EntreContos

Detox Literário.

Sementes do Tempo (Evelyn Postali)

 

 

Costa da Irlanda, 1588.

 

Depois que os navios da armada espanhola passaram em Larne, naquele início de verão de 1588, a região não viveu sossegada por um bom tempo. As tentativas de invadir a Inglaterra pelo rei Felipe II deixara os irlandeses muito distantes de respirar uma paz permanente e fecunda. Muitos navios espanhóis naufragaram ao longo da costa.

Para Neil e Sean, o cuidado com as poucas ovelhas era que importava. Mesmo sendo a pesca o que contasse na economia, o pastoreio era o que sabiam fazer. Não eram pescadores, apesar de toda a extensão de terras para o leste inclinar-se para o mar e ser de lá que provinha o sustento dos habitantes.

— Neil! Neil! Aqui! Há um homem aqui.

Os dois aproximaram-se com cuidado.

— Por Deus…

Agachado, Neil virou o corpo para ver o rosto. Era jovem e tinha a cor trigueira dos mouros. De cabelos extremamente negros tinha os olhos castanhos entreabertos, vidrados e sem vida.

— Acho que é um dos viajantes do navio que partiu.

— Quem vai saber?

Sean mais afastado, medroso que era, não ousou chegar mais perto.

— Essas roupas não parecem ser de um soldado inglês.

— Tem razão.

Concordando com a cabeça, Sean apenas observava.

— Vamos chamar o reverendo, Neil. Ele conhece todo mundo. Se não houver alguém para reclamar o corpo, ele escolherá um lugar no adro da capela. Colocaremos uma lápide e nosso trabalho cristão estará concluído.

— Espera! Vamos puxá-lo para fora, Sean.

Relutante com o amigo, Sean aproximou-se e ajudou-o, puxando o corpo para fora da água. Não havia sangue aparente. Só depois que o retiraram, deitando-o no gramado, um fio delicado escorreu pela têmpora direita.

— Vamos ver se ele tem algo nos bolsos.

— Não mexa! É sacrilégio, Neil! Sabe o que dizem de quem rouba dos mortos.

— Não vamos roubar, imbecil. Vamos apenas verificar se ele tem algum documento que diga quem é.

— Não! Vamos chamar o reverendo Liam e deixar que ele faça isso.

Neil concordou. Não era nenhum pouco tolo. O vilarejo era pequeno e a fama destruía aquele que quisesse se interpor aos ensinamentos daquele presbítero tão mandão que tinham.

 

***

Espanha, 1648.

 

Eliza atravessou a cidade com dificuldade. Já tinha idade bastante para não locomover-se por grandes distâncias. As articulações não a ajudavam, tampouco a bengala. Os mais de setenta anos pesavam no seu caminhar. A cidade, contudo, parecia a mesma.

Lembrava-se de quando era jovem, de quando a cidade parecia ter encantos novos a cada dia, com suas janelas enfeitadas, peitoris floridos, e varais ao vento. Naquela juventude inesquecível, cruzava as ruas para encontrar-se com Santiago, aquele a quem prometera amar para sempre, como todos os amantes prometem. Aquele com o qual deveria ter se casado e construído uma família. O homem que lhe desassossegara o coração e lhe roubara todo o viço de mulher. Santiago, seu amor perdido no tempo.

As ruas passavam por ela devagar, em ondas iguais ao mar que levara o amor que lhe fora prometido.

Parou em frente ao portão da propriedade dos Villarreal. A casa imponente devolvia-lhe o olhar desconfiado. Depois de muitos anos, ali se encontrava novamente. Já não tinha a mesma cor brilhante de outrora. A decadência aparecia em suas portas e sacadas, nas venezianas de madeiras escuras e gastas.

Depois de vencer o limite do portão, a subida leve lhe fez querer agarrar a mão de sua dama de companhia. Não pelo cansaço, mas pela sensação, depois de uma vida, de estar vivendo novamente os encontros da mocidade.

— Ana!

— Estou aqui, senhora.

— Dê-me sua mão. Essa bengala não me ajuda em nada.

Eliza agarrou o braço da jovem senhora que até o momento a seguira de perto e moveu-se caminho acima, olhando para as poucas flores que sobreviviam ao descaso. Reparou nas castanheiras ao fundo, onde outrora havia um balanço e onde Santiago e ela trocavam olhares criminosos, tentando conter os ímpetos de entregarem-se completamente.

A escada de poucos degraus a fez parar uma segunda vez, mas a curiosidade e a insistência do padre Ambrósio lhe fez generosa o bastante para chegar até ali e querer saber o que, de tão importante, Eduardo tinha para lhe dizer.

— Na hora da morte, todos os arrependimentos nos puxam para baixo, Ana. Para o inferno. Acredite.

A mulher a olhou de forma constrangedora.

— Não se preocupe. Não vou dizer coisa alguma. Ainda não estou caduca. Vim para escutar o que ele tem a dizer. Além do mais, o padre Ambrósio deve estar aí.

Subiu a escada e bateu a aldrava de metal com força. Não demorou em abrirem.  O homem a recebeu com cerimônia, conduziu-a até o andar superior.

Na cama, escorado pelos travesseiros brancos de linho, coberto por lençóis de bordado inglês, estava Eduardo. Os cabelos grisalhos desalinhados, a calvície e as manchas na pele, denunciavam a idade e a doença. Sentado ao seu lado, carregando um terço de contas de madeira, estava o sacerdote. A luz que penetrava, deitava-se por sobre a cama e aliviava o peso do momento.

Eduardo ergueu a mão ao perceber sua chegada. Tinha no olhar um brilho estranho.

— Eliza…

O padre levantou-se e a recebeu. Puxou para perto da cama uma das cadeiras. Eliza sinalizou para Ana, que se retirou do quarto, permanecendo no corredor.

Sentada, ali, naquele silêncio, as lembranças de mais de cinquenta anos arrebentavam as barreiras do tempo.

 

***

Espanha, 1588.

 

A tarde avermelhada pelo poente mesclava as cores de seus corpos perto da beira-mar. Eliza e Santiagoamavam-se às escondidas. Longe dos olhares mais atrozes, das bocas venenosas, se embrenhavam pelas colinas, atravessando as cercas de pedra, até chegar próximo da pequena praia. Não era bom, mas era o que tinham. Eduardo não deixara qualquer possibilidade do romance acontecer com a aprovação das famílias. Para todos, o matrimônio com Eduardo seria a culminância de anos de planejamento.

— O que é isso?

— São sementes de castanheira, Santiago.

Ela as depositou na palma da mão do amado fechando-a com ternura. Segurou a mão por entre as suas e olhou-o nos olhos.

— Por que as está me dando?

— Quero que as guarde. E que as plante na última terra conquistada pela Armada, porque assim saberei que pensaste em mim.  Talvez possamos viajar um dia e estarmos lá, celebrando nosso amor.

Beijaram-se com paixão. Aquele encontro seria o último até a volta da armada e do grupo de nobres e militares que seguiria com ela para importantes decisões.

— Também quero que leve isso.

Eliza retirou do pescoço a pequena joia, um camafeu.

— Não! É seu! Dei a você. Não posso levá-lo comigo. Tem seu nome nele. Minha jura de amor.

Ela cobriu a boca de Santiago com os longos e finos dedos. Mulher determinada, Eliza não aceitava recusas. Tinha o poder de persuadi-lo apenas com o olhar. Seus desejos, por fim, sempre realizados.

— Não…

O olhar tão claro da amada o contagiava. Santiago mergulhava no azul esverdeado dos olhos de Eliza e sentia-se no paraíso. Resignado, concordava sempre. Era incapaz de fazer ou dizer qualquer coisa que fosse para deixar a moça que escolhera para sua esposa entristecida.

― Não o perca. Não se perca de mim, Santiago. Vai me devolvê-lo. É uma promessa que precisa fazer.

Como recusar aos pedidos de Eliza? Essa era a pergunta que ele se fazia toda a vez que concordava com as ideias de sua amada. Perguntava-se e não encontrava resposta alguma senão o amor que sentia por aquela mulher que, desde a infância, ganhara seu coração.

— Não me perderei. Prometo. E quando eu voltar, resolveremos essa situação de uma vez por todas. Seremos felizes. Aqui ou em outro lugar.

 

***

Espanha, 1648.

 

Eduardo fechou os olhos. A imagem do irmão o assombrava. Crescia dentro de seu peito a dor da urgência em falar o que era preciso ser falado. Santiago impregnava suas noites de insônia, madrugadas em claro, caminhando pelos corredores, remoendo a culpa pelas palavras odiosas e atos vis. A imagem do irmão gritava, clamando por justiça.

O sacerdote voltou a sentar-se na cadeira, ao lado da cama, perto da janela. O silêncio não perdurou.

— Eliza…

A voz de Eduardo arrastou o nome e seus olhos abriram-se se fixando nela. Eliza perdera a conta de quantas vezes amaldiçoara-o, de quantas vezes desejara sua morte. Amaldiçoara conhecê-lo. Amaldiçoara sua família. Vivera uma vida inteira tentando esquecê-lo. Eduardo era o fantasma de seus sonhos. Santiago, a imagem da felicidade que nunca alcançara.

— Fico feliz que tenha vindo.

— Deve ao padre Ambrósio minha presença.

Ele respirou algumas vezes. Ergueu a mão esquerda e o clérigo a segurou.

— Água…

O religioso seguiu para a cômoda, onde o jarro estava e encheu um dos copos de água. Levou-o até Eduardo. Ajudou-o a erguer-se. Serviu-o de água.

Ela apenas olhava para ele. De semblante sem qualquer emoção, aguardava pelas palavras que o padre dissera ser importantes. Esperava pacientemente para ouvir o que Eduardo tinha para dizer, talvez para, finalmente, morrer de uma vez.

— Sei que seu amor por Santiago era intenso, real e verdadeiro.

As palavras agitaram a alma de Eliza. Aquele homem havia lhe chamado ali para falar de uma dor insuportável e também de um amor infinito. Ousara chamá-la para mencionar o nome de seu amor eterno e perdido.

— Ele ainda é, Eduardo. Meu amor por Santiago ainda existe em mim.  E se foi por isso que me chamou, não há necessidade de preocupar-se. Posso ir embora, então.

— Não! Eliza… Não!

Uma crise de tosse, seguida de um vômito de sangue a fez sair do quarto enojada e sem pensar duas vezes. Enquanto Ana a escorava, no corredor, o religioso amparava Eduardo e limpava-o para que pudesse prosseguir naquilo que ele mesmo denominara como sua redenção.

 

***

Espanha, 1588.

 

Eduardo pisava enfurecido. Eliza o chamava enquanto corria um pouco mais atrás. Segurava seu vestido, tentando desvencilhar-se dos pequenos arbustos que seguravam as bordas do fino tecido. Santiago estava mais para trás ainda e gritava.

— Eduardo!

— Eduardo! Isso não tem graça! Para onde está indo? Espera!

Ele descia pela encosta verde enquanto os dois gritavam por seu nome. Logo chegaria até a planície onde a pequena vila de São José se elevava e o descampado terminava dando lugar às pequenas árvores. O mar estava do outro lado e o cheiro de sal parecia uma lembrança leve da posição do vilarejo.

— Eduardo!

— Afastem-se de mim.

— Precisa entender, irmão. Precisa entender!

Santiago o seguia de perto. Junto dele, Eliza seguia desesperada.

— Não há o que entender. Se Eliza está disposta a largar-me por você, que faça sem justificativas. Não há justificativas cabíveis aqui.

Como se pode mesmo justificar o amor? Como pretender justificar o que faz por amor? Quem haveria de arcar com as consequências? Eram jovens. Quem condenaria as paixões de juventude? O pecado da carne e as vontades da alma de dois enamorados que se descobriram tarde demais?

Enquanto descia quase sem fôlego, Eliza pensava em todo o turbilhão que se formara.

— Está sendo intransigente, Eduardo.

Eduardo continuava a descer. Estava mesmo disposto a voltar para casa. Depois de tudo, só carregava ódio pelo que vira. Santiago e Eliza olhavam-se estarrecidos. Precisavam apaziguar tudo. Era o mais sensato a fazer no pensamento de ambos.

— Não podemos evitar nosso amor. É grande e forte. Escute, irmão.

E nascera daquela maneira, um tanto torto. Dois irmãos. Dois amigos. E o caos se formando entre eles.

— Por favor, Eduardo. Precisas entender e tentar aceitar. Somos amigos desde muito e temos nossas famílias muito próximas. Não podemos destruir o que já é mais do que amizade.

— De um traidor, mentiroso e desleal, essas palavras parecem mesmo fazer sentido.

— Modere o tom, Eduardo.

Santiago, jovem e intrépido, não se deixava humilhar. Acostumara-se a rebater as palavras de Eduardo desde muito cedo. E aí, diante de Eliza e da verdade sobre o amor que existia entre eles, não deixaria o mais velho se impor.

— Moderar o tom, irmão? Para quê? Quem aqui ficará sabendo que fui traído por minha futura noiva e meu irmão mais novo, por quem tinha como melhor amigo e confidente?

— Nossa família não aceitará se não aceitares. Santiago e eu…

— E agora o quê, Eliza? Queres que eu os favoreça? Que lhes dê a minha benção?

Tinha na voz um tom cínico. Costumava ser arrogante, mas ali, a raiva e a humilhação de ter perdido sua bem-amada para o irmão faziam-no pior. Eduardo deixava toda a dureza de seu coração ferido escapulir por entre os dentes.

— Não podes negar a felicidade a nós!

A voz embargada de Eliza fez Santiago aproximar-se, segurando-a carinhosamente. Perto de Eduardo, apenas o olhar mortal e odioso se fazia perceber.

— Eu posso e vou!

— Tentes se colocar na minha pele, irmão. Partiremos amanhã. Sabe-se lá quando voltaremos para casa novamente. Precisamos nos entender.

— Não há entendimento, Santiago. Não haverá casamento. Nem meu. Nem teu.

— Não podes ser tão insensível. Não mandamos em nosso coração. Eliza e eu… Estamos apaixonados, Eduardo!

— Mas serão infelizes. Não têm o meu consentimento. Não têm o meu perdão. E não terão o de nossas famílias.

Eles o viram afastar-se cada vez mais rapidamente. Depois daquele dia, nada mais se discutiu. Foi guardado um silêncio assustador. Eliza e Santiago encontraram-se uma vez mais, no dia da partida da armada.

 

***

Espanha, 1648.

 

Eliza passou os olhos pelo corredor. A ruina chegara àquela casa muito antes daquele momento. Soubera da falência da família décadas antes. Eduardo mantivera-se a duras penas e conseguira resgatar algum bem, contudo, as dívidas o deixaram dono apenas daquela propriedade que mantinha com unhas e dentes.

Sustentava-se com o restante do dinheiro que arrecadara vendendo parte das joias da família. Joias que tantas vezes viu Leonora de Villarreal ostentar nas aparições públicas.

— Deixemos que ele repouse um pouco. Ele contará a história e, se houver alguma chama de caridade, tu o salvará em vida.

— A única chama que arde em mim, padre, é o amor que eu tinha pelo irmão de Eduardo.

O pároco, conformado com a resposta, conduziu-a para dentro novamente, acomodando-a na cadeira. Não vislumbrava um final de dia tranquilo. Nem para Eliza, nem para Eduardo.

— Tenho aqui, uma carta que deves ler depois que Eduardo lhe contar o que precisa. Essa carta é a resposta que ele obteve das terras irlandesas. Ele mesmo contará.

Puxou de dentro de suas vestes o envelope cujo carimbo Eliza não reconhecia. Recebeu-a receosa. Olhou-a com cuidado e teve o ímpeto de abri-la na mesma hora.

— Não, senhora… Eu vos peço.

Eliza obedeceu-o relutante, guardando-a entre suas mãos, por sobre seu vestido pesado. Viu Eduardo percorrer com os olhos o quarto. Parecia estar distante. Parecia estar sonhando. Ouviu-o balbuciar algo. Somente quando os olhos dele encontraram os seus ele parou.

— Estivemos em Larne com a armada.

Eliza sabia muito bem da história. A armada havia sido quase totalmente destruída ao longo da costa irlandesa naquele ano fatídico.  Muitos soldados morreram na empreitada. Eduardo sobrevivera e ao voltar, sozinho, contara-lhe uma história que lhe matara aos poucos, nos anos que seguiram.

A lembrança do encontro com Eduardo depois que o navio atracara seguro na costa espanhola no final do ano de 1588 fez os olhos sucumbirem às lágrimas.

— Teu amor foi em vão. Não durou uma noite em uma taberna qualquer do outro lado do oceano.

—Não é verdade o que dizes, Eduardo. Não acredito em ti!

—Acredites ou não. Não importa. Nada o trará de volta. Nem teu sorriso, nem teu olhar. Meu irmão encontrou por lá o que não tinha aqui, contigo. Contenta-te com a tua sorte. És uma mulher largada de dois.

— Por crueldade haverás de penar, Eduardo. Não descansarás também, porque o ódio te consome.

Estava ali, diante do homem que dissera que o grande amor de sua vida havia lhe abandonado na costa irlandesa.

Somente depois de um tempo, conseguira entender que aquela fora uma grande mentira. A armada não deixara soldado algum por lá, a não ser os que se afogaram nas águas escuras, derrubados pelas tempestades, ou perderam-se na ida à terra, na madrugada, para captar água potável e comida para voltarem.

— Santiago e eu…

— Seria de grande consideração para comigo se não se demorasse.

Eduardo alongou-se no olhar.

— Meu irmão não te abandonou. Ele te amava. Sempre amou.

— Isso eu já sabia. Foi para ouvir o óbvio que me chamaste, Eduardo?

Ergueu-se da cadeira apoiada na bengala.

— Não! Para confessar meu crime.

Eliza fugiu do olhar de Eduardo, voltando seu olhar para o padre. Eduardo fechou os olhos e arfou em busca de ar. O quarto tornou-se sufocante. Para cada um deles, por motivos diferentes. O religioso segurou ainda mais firme o crucifixo. Eduardo já se confessara com ele. Restava saber que reação teria Eliza ao saber de toda a história do moribundo.

 

***

Costa da Irlanda, 1588.

 

Cavaram fundo.

Enrolado num lençol, o desconhecido foi colocado dentro da cova.

Neil e Sean cobriram com terra sob o olhar cuidadoso do pastor.

— Precisamos colocar um nome, reverendo. Trouxe o formão e o martelo.

Sean apoiou-se na pá. Neil ainda ajeitava as pedras ao redor. Era preciso gravar na lápide.

— Acha que alguém virá reclamar seu corpo?

O pastor olhou para o medalhão. Abriu-o com cuidado. O nome da mulher estava lá, assim como uma promessa de amor eterno.

— Soldado Espanhol. Aquele que ama Eliza.

Neil e Sean entreolharam-se, mas uma ordem do reverendo era uma ordem a ser cumprida. Sean esculpiria na lápide as palavras.

O reverendo Liam segurou a Bíblia, e Sean e Neil esperavam silenciosos. Naquele dia de céu encoberto, cuja garoa molhava a terra deixando-a pesada, o corpo do desconhecido foi enterrado. Quando os dois pegureiros finalizaram a tarefa o reverendo orou.

— Cinzas as cinzas, pó ao pó. Nada vence a morte e o tempo senão o amor.

Sean olhou para Neil e o meio sorriso brotou de seus lábios. Neil o cutucou, olhando-o zangado, de testa franzida.

— Nada é mais forte, nada é invencível, senão o amor.

 

***

Espanha, 1648.

 

A morte pesava, no final. A alma de Eduardo estava presa a tudo o que vivera. Assim pensava Eliza. Acreditava que, quando fosse, seria rápido e indolor. Muito breve, assim como o tempo que vivera o amor comSantiago. Apesar de amá-lo ainda, a ausência a tornara menos crente de que o destino era complacente aos amantes.

— Precisa dizer o que tem para dizer, Eduardo. Não tenho o dia todo para ouvir-te.

Foi fria ao dizer tais palavras. Se Eduardo quisesse confessar algum crime que o fizesse logo. Não desejava ficar em sua companhia mais do que o necessário, mesmo tendo prometido ao padre.

— Naquele dia, em Larne…

Eduardo solicitou o apoio do padre estendendo sua mão num gesto repetitivo. Um pouco mais sentado, continuou a confessar o que era desconhecido por ela.

— Nós descemos para recolher o que encontrássemos. Precisávamos de água pura para a volta. Alguns navios já tinham se perdido no mar. Estávamos em desvantagem.

O cansaço arrastava a voz. Os pulmões não davam conta do esforço de manter-se atento ao que era urgente. O padre lhe segurou mais firme a mão, olhando para Eliza que permanecia quase sem respirar.

— Nós discutimos. Santiago e eu. Discutimos…

— O que tens para me dizer? Santiago está ainda em Larne? A história que me contaste 50 anos atrás é verdadeira?

— Ele está lá, Eliza. Enterrado lá. No átrio da capela.

Eliza simplesmente fechou os olhos e sentiu as forças irem embora. O calor tomou seu corpo e as pernas tremeram. Depois, um frio indescritível abraçou-a. A palidez de seu semblante fez o religioso correr para perto, apoiando-a.

— Quando a doença me atingiu, pedi para o padre Ambrósio viajar até lá, para tentar resgatar qualquer traço da história de meu irmão.

As lágrimas teimavam em brotar de seu olhar tão claro. Eliza remoía o desprezo total por ele. Era ainda mais difícil aceitar a existência de Eduardo.

— Você é mesmo um infeliz.

A voz trêmula e baixa soou amarga. O padre a conteve mais uma vez.

— Por favor, precisa escutar.

Eduardo respirava com dificuldade. Os meses acamado enfraqueceram-no e seu corpo, débil e doente, encontrava problemas em se manter capaz de cumprir sua pena e tentar resgatar algo de bom para redimir-se.

— Discutimos. Brigamos.

Eliza sentou-se.

— Nem ele, nem eu, tínhamos a intenção de perder. Não medi a força. A raiva me consumia.

O pároco permaneceu de pé.

— Eu matei meu irmão próximo a um vilarejo. Eu o deixei lá, sem vida.

Elisa estarreceu.

 

***

Costa da Irlanda, 1588.

 

Naquele dia, alguns soldados desembarcaram na quase inóspita região resgatando umas poucas ovelhas para a viagem de volta. Uma fuga quase desesperada  para a Espanha.

Santiago alcançou Eduardo antes que ele trilhasse a estrada de volta. O pequeno córrego serpenteava maior a uns bons metros dali para desembocar mais adiante no mar. As árvores fechavam o caminho e o barulho da água o distraiu.

— Não permitirei que atrapalhes a nossa felicidade.

— E fará o quê, Santiago? Já conversamos sobre isso antes de partirmos. Agora, estando num outro país, vens para querer discutir novamente o que já está decidido?

— Percebes que és egoísta em querer destruir a felicidade de Eliza, que jamais será tua?

O irmão o afrontava como sempre. Depois da traição, Eduardo não conseguira senão alimentar mais e mais a raiva. Talvez devesse esquecer e deixar que casassem e fossem felizes a sua maneira. Contudo, a raiva ainda movia suas entranhas. Sentia-se totalmente mergulhado dentro dela. Puxou o punhal da bainha e apontou-o para Santiago.

— Não haverá casamento, irmão.

A fúria incontrolável que viu dentro do olhar do mais velho fez Santiago parar. Não deixaria seu irmão vencê-lo, apesar de querer o que parecia impossível.

Eduardo moveu-se primeiro, atacando o mais novo. Seus golpes rápidos fizeram o irmão desequilibrar-se. Contudo, e para seu espanto, o mais novo envolveu-o numa sequência de golpes fazendo-o igualmente dar para trás. Seus pés foram parar dentro da água do riacho, fazendo-o escorregar e cair dentro dele.

O punhal saltou de sua mão e engolir alguma água lhe fez perder o raciocínio.

Santiago se pôs sobre ele, golpeando-o no rosto, segurando-o na água.

— Entenda de uma vez, Eduardo. Eu viverei o amor com Eliza.

Inconsequente, Santiago o empurrou para baixo da água duas ou três vezes.

— Santiago, não… Pare. O que está fazendo? Por favor…

Entre um gole e outro de água, tentava livrar-se com dificuldade dos empurrões do irmão até que o destino lhe estendera a própria mão. Conseguindo mover sua perna, batendo-a contra Santiago, desequilibrou-o. O choque fez o irmão cair para o lado e, por sorte ou azar, o fez bater a cabeça na pedra mais alta do rio. Vendo Santiago desacordado, com o rosto para dentro da água, Eduardo ergueu-se rápido.

Uma estranha sensação tomou conta dele. Um sentimento que arrepiou o corpo e turvou a visão. Uma fúria jamais sentida lhe fez completamente demoníaco. Rastejou para onde estava o irmão e não hesitou em forçar o corpo do outro mais para dentro da água.

Quando as mãos de Santiago levemente moveram-se com a intenção de salvar-se, tentando erguer-se da água, Eduardo forçou-o ainda mais para baio, deixando-o debater-se até não haver resistência. Até a morte abraçá-lo.

Depois que sentiu o corpo de Santiago mole, totalmente mergulhado no riacho, caiu para trás. No céu, um amontoado de nuvens cinzentas se aproximava.  O dia estava terminando e no seguinte, bem cedo, estaria partindo para encontrar-se com Eliza.

— Haverei de lhe dar a pior das desculpas. Planejarei a mais horrível das mentiras.

Enquanto erguia-se, falava com o corpo de Santiago, já sem vida.

— Contarei a ela a tua traição. Ela haverá de provar o gosto de minha vingança. Ela odiará o teu nome e, querendo esquecer-te, haverá de ficar para sempre te esperando.

 

***

Costa da Irlanda, 1648.

 

Viajar com o navio não representou grande esforço, nem pela distância, nem pelas acomodações rudimentares. O esforço que Eliza considerou insuportável foi conter a ansiedade que brotava ao ver o céu abarrotado de estrelas. Outrora, as mesmas estrelas, serviam de cenário para a ilusão de viver uma vida inteira ao lado de Santiago.

O mar não lhe trazia nada de bom. Mas assossegou-se da melhor maneira possível. Ana, sua acompanhante, e Bernardo, seu serviçal, acompanharam-na durante o tempo todo. Dias e noites até o navio atracar na costa de Larne.

Observou de cima do navio as colinas esverdeadas, a vegetação espalhada. A pequena comitiva religiosa que seguira junto desembarcou rapidamente. Padre Ambrósio providenciara sua ida em segurança.

— Estamos a esperar pela senhora.

Ana segurou-a pelo braço gentilmente. Bernardo segurava as malas próximas de um grande baú.

— Estou preparada, Ana.

Seguiu rampa abaixo, em direção do píer. Tudo estava preparado para a sua chegada. Eduardo tinha organizado tudo meses antes de morrer. Não negava os créditos a ele, mas não se sentia na obrigação de agradecer.

As pessoas que circulavam tinham a pele levemente avermelhada. Brancos e rosados. Observou os traços fisionômicos que lhe chamava à atenção. Estava longe da Espanha. Contudo, sentia-se mais perto de onde deveria estar. Santiago a estava aguardando. Eles estariam juntos finalmente.

— Deve ser a Sra. Eliza Benavides de La Fuente.

O homem, de aspecto rude, segurava o gorro com as duas mãos, falando um espanhol caprichado. Não ergueu os olhos até que Eliza não lhe cumprimentou, perguntando quem era.

— Sou Neil de Burg. Estou encarregado de levá-la até o reverendo Liam amanhã pela manhã.

 

***

Costa da Irlanda, 1648.

 

Neil não era mais o mesmo. A aldeia à qual pertenciam crescera. Porém, com a velhice, tudo ficara mais lento. O tempo passava devagar. O pastoreio já não tinha mais tanta importância. Seu amigo Sean morrera jovem.

Aproximando-se muito devagar, Neil observou o velho reverendo, que jamais saíra da vila. O religioso abraçara o lugar como seu. Conquistara fama de durão e o respeito de todos.

Sentando-se também no banco da pequena igreja, Neil descreveu para o sacerdote o que pôde com minúcia, narrando o encontro que tivera com Eliza.

— Foi isso que ela me contou, padre.

— Sinto saber disso. Nenhum amor deveria realmente morrer de forma tão trágica – o velho religioso ergueu-se da cadeira – Perguntaste sobre a joia?

— Sim, senhor. Ela a descreveu de forma espantosa. Sua memória é surpreendente.

— Reconheceste-a?

— Tal e qual. Ela veio junto comigo, perguntando-me da história. Insistiu. Está sentada na varanda da casa, esperando pelo senhor.

— Não a façamos esperar, então. Veio de muito distante. Atravessou o mar. E já estou velho demais para aguardar o término disso tudo. Que idade tu acreditas que ela tenha?

—Talvez um pouco menos do que a vossa, padre. Foi uma viagem difícil para ela, apesar de ter seus criados sempre ao redor.

— Está na hora, então… – Levantou-se, auxiliado pelo braço de Neil. – Vamos!

 

***

Eliza levantou-se da bancada ao perceber a aproximação dos dois homens. Ana levantou-se, acompanhando-a e Bernardo, apenas seguiu-a com o olhar.

— Senhora de La Fuente.

O sacerdote esboçou um leve sorriso antes mesmo de galgar os três únicos degraus da pequena construção onde vivia, um adendo da velha capela de São Patrício, em Carncastle.

Eliza cumprimentou-o gentilmente. Ele a convidou para sentar-se novamente. O sol da manhã batia tênue. A temperatura, apesar do clima úmido, não estava tão baixa.

— Sou Liam Doyle, o reverendo de São Patrício. Esperei muito tempo por esse encontro. Aguardei com paciência, muitas vezes penitenciando-me por perder a fé, mas confesso que depois da visita do padre Ambrósio, a ansiedade tomou conta. Espero que tenhas descansado. A vila não oferece muito, mas as pessoas são gentis.

— Fiz boa viagem. Um pouco longa para a idade.

O reverendo tomou as mãos de Eliza por entre as suas.

— Sei que tens pressa. Nossas histórias podem ficar para depois. Teremos tempo para contarmos todas elas.

Ele levantou-se e a conduziu para o átrio. Ordenou, num gesto, que Neil e os outros ficassem onde estavam.

— Siga comigo.

Eliza o seguiu, descansando o braço no braço oferecido pelo religioso.

— Porque o tempo desse amor não espera mais, Sra. Eliza.

O átrio da igreja, tão grande quanto o tamanho da capela se estendia num elevado. Nos fundos, uma fileira de árvores baixas, de folhas escuras, estendiam os braços ao redor. Naquela época do ano, era coberto de verde, fazendo os tons de cinza e negro das pedras das lápides balançarem no olhar. Os túmulos recebiam as pequenas flores nativas de forma silenciosa. A primavera era triste.

Em meio ao cemitério, por cima de um túmulo, uma frondosa castanheira tinha suas raízes enfiadas nele e erguia-se e desdobrava as ramas retorcidas fazendo a sombra incidir na lápide. Eliza parou diante da visão. Santiago. Soldado Espanhol. Aquele que ama Eliza. 1565 – 1588. As sementes que dera a seu amado haviam crescido naquele lugar.

— O nome e a data foram colocados recentemente. O irmão, Eduardo, esteve aqui.

O reverendo puxou de dentro do bolso do casaco de lã negra a corrente com o medalhão e depositou-a por sobre as palmas das mãos de Eliza que ainda olhava perplexa para a árvore.

— Isso foi encontrado com ele. Mostrei-lhe o camafeu, mas não quis levá-lo. Disse-me que a senhora viria.

Eliza apertou a joia por entre as mãos.

— Durante muito tempo me perguntei que destino haveria para a joia. Agora sei que essa é uma história de amor verdadeira.

As memórias do amor que fora prometido a ela, intenso e verdadeiro, retornaram vívidas. Eliza viu Santiago, ali, exatamente como na última vez, sorrindo e pronunciando as últimas palavras com nitidez. Prometendo não perder-se. Prometendo voltar para ela. O amor de sua juventude, ali, diante dela, jurando amá-la para sempre.

À sombra da castanheira o corpo de Eliza também descansaria, vencido pelo tempo e pela morte, com a certeza do amor que não se perdera. Ao lado de Santiago, Eliza encontraria, finalmente o seu lugar.

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2 comentários em “Sementes do Tempo (Evelyn Postali)

  1. Agnaldo Souza
    26 de agosto de 2015

    Que conto bonito! Não sei porque, mas me lembrou do filme “Em Algum lugar do Passado”. Prendeu minha atenção desde o início da leitura, de modo que não parei até chegar ao final. O amor romântico que gera músicas e poemas é o amor não realizado. Que amor triste que foi interrompido pelo tempo Parabéns.

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Publicado às 21 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .