sentido, o eu lírico do poema pode ser considerado um narrador. Alguns poetas brasileiros fazem e fizeram uso desse recurso, como Mário Quintana, algumas vezes considerado, injustamente, um autor pueril.

    Mas há um detalhe importante, e por esse motivo o texto me parece merecer reflexão: é que o ritmo prosaico não é assim tão óbvio. Experimente ler “de carreirinha”,como dizia o personagem Zeca Diabo da teledramaturgia O Bem-Amado, dos anos 1970, e você terá o ritmo de prosa, muito reforçado por outros elementos dessa forma textual.

    No entanto, se o leitor ao fim de cada verso fizer uma pequena suspensão, se ele ler como quem declama, a coisa muda um pouco de figura. Mas, atenção: isso não ocorre plenamente em todas as estrofes: na primeira e na segunda é mais fácil de perceber esse fenômeno.

    O estilo é grandiloquente, mas não há a afetação que costuma acompanhar essa característica. As imagens meio rocambolescas não são palavras dispostas de modo a demonstrar o quão o autor possui bom gosto literário: a função delas é criar uma percepção diferente de coisas corriqueiras. Aliás, uma das funções da literatura.

    Um belo trabalho.

  5. Anorkinda Neide
    11 de junho de 2016

    Olá! Poesia e ‘mistico’ é coisa que me atrai! tal as abelhinhas pelo pólen rsrs
    Zé, será que este texto não poderia ser uma prosa? Não ficaria melhor de ler?
    Eu sou chata sabe pra qual ‘problema’? A letra maiuscula no começo dos verbos, isso me trava a leitura. Parece q é regra, mas minha cabeça nao aceita regras!
    .
    Bem, mas é uma reflexão bem linda com passagens bem construídas q fazem viajar. À exceção da segunda estrofe q achei meio ‘puxada’ no exagero.. haha
    .
    Mesmo colocando em poema, não entendi as separações dos versos, fiz uma segunda leitura ‘corrida’ como se prosa fosse e achei bem mais fluido e captei bem mais os significados, destaque para a agulha da nostalgia, ela pica mesmo qd quer e pica forte!
    Abração!

    • José Leonardo
      11 de junho de 2016

      Grato pela leitura, Anorkinda. Vou considerar bastante seus apontamentos. Abraços.

  6. angst447
    8 de junho de 2016

    Nossa! O outono cheio de imagens incomuns ou talvez tão veladas que não percebemos a sua existência. O peso do sentimento de abandono em cada detalhe que vira verso. Ao mesmo tempo, a criança dá o tom da esperança, da vida que virá depois que se enfrentar o inverno e a escassez de tempo. Será enfim, primavera.
    Parabéns!

  7. Wender Lemes
    8 de junho de 2016

    Caramba… bela obra. Um passeio que esconde nosso passeio pela vida. Entendi como alguém no outono de seus anos olhando para trás e vendo a criança de si, quando ainda tinha vigor para ferir os menos afortunados com tanta espontaneidade. Tudo é uma metáfora e, ainda assim, tudo é muito sólido e vivo.

    Meus parabéns!

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Publicado às 8 de junho de 2016 por em Poesias e marcado .