EntreContos

Detox Literário.

O cara com o charuto – Crônica (Higor Benízio)

Já era quase uma da manhã quando o suspiro do mundo decidiu invadir a casa pela janela. Quente, úmido, apaziguador e com cheiro de chuva, de terra molhada. Minha última tragada foi junto, cinza, tal qual era minha alma, doente, sugada. Me faltava apenas um cinzeiro para desabar. Minha cama, ah sim, minha cama. O porta cinzas adequado, a preguiça sussurrada pela falta do abajur. Não quero ficar no escuro, não posso, seria insuportável. Não, não, e não. Ela acabaria vindo, tenho certeza. Sentiria seu cheiro, sua presença, seu olhar. Como poderia suportar? Não. Melhor, então, deixar como está. E já era quase duas da manhã.

Duas e dezenove. O sono estava atrasado. Nenhuma novidade, atrasa na sua hora e perde o ônibus de manhã. Duas e quarenta.

Meus vinte melhores amigos já haviam ido embora, feito fumaça, sem me dizer adeus mais, pois não, eu mesmo digo: “Adeus maldito câncer”, pode ficar com a embalagem, Dona Lixeira, estou satisfeito com a minha depressão. Me basta. Enche meu vazio de vácuo conciso, puro, sem nome. Não trabalho com bode expiatório. Faço meu serviço sozinho.

O que eu iria fazer mesmo? Ah sim, estava com sede, é verdade. Olha essa geladeira, faltava só ela usar meus óculos! Sinto alertar sobre o único erro em sua fantasia, senhora, meu freezer é mais embaixo, perto do umbigo. Mas tudo bem, não podia culpá-la, e nem deveria. Muita gente achava o mesmo, desmereciam minha caneta, meu papel, enquanto, e veja só se não lhe ocorre ou ocorreu o mesmo, enalteciam suas armas, suas pás, seus garfos, seus celulares, suas fraldas, pois, me perdoe, mas o que ocorre com um bebezinho que sai sem sua fraldinha?  Dá merda, não é mesmo? Então, bonitão, ou bonitona, vê se não esquece a sua. Ou então toque um F (ou F#, quem toca sabe), jogue essa (híííí, vou repetir, pode?) merda no lixo, igual joguei a embalagem que guardava meus amigos. Quatro e vinte da manhã, sem água na geladeira.

Me restava a caixinha. Não! Eu havia prometido que não, alertou-me a mandona, conhece? Não? Uma menininha chata, que andou fugindo ultimamente, a senhorita Memória. Livre, leve e solta, espevitada, eu diria, quando está acompanhada pelo Dr. Whisky, que Deus o tenha. Como pôde prever, pelo estado que aparentava, estavam os dois de mãos dadas, fugindo, cada um ao seu jeito. Seres irritantes! Não tendo o meu coração nada para oferecer, se apropriam do próprio, sem dó, mas pra que isso? Dó! Era, em minha referente posição, digno de pena?  Digno de notas musicais? E eu lá sabia? A! Mais uma, mais outra e iria compor a obra da minha vida, destinada, é claro, ao submundo do melancólico, da solidão. E, ainda sem sol (G!), eram quase quatro da manhã.

Um café na padaria, pensei. Cinco da manhã naquele momento. Sem duvidar das minhas capacidades de dar uma ré, mesmo com medo de gastar mais uma nota, pois já havia me envolvido num outro acidente na mesma semana, fui até a garagem. Saiu-se tudo bem, o som estava muito bom, muito mesmo, motor trabalhando regular. Mais uma brisa fina entrava, dessa vez por outra janela, a do carro, e o cheiro de um pedestre me fez lembrar da caixinha. Esquece! A caixinha, ela, tudo. Seis e meia, havia chegado.

— Ei Carlos, mi dê o troco do cliente — disse a garçonete.

Mas não poderia ser! Estaria ela em sintonia comigo? Ouvindo minha música? Poderia saber do meu funeral por causas naturais sem que eu lhe dissesse uma palavra? Ah, olhe pra si mesmo, seu doente, disse uma voz vindo da rua. Um bêbado conversava com um vira-lata. E então todos estavam sabendo? Todos estavam escutando? Só faltava uma! E o maldito cachaceiro revolveu tudo antes que eu pudesse por açúcar no meu café.

Era para ser eu! Eu era o cara do charuto! Eu fazia as ligações, montava os mosaicos! Eu sou a inspiração do Jorge! Não precisava dela, não precisava da caixinha, nem da garçonete, nem do bêbado! Podia fazer tudo, podíamos, sempre alertei ele. Sempre soube. Tudo isso poderia ser evitado.

Oito e meia.

Anúncios

2 comentários em “O cara com o charuto – Crônica (Higor Benízio)

  1. Fabio Baptista
    11 de setembro de 2015

    Fala, Higor!

    Gostei do seu texto, tem uma pegada intimista que é quase impossível não se identificar, ainda mais em tempos de insônia coletiva.

    Só por curiosidade: eu não sei muito bem a diferença entre conto e crônica. Já vi várias definições conflitantes sobre o assunto. Esse texto, por exemplo, eu não classificaria como crônica, mas como conto.

    Enfim, qualquer que seja a classificação, o texto está ótimo, parabéns!

    Abraço.

    • Higor Benízio
      11 de setembro de 2015

      Oi Fábio!

      Então, é meio sutil a diferença mesmo. As crônicas não costumam ter muita ficção, são mais como relatos cotidianos meio “poetizados”. No caso do meu texto, acho que é mais uma questão de ponto de vista, pode ser entendido como uma crônica ou um conto sobre um fato cotidiano, o que preferir, blz? Vou deixar um link de um vídeo bem bom sobre a diferença.
      No mais, obrigado por ter lido, fico feliz que tenha gostado.
      Obrigado também ao EntreContos pelo espaço!

      Abraço. Segue o link:

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 10 de setembro de 2015 por em Crônicas e marcado .