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Detox Literário.

Quid Pro Quo – Conto (José Leonardo)

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Não tive tempo de concluir o inquérito, ou foi o inquérito que me concluiu, sei lá. A cadeira deslocou-se de seu quadrado ao me ver próximo, a escrivaninha deu sacodes de cavalo. Monitor e CPU se separaram como duas siamesas recentemente avacalhadas por um médico tailandês. O descanso dos pés mandou-me cagar agulhas, não trabalharia mais, achava aquele inquérito infamante.

— Mas que porra de revolta é essa? Levante operário-eletrônico?

Silêncio bicudo.

Quando pude reuni-los (eita eita, amarras de cordas grossas, ameaços de desligar do interruptor — esse, graças aos céus, mostrou-se meu aliado), sentei meu traseiro gordo e pensei nas primeiras palavras a serem seivadas dos dedos.

(Minto. Primeiro peidei. Repolho é prioridade nesta Zpol, uma verdadeira feira geriátrica de delegados pançudos e milicos catinguentos.)

Não deu certo. As vírgulas protestavam. Ponto final se fez de surdo, resolveu marchar para o cabeçalho da tela, fincou pé como uma raparigona mal paga:

— O senhor investigador vá me desculpando, mas assassinato de impressora é pra quem acredita em coelhinho da Páscoa.

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8 comentários em “Quid Pro Quo – Conto (José Leonardo)

  1. Gustavo Castro Araujo
    5 de fevereiro de 2016

    Há algo kafkiano aqui ou é impressão? Gostei da revolta. Imagino a viagem do protagonista, preso a uma rotina de burocracia enlouquecedora. Quem termina quem? Quem domina quem? E isso não vale só para os inquéritos, que aqui funcionam como objeto, mas com qualquer processo. Para quem já trabalhou com análises desse tipo — exatamente o meu caso — o conto, embora curto, fala alto. Quantas veze me peguei desejando que, no meio de um exame extenuante, com um assunto a resolver completamente ridículo, o equipamento se revoltasse e entrasse em colapso?

    • O autor.
      5 de fevereiro de 2016

      Gustavo, você não é o Conde Drácula, mas foi direto na jugular. É o excesso que extenua, que numa hora ou noutra manda tudo à PQP. Mas aqui há um pouco daquele relaxamento, aquele esticar de canelas numa Copacabana imaginária pós-desafios. Abraços.

  2. Claudia Roberta Angst
    5 de fevereiro de 2016

    Nada como um texto curto e diferente para sacudir os pensamentos. Reli umas duas vezes e cada momento gostei mais da coisa sem nexo. A revolução dos eletrônicos e o assassinato da impressora? Surreal !

    • O autor.
      5 de fevereiro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Sensuáudia Angst. Era pra ser uma loucura, mesmo.

  3. Leda Spenassatto
    4 de fevereiro de 2016

    Eu li, mas confesso, não entendi direito, preciso reler com mais atenção.

    • O autor.
      5 de fevereiro de 2016

      Grato, Leda Spenassatto. Se puder ler novamente, ficarei muito feliz.

  4. Anorkinda Neide
    4 de fevereiro de 2016

    Hahaha achei engraçado!
    não sabia que quiprocó, tinha esse jeito chic de se expressar 😛 🙂

    • O autor.
      4 de fevereiro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Anorkinda. Foi um exercício bem solto e sem as amarras que eu constantemente me policio em colocar. Foi tipo um sexo sem compromisso. Abraços.

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Publicado às 3 de fevereiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .