EntreContos

Literatura que desafia.

Triptukhos (José Leonardo)

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Um peregrino arrojava-se por planícies baldias. Lugar vazio, vazio, floresta nua, sem folhas defuntas e troncos lenhosos. Cruzava grandes morros vermelhos sob um céu permanentemente nebuloso. Da vastidão silente e estéril, a milhares de metros e entre camadas de nuvens finas e limpas como lençóis, erguia-se uma imagem adornada de luz sépia semelhante ao holograma de um homem coberto por um manto e com mãos dispostas a contemplar o globo terrestre sob seus pés.

O viajante palmilhara terras ermas, vandalizadas pelo esquecimento. Os pés dormentes e a roupa em farrapos não diziam a certo o tempo de peregrinação — talvez duas horas, talvez trinta anos. Por onde plantava os olhos, nada havia além do Arcano nos céus e a curvatura do horizonte. Deveria chorar desde esse ponto, alçando devotamente as mãos, mas não restavam lágrimas a quilômetros, ou séculos.

Tratava a sina infortunada sem esperanças, pois sabia que o mundo aberto diante de si era mera projeção do estirão pelo qual errara, como se estivesse preso sob a refração de duas chapas espelhadas. Passou a crer que outros viajantes descreviam percursos semelhantes em desertos que a vista não se propunha a admirar. O homem refletia profundamente sobre a natureza de sua busca, ou fuga, ou coisa nenhuma. Foi-lhe imputada a missão de vagar pelo ermo sem invocar o passado ou obter contrato com o futuro, sem mágoa ou objetivo preciso. O sentimento de encontrar à plena vista o tesouro misterioso era ferozmente pisado sob um céu cor de âmbar.

A provisão que afogava sua sede era renovada de tempos em tempos e em átimos imperceptíveis. Certa feita, enquanto caminhava, destampou o cantil e o manteve assim, desprotegido. Estava com ocupação a meio. Quando se cansou de tentar capturar aquele momento de transbordo d’água, pôs a tampa. Qual sua surpresa ao sentir o objeto contundentemente mais pesado! Tornou a destampá-lo: o líquido sagrado vazou orifício afora. Indubitavelmente, era a prova de que forças externas o acompanhavam em diligência ou controle. A primeira desconfiança pairava ante os olhos: o Arcano. Porém, toda vez que a água ressurgia, aquilo que a vista assestava era muito mais um espectro a se agradecer que a se censurar.

Outra tentativa de pôr à prova as forças invisíveis veio após um tremendo susto. Em dado momento — provavelmente graças ao entorpecimento subindo das pernas até a cabeça —, o peregrino, involuntariamente, começou a caminhar em rastro diagonal, o pé direito bicando em ângulo a cada passo (desvio progressivo mesmo para quem sequer pôde traçar rota). Inopinadamente, sem atinar de onde teria surgido, desabou sobre seu caminho um gigantesco antebraço dourado. Aquilo o fez saltar acentuadamente encurvando-se para o lado oposto, embora tenha mantido o equilíbrio. O monstruoso membro, concluiu, era o muro que as forças invisíveis interpunham entre si e o possível (e intolerável) desvio de trajeto. Um tanto atordoado, o homem reposicionou-se; as passadas traçavam diagonal contrária. Muito tempo depois, enfim, aparentemente ciente da rota retomada, o antebraço alçou velocíssimo voo, mas não tão ligeiro a ponto de impedir uma igualmente rápida olhada naquela estrutura colossal e nos anéis concêntricos zunindo em torno de onde deveria haver um cotovelo. Eram o motor daquele mistério. A imagem ficou estampada na memória do peregrino. Esperou a completude de dois mil passos para, deliberadamente, traçar um novo desvio, agora à esquerda. A resposta dourada caiu-lhe ainda mais fugaz que antes. Entretanto, uma constatação simples pasmou o peregrino: não era em definitivo o mesmo terror anterior —pela posição do polegar, anatomicamente era um antebraço esquerdo.

Os sentidos vacilavam. Limpando as pálpebras com o pulso, pôde notar uma reta cintilante que, embora estivesse longe e abaixo de pesadas camadas de radiação, era perfeitamente visível, cortando a planície em dois mundos, seguindo a curvatura do nascer ao poente. Depois, lentamente — como uma miragem se desprendendo de outra miragem —, a estreita linha se dividiu; o peregrino, então, percebeu que se tratavam de duas divisas apartadas por considerável faixa de terra. Vagamente, por instinto, tentou apalpá-las com o braço.

Presumiu ter sido invadido por finas bandas de som — talvez uma gaita de fole, o plitz-plitz de pratos vindo em seguida como emanações de outros sistemas planetários. Resolveu parar um pouco, pondo a cabeça entre as rótulas; se retomasse o fôlego, pensou, cessariam aqueles engodos, tais alucinações impensáveis. Mas não pôde deter o passo de sua provação.

Não demorou em reconhecer as miríades de barras-irmãs formando duas linhas de trem a poucos metros de si. E nem punha o primeiro pé sobre um deles quando um evento singular estacou seus ossos, o medo paralisando-lhe as articulações. Colunas uniformemente organizadas vinham da esquerda e da direita, muito além de sua posição, se interpenetrando em perspectiva e resultando numa única coluna que avançava a passo rápido. O barulho dos instrumentos vinha em jatos gradientes e tão palpáveis que, num movimento de mãos, o estrangeiro cogitou sacá-los e emborcá-los no cantil. Enquanto isso, a figura dos céus, ligeiramente engrandecida, pareceu centimetricamente mover-se.

Dessa forma (pois agora punha adiante a segunda perna, na expressão de quem está a contemplar a iminência de um milagre), pôde discernir claramente os corpos. Um séquito, centenas e milhares, voltando o rosto em sua direção e bradando como se o torpor do vinho os dominasse. Entretanto, estavam bem sóbrios, bem limpos. Turbas e turbas, homens e mulheres, crianças levadas, anciãos de outras Eras a gritar melodias numa língua conhecida do peregrino. Duendes, elfos, ninfas aladas e tantas outras criaturas vinham das extremidades e tomavam posição na algazarra. Encíclicas eram ditadas e pergaminhos violados e recitados, supunha, em seu favor. Muitos vibravam, direcionando ao Arcano suas vozes de adoração. Havia número indeterminado de clarinetes, pratos, oboés; pessoas de faces mascaradas de contentamento. O peregrino até divisou o rosto de Shakespeare no meio deles, acompanhado de clowns e nobres da Inglaterra. E mesmo que desfilassem diante de seus olhos com roupas as mais coloridas possíveis (valetes, os mais sabiamente trajados), não havia ninguém que dispensasse um tipo de elmo vermelho a estampar um brasão.

Aquilo de gesticularem adocicadamente os braços num gesto de chamamento e prazer tomara de êxtase o peregrino. De que maneira avassaladora lhe sobreveio a sensação de estar muito próximo do cerne de sua alma, do objetivo abstrato e inominado de seus passos! Quando quis avançar dos passos, eis que surgiu atrás de si, célere como a pertinácia da flecha, outra turba, de igual melodia, porém dez ou onze vezes mais numerosa que a dos elmos vermelhos. Arlequins, colombinas e ninfas de rostos faceiros, incontáveis feito os grãos cidadãos das dunas, vestes coloridas e medievais, fitas luzidias ao redor das frontes. Aos olhos do peregrino, a segunda turba era protótipo perfeito da primeira, exceto por uma distinção estampada principalmente nas bandas marciais surgindo dentre fileiras e colunas: os elmos violetas e brasões com motivos floridos.

Enquanto os integrantes de ambos os grupos mexiam o tronco em cadência de marcha, dois personagens irromperam em cada lado. O peregrino, sem sombra de dúvidas, concluiu se tratar de hierarquia, do movimento natural de autoridades sobre seus respectivos embrasonados. O maioral vermelho deu passo que tiniu na lateral do trilho. Virando-se, notou que o de elmo violeta fizera o mesmo e, como bonecos atiçados pelo mesmo ventríloquo, abriram os braços sorrindo — perfeitos Cheshires mandibulando tal qual oradores prestes a tomarem a palavra.

* * *

MAIORAL DE ELMO VERMELHO

Hosana, aventureiro! Sou o líder do Partido Carmesim.

 

MAIORAL OPOSTO

Volte nos calcanhares, amigo forasteiro, deixe-me vê-lo!

Eu lidero o Partido Violeta.

 

LÍDER CARMESIM

O Todo me pertence, nada escondo!

Se quiser duas maçãs segurando as arestas da boca,

É comigo que tem de tratar e mais ninguém.

 

LÍDER VIOLETA

Balela! Esse farsante, aventureiro,

Sempre apoiando-se em bengalas de inverdades.

O sujeito jura a si mesmo que leões saltam dos lábios,

Conversas engenhosas feito pantufas ao pé do ouvido,

Mas mal sabe que é vento o que se cospe dali!

 

LÍDER CARMESIM

isto que seguro com tanta propriedade, irmãozinho?

É a lavratura da boa fé de tudo o que digo!

 

LÍDER VIOLETA

Isso que sacode é tão-somente vizinho do umbigo

Morando no andar de baixo. Aventureiro, logo

Que ele começa sua arenga

Amarra as bolas entre as coxas e cruza as pernas.

 

LÍDER CARMESIM

O irmão insinua que não mantenho minha palavra???

 

LÍDER VIOLETA

Abrindo a boca, a moléstia do Pinóquio se agrava!

Ká-ká-ká!

 

LÍDER CARMESIM

Não dê atenção ao meu adversário.

Finja que ele é uma velha enfezada —

Faça-lhe gestos com a mão em bicos de pato.

Diante do que lhe oferecerei, aventureiro,

Gente houve que se prostrou em desejo!

Anjos falam por mim!

 

LÍDER VIOLETA

Mais uma peça que o farsante tenta engendrar!

Nada tem a oferecer, senão o oco entre as orelhas!

 

LÍDER CARMESIM

Escute, providencial e nobre aventureiro:

Ramstrate é zeloso camarada, mesmo

Tendo as árvores em complô e tentando

A todas defenestrar os galhos! Mora no

Pântano Bivalve, ao sul da biqueira de meus passos.

Embebeda-se como um neném que se chamasse Insaciável

Nascido há três dias e sem esperar o amanhã.

Que belo, insopitável companheiro lhe arranjarei!

 

LÍDER VIOLETA

Ah! Você invoca a bruta imagem de Ramstrate

Que contém esses imensos predicados.

Mas não esqueça que tais fatos vão é afastar o aventureiro!

Quem emprestaria amizade ao louco assassino

E ao seu machado?

 

LÍDER CARMESIM

Chieqtana Rio-Abaixo e Rio-Acima, terras de sonhos e

Losangulares favos de mel; Blafstrana é morada do prazer

Eganunflata só deixa adentrar homens valentes, crias

Da guerra e do fio da lâmina. E que falar das

Montanhas do Norte? Pode-se dizer

Incubadoras da alegria, do sorvete algodoado e do Arcano.

 

LÍDER VIOLETA

Dê um pontapé nesse embusteiro, aventureiro!

É no meu Partido que alcançarás aquela brasa que

Sinto querer pulsar no elmo esquerdo de sua carne

E na pontinha sapeca! Ah, homens que somos — uns loucos!

 

COLOMBINA CARMESIM

Que delícia pode vir de tanto assédio?

 

COLOMBINA VIOLETA

Delicie-se inteirinha neste dedo médio!

 

COLOMBINA CARMESIM

Irmãzinha, isso são modos? Deixaste onde a moralidade?

 

COLOMBINA VIOLETA

Onde sua mãe praticava orgias arrotando santidade!

 

COLOMBINA CARMESIM

Como é difícil dialogar contigo!

 

COLOMBINA VIOLETA

Contigo também, irmãzinha. E quer saber? Tanto melhor. Não me queixo.

 

LÍDER CARMESIM

Colombinas, basta de fervilhos.

Estariam se lambendo, não fossem os trilhos.

 

COLOMBINA CAMESIM

Eu, senhor? Com ela? Nem em mil anos! Aprecio minha saúde!

 

COLOMBINA VIOLETA

E eu, minha língua!

 

LÍDER VIOLETA

Vê, aventureiro, como se assanham essas meninas

E tentam se desbriar a pouquíssima distância

Quem as criou deve ter se arrependido

De lhes colocar dentes na boca e unhas nos dedos!

 

LÍDER CARMESIM

Ah, e se era essa a intenção? Hi-hi-hi!

 

LÍDER VIOLETA

Boa, irmãozinho! Presumo agora que debaixo dessas roupas

Não há um jumento completo

 

LÍDER CARMESIM

Incompleto eu sou, mas tirando suas botas, que perfeição de égua!

 

LÍDER VIOLETA

Como vejo acabar a nossa trégua! Continue.

 

LÍDER CARMESIM

Aventureiro!

Ploct-ploct-ploct-ploct!

 

LÍDER VIOLETA

Ploct-ploct-ploct-ploct!

Uma cópia exata!

 

AVENTUREIRO

Que é isso?

 

LÍDER CARMESIM

Ploct-ploct-ploct-ploct — sinal de aventura!

 

LÍDER VIOLETA

Negativo!

Ploct-ploct-ploct-ploct, vindo de lá, é sinal de desgraça!

 

LÍDER CARMESIM

Minha pomba!

 

LÍDER VIOLETA

Cozida com os ovos.

 

LÍDER CARMESIM

O meu é o verdadeiro ploct-ploct.

 

LÍDER VIOLETA

Que nada, irmão! O meu é real

A crina farta, pelos sedosos, branco como o olho da morte

Seis patas velozes, chifres escorrendo pescoço abaixo

Porte de um Nietzsche que vem para vencer

Um belo cavalo de aventuras! O seu

É um rapaz atrás da árvore batendo as mãos nos joelhos

E Ploct-ploct-ploct-ploct!

 

LÍDER CARMESIM

Pensei que em nossa disputazinha

Não nos permitíssemos mentiras deste jaez

 

LÍDER VIOLETA

Não minto jamais! E, aventureiro, esta é para ti:

Se o bom Arcano ajuntasse cumulus nimbus de piolhos

O que seria de nós?

 

AVENTUREIRO

Deixe pensar nessa chuva… Gente em pandemônio?

 

LÍDER VIOLETA

Não! Gente feliz! Gente roída pela miséria

De se ter os cocurutos invadidos

Tentando matar a praga até mesmo com marteladas na cabeça

Num momento, no entanto,

De tanto coçarmos, riremos! E o que são

Dias de tormenta frente a uma eternidade de risos?

 

LÍDER CARMESIM

Nisso tem razão o meu irmão. Até me abaixarei em reverência.

 

LÍDER VIOLETA

Lisonjeiro! Mas quem muito abaixa fotografa o céu com lente suja.

 

ARLEQUIM VIOLETA

Ká-ká-ká! Chefinho é um pândego!

 

LÍDER CARMESIM

Sossega, franguinha! Agradece ao Arcano

A dupla linha impenetrável que temos como fronteira

Para que eu não leve meus cinco servidores até ti

E lambuze os punhos deles com sangue inocente.

 

ARLEQUIM VIOLETA

Cinco contra um? Isso é muito ardente!

 

LÍDER VIOLETA

Chega, arlequim! Para o Aventureiro

Seu fogo é estranho

Ele terá boa costela onde se queimar!

 

LÍDER CARMESIM

Nobre aventureiro, o amor é chama solta

Pulsa de uma veia e se ocupa em

Raspar a superfície da Terra

Até encontrar o peito onde se agasalhará

 

LÍDER VIOLETA

História!!! O amor é chapéu de cogumelo

Experimentando toca de carne

E bote pescoço! E que pescoço!

 

ARLEQUIM VIOLETA

Pém-pém-pém. Protesto!

 

LÍDER VIOLETA

Acalma essa pata! Contenha-se!

 

ARLEQUIM VIOLETA

Como o aventureiro dispensará os talheres

Se ainda não provou a sopa?

 

ARLEQUIM CARMESIM

Vire homem, irmãozinho! A matriz que me fez aqui

Tem uma idêntica onde você está.

Mostre hombridade!

 

ARLEQUIM VIOLETA

Escutem essas palavras mesquinhas,

Quando ele se exalta, dá três pisadinhas!

 

ARLEQUIM CARMESIM

Retire o que disse! Como você me envergonha!

 

ARLEQUIM VIOLETA

O que você gosta é morder uma fronha!

 

ARLEQUIM CARMESIM

Eu ter desafio! Inimigos nunca me dobraram!

 

ARLEQUIM VIOLETA

Irmãozinho imbecil, os trilhos nos separam.

 

COLOMBINA CARMESIM

Eis que alguém se aproxima. Conhece?

 

ARLEQUIM CARMESIM

Com nenhum dos meus ele se parece.

 

UM PALHAÇO

E que roupas todas negras! Falta brilho e alegria.

 

COLOMBINA CARMESIM

Um chapéu sombrio, pano na cara. Cheira a trapaçaria!

O que esperar dessa estranha presença?

 

UM PALHAÇO

Só sabe o Arcano. Que a curiosidade não nos vença.

 

AVENTUREIRO

Quem é você e de onde vem?

 

HOMEM DE NEGRO

Tanto uma como outra coisa pouco lhe interessam.

Sou o que sou e o que tenho de ser;

Só digo meu nome a quem não pode escutar,

Malgrado me mostre a quem não me identifico.

Sou o que sou, e mais do que isso é maldição.

De que maneira iria ajudá-lo dando enfadonha explicação?

 

AVENTUREIRO

Pelo simples motivo de que você pode andar no vão dos trilhos e eles não.

 

HOMEM DE NEGRO

Sim. Nisto tem razão.

O Arcano é quem me autoriza

Ainda que levianamente, pois a ele

Presto contas de (algumas) coisas.

Ele é pai severo e cônscio de minhas misérias.

 

AVENTUREIRO

E o que faz aqui, e por que fala sussurrando? Suas palavras não rompem

Tamanho barulho dos Partidos

 

HOMEM DE NEGRO

Escute atentamente um homem desterrado.

Não despreze aquele a quem o Arcano autorizou

Palmilhar os charcos penumbrosos por meio

De sua cuspida que sela os sete pergaminhos.

 

AVENTUREIRO

Por que parou? Continue.

Tem um rosto de Gizé que me interessa e me assusta.

 

HOMEM DE NEGRO

Blafstrana, Eganunflata e as duas Chieqtanas,

Ramstrate do machado senil,

Yaqmutrabh e Ghlasi ao norte,

E após o Pântano Bivalve, Hyúrik, o diabo saltador —

Paragens e personagens tétricos os conheci

Todos, todos, em tempo remoto, quando

Possuía as mesmas permissões deles.

Hoje, chafurdo.

 

AVENTUREIRO

Ainda que esteja entorpecido por alguns desses nomes

Identifico as propostas do Partido Carmesim. Veio defendê-los?

Advoga para eles?

 

HOMEM DE NEGRO

Eis outra pergunta que tampouco lhe serve de auxílio

Que importa se obedeço a Pares ou a Ímpares?

Meu objetivo é sanar sua dúvida com simples tato:

De modo algum atravesse o trilho dos Carmesins!

Eles mentem. Os lápis de suas bocas

Constroem apetitosas e monumentais ilusões que

Uma mão simplória em forma de borracha facilmente apaga.

Sente minhas pupilas no banco das testemunhas:

Pessoas, lugares, volúpias e ociosidades

(Incluso o cavalo, pura insídia!)

São arapucas para prender o senhor —

Eles querem é um palhaço para seus divertimentos.

Afaste-se, senhor; atenda ao chamado daquele

Macaco espoletado:

Escolha o Partido Violeta.

 

CENTAURO CARMESIM COM RABO DE ESCORPIÃO

Vejo interesse cauteloso nos olhos do aventureiro.

Venha cá, irmão Ciclope! Diga-me,

Pode interromper aquela falação inaudível?

Meu golpe seria preciso, não fosse a barreira dos trilhos.

 

CICLOPE

Tanto a ti como a mim e a todos, como sabe.

Mas algo lhe posso garantir.

 

CENTAURO CARMESIM

Garantir? Que é? Revele somente ao meu ouvido.

 

CICLOPE

É o silêncio cúmplice do outro Partido!

 

CENTAURO CARMESIM

Maldito Chefe Violeta!

Isso é desleal e pode levar à guerra!

 

CICLOPE

E esperava um ato nobre de quem

Não vale o que o gato enterra?

 

CENTAURO CARMESIM

No duro lhe ofereceram suborno para perpetuar o plano.

 

CICLOPE

Não. Ele quer seu salvo-conduto, mas isso quem dá é o Arcano

Portanto, meteu-se num ledo engano.

 

AVENTUREIRO

Então me oferece o Partido Violeta num gesto de garçom.

Onde estão as delícias? Não falou nelas ainda.

 

HOMEM DE NEGRO

Você as verá.

 

AVENTUREIRO

Eu as verei ou você não as conhece?

Numa equação, dois termos se igualam.

 

HOMEM DE NEGRO

“Explanar somente a verdade” é condição

Gravada no caput de minha sentença

Assim sendo: sim, desconheço tais delícias.

 

AVENTUREIRO

Então por que se submete aos Violetas?

Deseja pregar-me uma peça?

 

HOMEM DE NEGRO

A mentira não se imiscuirá em meus lábios

Assim sendo: o Líder Violeta prometeu revogar

Junto ao Arcano a minha pena.

 

AVENTUREIRO

E realmente acha que aquele homem pode fazê-lo?

 

HOMEM DE NEGRO

Quis pronunciar inverdades pela vez terceira e me contive

Já não me vejo digno de estar diante do senhor

Pernas me levarão daqui, mas

Assim sendo: negativo,

Homem algum pode interceder por mim.

 

AVENTUREIRO

Querido amigo, não se vá! Busque alento aqui, entre os seus!

 

HOMEM DE NEGRO

Não há o que buscar, salvo a minha redenção. Adeus.

 

COLOMBINA CARMESIM

Vejam, o misterioso homem se afasta!

O aventureiro o rechaçou?

 

LÍDER CARMESIM

Tal ato decreta nossa vitória!

Aventureiro, oito passadas esticadas nos separam.

Venha a mim. Eu lhe darei boas roupas

E uma vida de verdade saltará de meus bolsos!

Troo-pa!

 

PARTIDO CARMESIM EM CORO

Viva! Viva! Viva!

 

LÍDER VIOLETA

Ô irmão salafrário,

Não conte com um ovo dourado a sair de

Cloaca proletária. A surpresa é sempre encardida.

Caríssimo aventureiro, os mesmos passos o distam de nós.

Transponha este trilho e eu conservarei essa

Chama ardendo sem se ver!

Troo-pa!

 

PARTIDO VIOLETA EM CORO

A vontade prevalecerá!

 

PARTIDO CARMESIM EM CORO!

O amor! O amor!

 

AMBOS OS PARTIDOS

Vigaristas! Embusteiros!

 

* * *

Nem de longe se pode afirmar que o duelo protagonizado por violetas e carmesins cobiçando a preferência do peregrino atuava neste como um gás inflando o orgulho — tampouco os grupos rivais contavam com isso para engrandecerem suas possibilidades. Desde o início da disputa (melhor, desde o repique das marchas incendiando positivamente sua alma), as provocações alegres e até acusações de baixo quilate tornaram-se parte enxertada no desconhecido combustível que centuplicava o prazer do peito e subia às extremidades da boca satisfeita. Nunca havia sentido algo parecido, um calor que era profusão de empatia seja para com um simples inseto ou para com a humanidade em derredor. E o que seria? Notara em si certa centelha disso mesmo antes de pôr o dedão no descanso do trilho, e agora que enchia-se de tal aura secreta sem sombra de dúvida se dispunha a dar a vida por mais cinco minutos de epifania.

Sem poder dispor a sensação em palavras concretas, apenas chamou àquilo “o milagre do mundo”. Pois bem: o “milagre do mundo” veio para resgatá-lo daquela provação, o “milagre do mundo” quase rebentou seus pulmões, o “milagre do mundo” tomava corpo místico no pandemônio alegre dos Partidos.

Melhor: por mais que a força exterior determinasse divisões intransponíveis entre ele e as turbas, alguma coisa instintiva dizia-lhe que o “milagre do mundo” romperia as barreiras e viria cumprimentar sua mão.

Ato contínuo, inteiramente dominado por uma espécie de fogo do sétimo céu o peregrino se viu incapaz de formular uma decisão; sentia-se pequeno demais para recusar um dos Partidos e engajar-se de corpo em outro (os carmesins rogando por ele em gestos sobejamente chamativos, ao passo que os violetas cantavam e faziam-lhe troças em forma de promessas). Num verdadeiro ato de desespero (como que um vento de popa lhe invadindo as reentrâncias do espírito para comunicar a iminente extinção daquela maravilhosa brasa em seu peito), o peregrino arremessou os olhos ao céu, mas o Arcano, que tanto zelara por ele desde os tempos imemoriais da singradura, desapareceu furtivamente, cedendo espaço a um sol enigmático, sem brilho.

Em meio a este impasse, atravessou-se um quarto de tempo — o homem repisando a terra entre as linhas e os Partidos oscilando como quebra-mares, marchando sem triunfar sobre a influência obstaculizadora da linha férrea. Mas surgiram sinais de afrouxamento. Os cimbalistas das duas turbas, anteriormente inesgotáveis nos instrumentos, deram para bater uma nota a menos na melodia feito um coração soltando coices de quando em quando. Tamboristas sofriam cansaço idêntico, porém não dando mostrar de entregar os pontos.

Morosidade e hesitação tocavam os ponteiros desde então; o peregrino, num esforço interior hercúleo, anzolando a vista ora nos Carmesins, ora nos Violetas e vice-versa, coçando o queixo, limpando o suor emperlado na testa, e outra mirada nos Partidos, colombinas, ninfas, arlequins fanfarrões (em que via futuros companheiros de boemia), monstros portentosos de rosto senil… De forma que o ato seguinte despertou o paradoxo de ser inesperado, mas, no âmago, muito bem previsível.

Um grande estrondo interrompeu a fuzarca. A derradeira nota morria ao fundo da garganta dos trombones; um golpe surdo e solitário abandonava os tambores. Não houve quem imediatamente não fitasse o céu.

Correria e alaridos no Partido Violeta. Uma estrutura exponencialmente enorme (diziam “cósmica”), o antebraço dourado, velho conhecido do peregrino, tombou sobre a linha próxima àquela turba. O tremor sob os pés lançou o homem para trás. Outro antebraço, o da mão esquerda, despencou no lado oposto, causando confusão e gritos no arraial Carmesim. Caminhando de gatinhas e entorpecido pelo trauma daquelas quedas descomunais, o peregrino desatou em choro.

Vigoroso bloco de sons metálicos veio até ele. Numa fração de momento, ambos os antebraços esfumaçaram-se, mas não eram vagões convencionais. Gorilas com, talvez, o dobre de sua altura e o quíntuplo de robustez invadiram as linhas a correr como raios horizontais. Os animais dispostos na linha Violeta seguiam a oeste; os da linha Carmesim, a leste. Ao peregrino coube emergir do torpor e tornar caminho no sentido de uma das levas de gorilas.

O ardor no coração se dissipara. A busca, retomada — mãos esmagando os cabelos em franco desespero.

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15 comentários em “Triptukhos (José Leonardo)

  1. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Hehehe
    Embora eu não possa dizer que entendi completamente o ‘caminho’ do peregrino… Eu me diverti aqui, com as falas, tipo teatro, não é?
    Muito legal! Ri bastante!
    Parabéns pela versatilidade e competência na escrita.
    Abraço

  2. Andressa
    18 de março de 2016

    Nota: 9.0. Um conto que me causou reflexão, afinal qual de nos não está perdido em algum momento ou em alguma questão. Mesmo que não se reconheça isso estamos sempre em uma busca sedenta. Me fez bem, refleti.

  3. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    Achei este conto visualmente fantástico, no melhor sentido da expressão. A descrição das imagens, especialmente no início, enquanto o peregrino avança em sua caminhada me remeteram à “Noite Estrelada” de Van Gogh, com seus turbilhões de pontos luminosos, aquele efeito caleidoscópico que nos deixa tontos.

    O desenvolvimento no geral, com tantos seres típicos do universo de fantasia, me trouxe a lembrança da Alice de Lewis Carrol, tendo-se o peregrino no lugar da menina, ambos embasbacados, maravilhados, embriagados até, com tamanha profusão de absurdos. Carmesins e Violetas lutam pela atenção do protagonista, revezando-se em argumentos e acusações, em rimas e confrontos verbais pontuados por intervenções dos seres mitológicos. De fato, o conto é uma viagem psicodélica muito bem escrita e envolvente.

    Entendo a opção do autor pelos diálogos teatrais, como num roteiro, mas creio que isso tirou um pouco do fôlego da narrativa. O espanto que me atingiu no primeiro terço sofreu certo baque quando o embate passou ao verbo. Ainda que tenha se recuperado ao final, quando se retoma a linha que inaugurou o texto, fiquei com certa sensação de enfado.

    De qualquer, é inegável a habilidade do autor com o vernáculo. Chego a dizer que está um degrau acima da maioria por aqui. Um trabalho que, embora experimental a meus olhos, revela profundo domínio da técnica.

    Nota: 8,5

  4. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    O início imediatamente lembrou-me “Um Cântico para Leibowitz”. O ponto alto são os cânticos dos líderes, poéticos, metafóricos, finalmente eróticos. O final também lembra o romance de Walter Miller Jr. O estilo é muito bem trabalhado, filigranado, e às vezes sinistro. Um conto intrigante, sugestivo e misterioso.

  5. Daniel Reis
    15 de março de 2016

    Prezado autor: seu texto, de características mágicas (no sentido tolteca, do Carlos Castañeda), apresenta uma estranha realidade circular, sufocante e ansiosa, que conduz o olho até o fim do texto mesmo que a gente não consiga entender as coisas. O uso da linguagem do teatro, pelo menos para mim, é justificável e não invalida a classificação de conto, tornando-se um destaque no experimentalismo da peça. O final, somente, me decepcionou um pouco – parece que acabou um pouco antes do fim da “viagem”. Parabéns pelo conjunto da obra!

    Pontos positivos: a riqueza da linguagem e a escolha das palavras, se não exatas, muitas vezes surpreendentes, inclusive no uso que faz o autor do modelo teatral.

    Pontos negativos: o delírio do texto (cortesia de Alice no País das Maravilhas & Castañeda) retorna ao ponto de partida, sem chegar exatamente a lugar definido.

  6. Alan
    15 de março de 2016

    Dependendo do ponto de vista pode até ser que este conto esteja adequado ao tema, mas não concordo. Está mais para um texto teatral. Leitura cansativa, não passa nenhuma emoção. Longe de ser prazerosa como deve ser uma história fantástica. O ponto positivo é que foi bem escrito.

  7. Carlucci Sampayo
    15 de março de 2016

    Um conto tremendamente hermético que utiliza de bela linguagem, rara e culta; engajamento de frases, expressões e palavras com interessante domínio de construção verbal e nominal; classicamente bem construído. Porém, no quesito fantasia, se posso assim dizer, esta restou perdida em meio à extensão da narrativa, que, ainda recheada de um diálogo tenso e desafiador, acabou por tisnar ainda mais a compreensão do que seria o enredo em poucas palavras. Talvez a falha tenha sido desta leitora, no que me penitencio, observando que o autor detém vasto conhecimento e pleno controle de seu vocabulário esmerado; o que, de toda forma, é um aprendizado ímpar. Nota 6,5

  8. Pedro Teixeira
    15 de março de 2016

    Olá, autor! Gostei da disputa no fim, com os versos, foi um trecho divertido. Há boas figuras de linguagem e uma escrita interessante, mas senti falta de personagens mais bem construídos e de uma trama mais definida, a estória ficou me parecendo mais uma coleção de imagens do que um conto. Você escreve bem e existe ideias bem bacanas aqui, mas pelo menos para meu gosto pessoal não me prendeu o bastante.

  9. Sonia Rodrigues
    10 de março de 2016

    O tema é muito interessante. O leitor fica curioso para saber onde terminará essa peregrinação pelo deserto.
    O estilo pode ser melhorado com mais concisão , por exemplo “céu permanentemente nebuloso. Da vastidão silente e estéril, a milhares de metros e entre camadas de nuvens finas e limpas como lençóis, “ Se o céu é nebuloso, espera-se que haja… camadas de nuvens ! …e o branco da nuvem ser comparado a lençol é meio óbvio. O uso de menos adjetivos deixaria o texto mais objetivo.
    A estratégia de andar na diagonal é instigante. Até aí o leitura fluiu bem.
    Então eu me perdi nos tais braços, nos grupos carmesim e vermelho e nos trilhos. Achei ruim a inclusão de uma parte dialogada no meio da narrativa, também um excesso de simbolismo, como homem de negro, arlequim, estandartes, etc
    O fim é interessante, a gorilada espantando a todos e o peregrino tomando um partido, e recomeçando a sua busca, em novas condições. O desaparecimento do Arcano também foi interessante, deixando o personagem à sua própria sorte.
    Acredito que o título tenha a ver com essa partição, dois lados e no meio os trilhos.
    Gostaria de houvessem mais pistas no texto, pois me perdi entre as referências aos nobres, clowns e de outro lado, o cantil que se enchia sozinho e que me fazia pensar no maná bíblico.
    Nota: 7

  10. Ricardo de Lohem
    10 de março de 2016

    Oi, como vai? O conto mais hermético do grupo 4. Para decifrar esse indecifrável texto, eu precisaria ler umas dez vezes, mas isso seria uma tarefa sobrehumana: ler uma já foi extremamente difícil devido ao estilo truncado e descritivo.Realmente não tenho muito o que dizer, já que, sendo absolutamente franco, não compreendi a história, e a falta de elementos que me atraíssem me deixaram sem nem vontade de entender. Desejo Boa Sorte.

  11. Rubem Cabral
    8 de março de 2016

    Olá, McMurphy.

    Que conto delirante, não? Não tenho certeza se entendi bem. Enxerguei os carmesins e violetas como partidos de lados opostos, talvez seus nomes tenham a ver com o espectro da luz. O peregrino parece ser um homem a procura de deus…

    Achei o todo muito bem escrito, mas o estilo é muito pesado, o uso de vocabulário pouco comum foi certamente excessivo, tornando a leitura difícil.

    A parte do “confronto” entre as turbas foi uma bocado enfadonha para mim.

    Enfim, sem saber opinar muito, considerando a qualidade da escrita e o esmero das descrições, darei nota 6.

  12. Alan
    7 de março de 2016

    Sou a favor da escrita e leitura fáceis, o que não é o caso deste conto. Mesmo assim, achei muito bem escrito e rico. Nota: 7

  13. Virgílio Gabriel
    7 de março de 2016

    Olá autor! O conto parece lindo, clássico, diferente… além de expor um vocabulário e diferenciado. Porém esse conto parece que foi feito para você e não para um público. Eu não entendi quase nada, e achei totalmente fora do tema do desafio. É um conto que eu admiro muito, pela qualidade exposta, mas não consigo achar adequado para um desafio como esse.

  14. phillipklem
    7 de março de 2016

    Boa tarde.
    Desculpe, mas não consegui gostar do seu conto.
    Percebe-se que você escreve bem e que tem um vocabulário bem vasto. Mas este foi exatamente o ponto no qual você pecou.
    Sua escrita ficou muito confusa e rebuscada, tirando a atenção do leitor do texto, e, além disso,tornou o conto enfadonho de se ler.
    Gostaria de frisar, também, aquela longa parte de diálogo entre os partidos. Essa com, sem dúvidas, a parte que mais me desagradou no conto.
    Talvez você deva levar em consideração o leitor. Nem todos gostam de uma leitura difícil como o seu conto. É claro que há a questão do estilo, mas, pense bem, em última instância, escrevemos para ser lidos.
    No mais, você é um escritor nato e tem um grande talento. Se este é o seu estilo, vá em frente. Há publico para isto. Mas, se você quer receber elogios de leitores comuns, comece a falar a linguagem deles.
    Boa sorte.

  15. catarinacunha2015
    6 de março de 2016

    O COMEÇO precisei ler 3 vezes para entender o cenário e só despertou interesse a partir do 3º parágrafo. O FLUXO da narrativa é bem elaborada foi crescendo até chegar nos diálogos desnecessariamente extensos e fracos. A VIAGEM é curiosa e filosófica, mas perde-se na profusão de imagens desconexas e gratuitas. FINAL em loop infinito fácil. Nota 6,5

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 4 e marcado .