EntreContos

Detox Literário.

30 Minutos de Mergulho (Marcos Miasson)

30min

Dirigir até o ponto A. Coletar a carga. Dirigir até o ponto B. Entregar a carga. Retornar a central. Assinar uma via do relatório em todas as etapas anteriores. Por algum motivo esse roteiro não sai da minha cabeça enquanto o caminhão da transportadora se encarrega de me levar até o “Ponto A” – um cliente do outro lado da cidade. Levemente adormecido, sou despertado pela voz programada no painel do caminhão. Paro o som do Black Sabbath com um comando de voz, mas mantenho o veículo ligado – não deve demorar.

O caminhão estaciona em frente a um escritório comercial de uma única entrada, uma porta larga de madeira, solitária em uma imensa parede branca, sem nenhum outro detalhe além de uma campainha da qual aperto sem remorsos. Mesmo sem escutar som algum, ao tirar o dedo da tecla, a porta se abre.

– Boa noite! Transportadora? – Um senhor inexpressivo me interroga antes que eu me apresente.

– Isso mesmo, chefia! – Respondo amistosamente – Estava esperando atrás da porta? Após uma gargalhada espontânea, o ‘chefia’ de terno impecável abre espaço para que eu possa passar. Fico atento a todos os detalhes, caso seja necessário descrever o sujeito para a central. Para meu alívio, o escritório que adentramos parece não ser mais do que uma única sala estreita e comprida. Quanto menor a quantidade de portas, mais fácil fica o trabalho.

– Desculpe a solicitar seus serviços a essa hora, mas a transportadora me garantiu que durante a noite o percurso seria mais tranquilo. Essa carga é bastante sensível – ele diz, cauteloso – Agradeceria se programasse seu veículo para usar a velocidade reduzida.

– Não se preocupe, é minha única entrega hoje, chefe!

Todos os clientes dizem a mesma coisa, todas as cargas são sensíveis, importantes, urgentes, caras… Provavelmente eu dormirei o caminho inteiro. Caminhamos por um salão totalmente vazio, de iluminação ineficiente. Em determinado local, bem ao fundo, o senhor puxa uma lona empoeirada que cobria um grande volume.

– Essa é a carga, meu caro.

– Puta merda! – Tento reprimir o palavrão, mas a surpresa pelo tamanho da máquina é mais forte do que eu. Isso sempre acontece: ligam para a central pedindo um transporte para um lugar qualquer sem se preocupar com o esforço que a tal carga pode exigir para ser transportada. A central, que tenta a todo custo diminuir os custos e aumentar o lucro, não se dá ao trabalho de detalhar o pedido. Acabam enviando apenas um homem para realizar o trabalho de dois ou três. Tenho que arrumar um emprego decente.

– Tem idéia do que é isso? – O velho pergunta, talvez para me acordar, talvez apenas para quebrar o silêncio. Apesar de não saber como, respondo automaticamente – É uma espécie de tanque de isolamento? – no mesmo instante, me pergunto onde diabos vi um desses.

– É isto mesmo, filho. – ele me encara, ressabiado. – Já transportou um destes?

– Não… Devo ter visto em algum filme ou documentário. – desconverso, mas na verdade não tenho idéia do que seja a máquina. Lembro apenas seu nome. O homem retira um pequeno dispositivo do bolso, digita alguns comandos e rapidamente se volta para o tanque. Seus movimentos são de uma sincronia quase mecânica.

– Espero que as rodinhas amenizem o trabalho de carregá-lo. – o velho reforça – Você deve tomar cuidado durante o percurso, o tanque está cheio.

– Cheio?

– Ele é operado com um líquido especial, que não pudemos preparar fora daqui. Como ele é totalmente selado, não vi problemas em transportá-lo cheio.

– Tudo bem… – mais surpresas. Isso deve pesar uma tonelada! Faço uma anotação mental: nunca mais trabalhar com entregas, nem mesmo de pizzas – Se soubesse que era algo tão pesado, teria vindo acompanhado. Na próxima vez, não deixe de informar isso para a central.

Estudo um pouco o tanque. É praticamente uma caixa d’água retangular em aço escovado, mais ou menos do tamanho de um carro sedam. No que julgo ser a parte da frente, existe uma pequena portinhola que lembra uma escotilha. Um pouco mais acima, encontro uma janela de observação com aproximadamente uns dois palmos de largura. Arrisco uma espiada através do vidro totalmente escuro…

– Não tente abrir ou manusear os controles, filho. Você pode desativá-lo por engano – Surpreso, disfarço a curiosidade enquanto direciono o tanque para a caminhonete. Deus salve as rodinhas.

Despeço-me do senhor engravatado e, ao voltar para o volante, continuo me perguntando onde já vi uma máquina daquelas. Aparelhos parecidos, de aparência muito mais moderna me vêm à mente. São inteiramente brancos e arredondados, em formato oval. Este que carrego aparenta ser muito mais arcaico, quase que feito a mão.

Pronuncio ao volante as coordenadas do destino de entrega. Aconchego-me no banco do motorista e espero o caminhão se movimentar enquanto praguejo contra a rotina monótona que me aguarda. Esse trabalho deveria ser menos tedioso quando os veículos eram guiados manualmente. Tento me lembrar de quando entrei na transportadora. Ainda existiam veículos assim? Não consigo lembrar bem. Não recordo quando isso ocorreu, só tenho em mente que foi a muito tempo. Forço os pensamentos à procura do meu primeiro dia de trabalho. Lembro apenas de uma recepcionista me entregando papéis. Um supervisor me indicando um corredor. Um café. Jornais espalhados em várias mesas. Não faz sentido, a décadas não existem mais jornais impressos. O caminhão passa pelas ruas estreitas de um bairro residencial deserto. Atravessa um longo trecho de um centro comercial cheio de prédios altos, porém sem nenhum dos habituais letreiros luminosos de propaganda.

Paro em um semáforo, e uma garota de gorro vermelho atravessa. O semáforo abre, o caminhão arranca – em velocidade reduzida, para deixar bem claro – e se encaminha novamente para mais um bairro residencial. O sono começa a vencer nossa briga particular, e os olhos já não se mantêm abertos. O painel no volante informa que restam aproximadamente trinta minutos para chegar ao destino. Percebo que estou naquele tipo de sono em que é possível confundir sonhos com realidade, ao mesmo tempo em que ficamos alheios a tudo que acontece ao redor. Sinto os desníveis no asfalto, acompanhando o ritmo da música na cabine. Sonho com padrões de som enquanto mergulho, em um estado de transe que me faz até sentir os cabelos molhados. Acordo com o caminhão parado em mais um semáforo. Abro os olhos em alerta, e novamente uma garota atravessa, parecendo usar um gorro vermelho.

– Moda outono/inverno de gorros vermelhos – penso – O que será que prepararam para os homens desta vez?

O caminhão atravessa outro um bairro residencial, mais um centro comercial e para novamente em um semáforo. Lá está a garota do gorro vermelho, novamente. Verifico os controles. O painel exibe apenas o tempo restante de viagem – os mesmos trinta minutos.

– Não é possível – Paro o caminhão e desço. Por algum motivo o painel do volante não exibe o mesmo bairro de antes no mapa. Olho em volta nas ruas, mas não encontro placa alguma que indique minha localização. Pouco atrás do caminhão parado, o sinal fecha e novamente uma moça de gorro vermelho atravessa. É a única pessoa que vejo andando no centro comercial, não tenho escolha. Saio do caminhão e ando alguns passos até a esquina.

– Hey, garota! Pode falar onde estamos? – tento não assustá-la, mas cabeludo e com a barba por fazer é uma tarefa difícil. A moça pára e me olha, mas não responde nada e volta a seguir seu caminho.

– Obrigado pela ajuda! – resmungo. Volto para a cabine, tento contato com a central, mas ninguém responde. Vasculho lembranças sobre o que fazer em uma situação dessas, mas não adianta – Hoje minha cabeça está vazia! – Na verdade, não me lembro de nenhuma outra entrega que tenha feito. Começo a ficar irritado, ou seria insegurança? Um sentimento de frio no estômago preenche meu pensamento. Começo a sentir uma leve tontura.

– A pressão de novo, droga! – Rebato o começo de uma possível crise de pânico insultando o pobre caminhão. Talvez eu tenha ferido seus sentimentos metálicos, pois ela não mais responde aos meus comandos.

Nesse momento sou surpreendido por um estampido na parte de trás do veículo. Desço rapidamente, esperando encontrar o motivo. Em vão. Dou a volta no caminhão e analiso todo o local ao meu redor. Não vejo ninguém. Ajoelho para olhar embaixo do veículo. Nada. Levanto muito rápido, o que me causa tonturas. Apoio as costas no caminhão e escuto, de sobressalto, uma nova pancada, ainda mais alta. O susto me derruba e por segundos fico estatelado de barriga pra cima no chão, esperando que o sujeito que está me assustando venha logo terminar o serviço. Como nada acontece, resolvo verificar se está tudo certo com o tanque de isolamento, que amarrei minutos antes – Talvez essa banheira tenha se soltado e caído – penso – Seria melhor ter sido roubado, não seria obrigado a pagar o prejuízo. Ao abrir o baú do caminhão, encontro o tanque intacto, porém o vidro da janela de observação emite uma forte luz azulada.

– Mas o que… – Temendo ter estragado algo, me aproximo do vidro para vasculhar seu interior. Dentro do tanque vejo algo que não faz o menor sentido: meu próprio corpo, nu, boiando em um líquido denso e transparente. Nesse momento tudo se confunde. Sinto o cabelo molhado, meu estômago gela ainda mais, não escuto som algum, com exceção do próprio coração em disparada.

– Puta merda! – Digo pela segunda vez naquela noite. E para meu espanto, ao mesmo tempo o ser lá dentro abre os olhos e balbucia as mesmas palavras. Sinto meu corpo emergir de um mergulho profundo, enquanto o ambiente ao meu redor se inunda de azul. Nesse momento, eu mesmo me encontro dentro do tanque.

Escuto o ruído metálico da escotilha se abrindo e ecoando por todos os lados. Inutilmente tento me debater, mas nenhum músculo sequer se mexe. Uma figura me puxa pelos ombros, e com a ajuda de outra, me coloca em uma maca, onde sou rapidamente coberto por um cobertor, apesar de não sentir frio. A figura se revela um senhor de aparência tranquila, vagamente familiar. Não demonstrava nenhum espanto.

– Muito bom! Ótimo mergulho, meu rapaz! – o ouço falar – Você aguentou até os trinta e um minutos dessa vez. Quatro a mais que a última tentativa.

– Provavelmente ele conseguiu se auto-questionar de novo – diz uma voz feminina – Ainda existem muitas variáveis a detalhar nesse roteiro. Estamos longe do plano mínimo de sessenta minutos.

– É por isso que o escolhemos – diz o senhor, enquanto coloca algum aparelho no meu braço – Anote aí que não estou de acordo com os modelos de repetição de cenários.

– Você já disse isso umas dez vezes…

O doutor, se é que posso chamá-lo de doutor, analisou o aparelho, franziu o cenho e finalmente notou meu olhar de pavor.

– Calma, garoto, calma… – diz enquanto fura meu braço com uma agulha – Avançamos demais, você ainda está muito agitado.

– Ele ainda não se lembra quem é. – ouço a mulher falar. Os dois me olharam em silêncio.

– Você vai se lembrar em algumas horas, não tenha pressa. Esse foi o terceiro mergulho dele, não? – A mulher assentiu – É melhor descansar e se recuperar. Que fique registrado: a idéia de simular seu emprego anterior foi excelente! Mas pelo seu estado, deve ser um trabalho extenuante, não? – Os dois riem como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo! – O que acha de algo mais leve para a próxima? Um entregador de pizza, talvez?

Só pude pensar uma coisa antes de apagar: Entregador, não!

Anúncios

94 comentários em “30 Minutos de Mergulho (Marcos Miasson)

  1. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 8/10

    → Criatividade: 8/10 – Um conto muito criativo! Não esperava esse desfecho.

    → Enredo: 8/10 – Gostei bastante da história, mas a cereja do bolo foi o final. Fiquei com desejo de maiores explicações!

    → Técnica: 9/10 – Está bem escrito e não pude encontrar erros.

    → Adequação ao tema: 10/10 – É ficção científica.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 4 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .