EntreContos

Detox Literário.

O Gato (Evelyn Postali)

Le Chat

Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;
Retiens les griffes de ta patte,
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux,
Mêlés de métal et d’agate.

Lorsque mes doigts caressent à loisir
Ta tête et ton dos élastique,
Et que ma main s’enivre du plaisir
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard,
Comme le tien, aimable bête
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et, des pieds jusques à la tête,
Un air subtil, un dangereux parfum
Nagent autour de son corps brun.

— Charles Baudelaire

Two editions of Fleurs du mal were published in Baudelaire’s lifetime — one in 1857 and an expanded edition in 1861. “Scraps” and censored poems were collected in Les Épaves in 1866. After Baudelaire died the following year, a “definitive” edition appeared in 1868.

 

A rosa foi oferecida a ela em um gesto impulsivo daquele jovem homem galante que a seguiu durante dias. Minha senhora, como sempre, em saídas que empreendia, banhava a tarde parisiense de charme e encantamento. A rua nunca era a mesma depois que ela passava. Transformava-se em perfumes de azaleia

Ele, encantado, não se preocupou em saber que a sombra que a ela se grudava era a de Aupick, homem de alma escura e dominadora. No ímpeto de Don Juan, apenas a queria cortejar, envolvê-la na lábia que ganhara outras damas, apertá-la nos abraços de músculos trabalhados, porque a beleza que minha senhora possuía lhe deixara os olhos embaçados. As ações que ele movia não respeitavam o alerta do cérebro, apenas escutavam o que o coração gritava.

Ao entregar-lhe a rosa, ele carregava no rosto um sorriso manso, de expressão disfarçada e mãos trêmulas. Inseguro, mesmo audacioso. A voz transbordava insegurança, mesmo movido pelo desejo irrefreável.

— É um homem gentil…

— Adolpho. Pode chamar-me de Adolpho.

Ah… Os olhares trocados não me enganavam jamais. Explodiam em fagulhas da tentação, dos anseios incontidos, da volúpia. Sensualidade e sexo confundiam-se no entendimento. Não haveria outro final para aquele caso senão a cama de alvos lençóis em silente espera. Não batia nos ponteiros do antigo relógio senão um tempo contado em suspiros e perpétuas-roxas, em sonetos mal ditos e malditos, recitados eriçando a pele nua, porque depois de uns poucos encontros em tardes ensolaradas de final de verão, tudo se acabaria no bosque, entre Adolpho e o Sr. Aupick.

Inevitável se fazia o conhecimento da traição. O dinheiro tomava corpo em forma de anotações em cadernos, instantâneos delatados por bocas maldosas, caminhadas apressadas e indigestas, pelas quadras e cantos daquela cidade de eternos amantes.

O riso nervoso dos pobres galantes jovens que ignoram a sina a qual imerge ao cortejarem minha senhora, arrepia meu pelo e suspiro no silêncio que cresce ao redor, porque o Sr. Aupick é paciente e estende a prosa por tempo irracional e intragável. E eu, um felino mais do que obediente de meu destino, não espero senão o final perfeito para aquele colóquio e outras saídas, e novos e diferentes encontros de idênticos finais, contudo.

Marco muito bem todos os nomes. Adolphos, Marcelos, Frèderics, todos eles em colisão com a senhora da situação. A morte pelas mãos de Aupick é sempre deselegante.

E como hábito, volto para o meu acolchoado resignado esperando pela próxima vez.

Minha patroa e senhora se agita a cada nova situação. Ela não entende o sumiço dos adoráveis admiradores, das vozes melosas e agradáveis, das mãos que lhe ofereciam muito mais do que rosas, daqueles convites para um chá da tarde ao som de canções de amor.

Decepciona-se pela ausência das cartas amorosas vindas por mensageiros imprevistos, dos recados por entre os bombons dentro de caixas requintadas, pela falta total de consideração.

Ela os procura por um tempo, pelas ruas, bancas de flores, intrigada, tentando encontrar suporte lógico para aqueles sumiços. Entre um telefonema e outro, buscando informações, ela deixa crescer a angústia.

— Não sabemos lhe informar. Contudo, pode conversar com um dos nossos investigadores. O Sargento Rageot poderá averiguar sobre as suspeitas, senhora.

— Talvez neste final de tarde, se ele puder me receber.

— Assim que ele retornar, senhora, passarei as informações a ele. Tenha um bom dia.

— Tenha um bom dia, policial.

Entre uma leitura e outra do jornal, na página policial, ela surpreende-se e silenciosamente chora pelos passeios que não mais acontecerão.

“A polícia investiga o desaparecimento de Marcel Delage. Segundo o senhorio, o jovem professor de literatura saiu por volta de onze horas da noite e não retornou. Os aposentos do Sr. Delage não apresentam qualquer sinal de arrombamento ou invasão.”

E entre uma conversa e outra com a florista, que lhe diz o que é de se esperar, ela toma a decisão de encantar-se por outros olhares, por outras bocas, por outros corpos.

— Não o vi mais, Sra. Aupick.

— É de se estranhar a ausência.

— Há dias, Frèderic não passa por aqui, senhora. Dizem que mudou-se repentinamente.

O Sr. Aupick, o homem de minha patroa, se movimenta novamente. Ele tem uma rotina invejável. Não tem outros afazeres a não ser ler o jornal, cuidar das aplicações financeiras, frequentar os cafés e a barbearia. De vida estabilizada, gasta o tempo e dinheiro atrás da mulher que lhe enganou o coração.

Pertenço a ela também. Estou preso à alma que ela carrega e me preservo para todo o sempre. Eu a sigo, zelo seu sono, preservo os passos delicados, engano as passadas daquele que a persegue todos os dias.

Passatempo das horas de espera, o Sr. Aupick, mira a avenida. Rua peculiar, de árvores tímidas preenchidas por folhas de um vermelho intenso cujo outono se anuncia molhado e mais frio. Caminho de escadas de pedras e varandas envidraçadas. De grades de ferro e olhares buliçosos.

A vizinhança o inveja. A vizinhança e a ideia de prazer. Porque o senhor de minha dona esbanja dinheiro e ostenta poder. Crescem notas verdes nos bolsos, feito a grama do quintal dos fundos, que adorna os canteiros de amores-perfeitos e roseiras de flores amarelas.

Conheço bem o andar de Aupick; aquele andar macio, silencioso, querendo imitar-me. De um lado para o outro, no quarto, afundando o grosso e macio tapete com a impaciência, ele a espera. É compreensível.

Ansioso e angustiado deixa cair as cinzas do charuto de cheiro enjoado. O doce que emana não é o mesmo cheiro de sua alma. Sinto cheiros distintos porque carrego muitas almas. Tenho comigo muitas vidas. É assim que funciona.

Volto minha atenção para ele enquanto me espreguiço, esticando meu corpo ao máximo. Todos os meus músculos estremecem e ele me olha.

Não demora muito. Nunca dispende muita atenção para comigo. Volta a olhar pela janela à procura dela. Ela, minha patroa, minha dona, senhora absoluta de minha alma, que enfeita o dia daquele homem, que norteia os pensamentos que o assustam, que encanta a noite quando, generosa, lhe permite os carinhos e escândalos por sobre os lençóis de cetim cor de pêssego.

Ele a procura porque precisa lhe pedir amor. Mentiroso. Precisa implorar. Inerme! Precisa rastejar. Ele, verme humano, que enterra o ódio, que se sufoca no sentimento de posse e que limpa os vestígios dos cruéis adágios nas toalhas brancas do banheiro.

Minha patroa é a loira da rua; é a musa dos olhares dos gentis cavalheiros que lhe consomem.  Olhares vorazes e mãos impulsivas. Minha ama é aquela que entra silenciosa e arruína a vida dos inadvertidos. Temo por ela apenas durante o dia quando o jogo de sedução se agiganta. A atuação nunca deixa a desejar, e a beleza equilibra a balança quando ela passeia pela alameda e devolve os desejos com as curvas e passadas arrastadas.

O homem a minha frente é fraco, de corpo e mente, e doente. A alma é de um negrume que me devora o olhar. A coragem que possui vem da fraqueza, movida pelo ódio e não alcança de libertar-se da prisão. O mal lhe corrói porque não consegue desvencilhar-se dela, tampouco libertá-la. Tornando-a prisioneira também fica acorrentado.

Ele me olha como se soubesse que sei. E eu sei.

Quando ela chega e ele a carrega para a cama, me retiro do aposento.

— Querido…

Não quero ver as mãos conspurcadas percorreram aquela alvura e delicadeza.

— Anaïs…

Não quero vê-lo tocar naquelas pomas pequenas e postas em lugar certo, feito rosas adornando um jardim, no peito de minha ama. É momento insuportável aguentar os sons que ele faz quando roça o corpo no corpo entregue por sobre a cama. Ela não reclama e não entendo o que a faz pertencer a ele.

Ela o deixa invadir o invólucro precioso, o templo, soltar o cheiro característico. Ela diz que o ama, que o quer, que a ele pertence e bem sei que a mente está em outro lugar. Está na rua de cima, na cobertura do outro, do homem do terno cinza, da pasta de couro, que não tem senão um escritório na rua principal. Ele não é Hildebrando. É outro e desconheço ainda o nome.

Quando jorra o gozo branco e denso para dentro dela, ela enlaça as pernas em seu corpo e lhe aperta o torso e sorri disfarçada. Deixa-o experimentar a sensação de domínio. Depois, se move para o lado e adormece e ele senta-se soberano sobre a borda da cama a planejar os próximos passos.

Ele olha para o relógio e conta os minutos. A areia da ampulheta cai rapidamente. O tempo de sair chega. Onze horas. Minha última memória aflora.

Eu estou do lado de fora, no telhado do puxado da biblioteca, por sobre a área descoberta, onde, no verão ela se deita na chaise lounge. Ela que é estrela daquela casa e que motiva aquele homem a fazer o que faz.

O Sr. Aupick sai de casa e o encalço através das muradas, dos telhados, dos chalés. Vigio de longe e acompanho as intenções. Sou uma sombra na sombra da noite.

Vejo-o perseguir o sujeito que anda apressado, ainda de terno cinza e que, se durante o dia entope a pasta de couro com papéis, agora tem nas mãos o vazio da noite.  Acelera muito pouco enquanto o outro alarga o passo para chegar antes. Paro longe da luminária da esquina. Esgueiro-me na escuridão, encostado na escadaria da velha senhora Marlene. Não posso parar por muito tempo porque quero chegar a tempo de ver.

Ele continua o trajeto cruzando as ruas mal iluminadas. Os homens de minha senhora têm um encontro marcado. O homem que a possui e o outro, que a ama quando o primeiro não está por perto.

Ainda não sei exatamente como ele descobriu. Com Hildebrando, o bilhete que viera junto da caixa de bombons foi suficiente. Esse jovem, porém, apenas a encontrou na florista. Ofereceu-lhe uma rosa de carmim intenso. Contudo, não cabe a mim julgar. Faço o que posso e bem feito para distorcer as descobertas do Sr. Aupick.

O parque do lado isolado da cidade mostra as silhuetas das árvores. São enormes vultos que vão engolindo os que nele penetram.

Meu pelo está úmido. O sereno da noite me apanha. Contudo, minha visão e audição estão aguçadas. É preciso ficar atento.

— Sr. Aupick…

Eu me escondo por entre os bancos para escutar o que dizem. O homem da cobertura conhece o homem de minha patroa. E a intimidade sempre é perigosa.

— Posso lhe chamar de Jacques, eu creio.

— Devo dizer que me surpreendeu o convite a mim feito. Por certo deverá ser algo importante.

— Sempre é importante, meu caro. Sempre é.

Eu não me pronuncio porque minha presença tem uma única função ali. Fico esperando pelo golpe na cabeça, para que ele despenque e durma o bastante para que o monstro o embrulhe.

E é o que ele faz. Um golpe sempre rápido, desavisado, que derruba o jovem amante. O ferro bate de encontro à nuca, o osso estala e quebra, e a nuca sangra. Um fio de sangue escorre, molhando a terra seca e escura daquela parte do parque. Sangue grosso de vermelho denso e escuro, tão viscoso quanto as pétalas das rosas que ele depositou nas mãos alvas da senhora. A poça nunca fica muito tempo por sobre a terra, porque faminta é a terra que engole tudo e todos e que desmancha o que se criou e se desfaz de tudo o que é vestígio.

— Sua audácia, estimado Jacques, é sua mortalha. Engana-se aquele que acredita que a rua não tem olhos, que as ações traiçoeiras podem ser encobertas para todo o sempre.

Ele o carrega. Puxa-o para o meio das macegas, onde nenhuma alma se aventura. Apaga os vestígios com agilidade demonstrando que a idade não lhe impede ainda de realizar as façanhas.

— Entenderá muito logo, meu caro e pretencioso jovem, que não se cobiça o que não nos pertence. É de boa educação e segurança manter o desejo à distância.

Eu vejo Jacques, inconsciente, ser posto por sobre o manto escuro. As cordas são passadas ao redor, mãos e pés e corpo. E assim, depois de olhá-lo cuidadosamente, ele o embrulha feito pedaço de vitela que o açougueiro lhe entrega todas as quartas-feiras para o cozido especial. E se importa em deixar ar suficiente para o golpe derradeiro, cruel e bem pensado. O que me espanta é a frieza com que ele organiza tudo, incluindo o saco de papel que usa para cobrir a cabeça, para que Jacques ainda respire quando se der por conta do infortúnio.

— Não verás amanhã, meu caro.

Espero até que ele cave o bastante para jogar o pacote pesado para dentro do buraco. Deposita o corpo dentro da vala que nunca é funda o bastante e pisa por sobre ele porque espezinhar um inimigo é certificar-se de seu total fracasso.

Ele sua e suja o lenço de linho.

— Eis que a terra lhe há de comer…

A voz é sempre carregada de ferocidade e ressoa por entre aquelas árvores enormes que não a deixam passar para mais além.

Ele deixa para cobrir a cabeça por último e escuto a voz angustiada, fraca, abafada, envolta naquela mortalha. Jacques implora. Grita. Dá-se por conta de que é uma questão de minutos. O ar lhe faltará. O mundo deixará de existir. O homem de minha senhora sorri. Para. Por um instante penso que terá piedade. Mas minha ilusão é doce. Terrivelmente doce.

A terra sempre engole minhas esperanças de que aquilo não aconteça mais. Ela cai e concretiza o fim. Ela é batida e tudo é sempre perfeito.

Depois que ele deixa o parque e segue para casa em suas passadas tranquilas, eu me aproximo. Espero um tempo. Quieto e paciente.

A magia acontece. Da terra brota a energia. Recolho mais uma alma. Ela se agita dentro de mim. Luta para aceitar que a tenho agora. Depois que tudo se aquieta, sigo para casa também para encontrar sossego por sobre aquela almofada que ela gentilmente arruma todos os dias.

Minha patroa me olha. O azul é sempre intenso. Duas pedras preciosas adornam aquele rosto. Claras e límpidas como a alma de um anjo.

O sorriso é sempre frágil quando alisa o meu pelo, afaga minha barriga, coça meu pescoço. Sou totalmente escravo disso. Amo-a por completo.

— Olhe para você! Molhado outra vez. Por onde andou, seu malandrinho?

Ele se aproxima enrolado numa toalha. Infame! E lá, na luz delicada do quarto, as mãos daquele homem me acariciam também e a eletricidade negativa é descarregada em mim. São mãos pesadas, calibradas com ódio, com cheiro de morte.

A rua está silenciosa. O homem da cobertura mergulha em silêncio perpétuo. Já passa da meia-noite.

Aupick me olha e devolvo o olhar através do espelho. Ele ajeita os lírios brancos do vaso, por sobre a penteadeira e se põe na janela.

Meu olhar o acusa. Ele sabe que eu sei.

 

 

* * * * * *

Lindo gato, vem cá, vem ao meu colo;
Encolhe as unhas dessa pata;
E deixa que eu mergulhe nos teus olhos,
Um misto de metal e ágata.

Quando os meus dedos, à vontade, afagam
O dorso elástico, a cabeça,
E a mão se me enebria de prazer
No corpo eléctrico, a apalpá-lo,

Vejo a minha mulher. O seu olhar,
Tal como o teu, querido animal,
Frio e profundo, fende-nos qual dardo,

E da cabeça até aos pés
Um ar subtil, um perfume perigoso
Nadam em torno do seu corpo.

Le chat, XXXIV (1859)
Versão Portuguesa: As Flores do Mal (Edição Bilingue)
Tradução: Fernando Pinto do Amaral
Editora Assírio e Alvim
Lisboa (1992)

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4 comentários em “O Gato (Evelyn Postali)

  1. Murilo Guilherme Gontijo Macedo
    12 de novembro de 2015

    Oi Evelyn,
    que conto excelente! Muito bom mesmo! Esses parágrafos curtos me aceleraram bastante, intrigado pelo final. Muito bem escrito, meus parabéns!

    • Evelyn Postali
      13 de novembro de 2015

      Obrigada, Murilo Guilherme Gontijo Macedo! Fico feliz em saber que gostou. Obrigada!

  2. Fabio Baptista
    12 de novembro de 2015

    Olá, Evelyn!

    Esse eu já tinha lido no wattpad! 😀
    Um ótimo conto, com aquela atmosfera sombria dos contos do Poe. Gatos sempre são sinistros. E humanos, mais ainda.

    Você escreve muito bem.

    Parabéns!

    • Evelyn Postali
      14 de novembro de 2015

      Oi, Fábio! Sim. Ele está lá no wattpad também e no meu blog.
      E concordo com você. Gatos têm uma aura estranha e fascinante! E humanos, bem… Nem sempre podemos esperar humanidade deles.
      Obrigada!
      Abraços!

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Publicado às 12 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .