EntreContos

Literatura que desafia.

Enigma (Victor O. de Faria)

conto_enigma

Ebulição! Galáxias inteiras se formaram com apenas um movimento. O grande poder desprendido criava espirais dançantes, que desapareciam em questão de segundos, desequilibrando o espaço e o tempo. No meio da ação, de forma silenciosa e sistematicamente calculada, houve uma reação…

Quando a colher do café de Sloth atingiu a testa de Vain, o ambiente outrora silencioso da estação orbital mudou completamente.

— Mas que…

— Estou no meu intervalo. O sistema captou uma perturbação aqui perto.

— Perturbação é o que você acabou de fazer.

Virou-se, resmungando em línguas desconhecidas. Aquele não era um fato comum, apesar do desleixo de seu colega. Verificou as informações. Teve de abrir e fechar os olhos várias vezes, até ter certeza.

— Veja isso!

— Hora do lanche, já disse!

Os alertas soaram. Sloth parou de criar galáxias em seu cappuccino. A gravidade artificial proporcionada pelo carrossel imitava perfeitamente as condições terrestres. Ao longe parecia uma biga romana, sem cavalos, sem assento e sem freio. Ignorou os avisos.

— O que estava…

— Nuvem cósmica!

Suspirou, de forma lenta e profunda.

— Interessante – alcançou outra colher – só se foi arremessada por um buraco negro.

— Maus presságios, diriam os antigos.

— Acredita nisso?

— Não, mas como um homem religioso, acredito em Juízo Final.

— Certo. Há uma “Nuvem do Mal” vindo pra cá. Só que eu tenho mais o que fazer.

Escorou novamente os pés sobre o painel e experimentou o café. Horrível. Teve de esquentá-lo. Vain se dirigiu ao centro de comando, saindo de seu campo de visão. Olhou no espelho antes de sair. Um quadro negro cheio de pontinhos brancos ocupava todo o horizonte visível. Se o Sol e a Terra não estivessem próximos, jamais saberiam onde se encontravam.

Ao contrário do que a mídia insistia em divulgar, não aconteciam muitas coisas no espaço – a maioria dos eventos astronômicos demoravam meses, senão décadas, até atingirem o ápice. No entanto, desta vez, o quadro exibia uma grande mancha.

Apertou o sachê de frango enquanto observava, tranquilamente, vários pontos brancos se apagarem. O comunicador emitiu um bip. Demorou a atendê-lo, colocando no ouvido após limpar as mãos com lenços umedecidos, dedo por dedo.

— Sloth! Recebemos uma mensagem via ondas de rádio! Não sabemos se é hostil.

— Relatividade, Vain. Relatividade.

— O que?

— Se for mesmo hostil, ainda temos muito tempo, diria anos, até a chegada de qualquer coisa. Agradeça ao cara de língua de fora.

— Não está nem um pouco preocupado?

— Com a humanidade?

— Isso.

— Não. Temos questões mais importantes.

— Tipo?

— Qual é o lado correto de se colocar o rolo de papel higiênico? Virado pra cima ou pra baixo?

— Me pergunto quem autorizou sua subida…

— Sou especialista em códigos. Se o E.T. lhe passar o telefone, aí você fala comigo. Enquanto isso, as palavras cruzadas me esperam.

— Foi por isso que o contatei. Aí está seu telefone.

Desligou. A mensagem cifrada preencheu a tela até o canto inferior, onde havia resíduos de pasta de amendoim. Foi obrigado a limpar, tarefa enfadonha.  O comprimento de ondas transmitido parecia incrivelmente semelhante ao da estação. De alguma forma a “nuvem“ tentava se comunicar utilizando aquele padrão específico, demonstrando um nível avançado de inteligência.

— Matemática realmente é uma língua universal, mas um porre. – murmurou.

Olhou por um tempo o cursor que piscava à sua frente.

[4-5-9-24-5-13-13-5-5-13-16-1-26-5-6-1-18-5-9-15-13-5-19-13-15]

Números? Letras? Não resistiu. Cochilou.

Vain voltou ao compartimento apenas para avisá-lo, pessoalmente, que fariam turnos de observação. Ele seria o próximo. Ajeitou o penteado.

— Então, o que diz a mensagem alienígena?

— Não sei. Não decifrei ainda.

— Deus do céu! Você entende que uma nuvem feita de poeira estelar nos devolveu ondas de rádio? Consegue conceber a ideia, nessa sua cabeça vazia, que esse pode ser o primeiro contato com outra civilização? Vai alterar profundamente nossas crenças.

— Grande coisa.

— Grande… Coisa? Olha, desisto! Essa entidade vem pra cá e espero, sinceramente, que saiba a quem pedir ajuda.

— Google?

Balançou a cabeça. Sloth esticou o braço e alcançou o cubo mágico – aquilo sim era interessante, uma relíquia dos anos oitenta. Não se importou quando as luzes de emergência entraram em ação, deixando todos os compartimentos na penumbra, parcialmente iluminados por uma luz vermelha, fantasmagórica.

Lá fora, uma chuva de micrometeoritos aproximava-se mais rápido que a velocidade da luz e revelava sua verdadeira face, aos poucos. Ignorava por completo as leis da física. A humanidade parecia pequena diante do abismo do desconhecido.

As estrelas ao redor deixaram de brilhar, estendendo um tapete sem luz em reverência à força que as sobrepujava. A estrutura passou a tremer. A comunicação foi cortada, mas qualquer aviso seria desnecessário.

Quem olhasse o céu estaria vendo uma enorme massa transparente atravessando a região lunar, seguida por incontáveis detritos espaciais e uma cauda de gelo disforme – o cometa dos maus presságios. Era quase impossível distinguir os tentáculos em meio à luz tênue que seu corpo emitia. Sua sombra cobria cidades inteiras.

A visão não durou mais que trinta minutos.

— Em toda minha existência… Viu só? Sloth?

— Oi?

— Você estava… Dormindo? Enquanto, enquanto…

— Ah, a Nuvem do Mal já passou?

— A humanidade está perdida mesmo. Trinta minutos! Trinta!

— Não sei por que a preocupação. A mensagem não trazia nada de hostil.

— Como sabe?

— Palpite. Depois vejo isso.

Bocejou.

— Você… Podia ter matado a todos nós.

— Existiam cinquenta por cento de chances de isso acontecer. Fiquei pensando em qual seria a melhor saída, mas foi muito cansativo. Então… Deixei pra lá.

— Seu…

De fato, o primeiro (e rápido) encontro foi registrado por vários canais de comunicação, incluindo satélites geoestacionários. A mídia terrestre enlouqueceu nas semanas seguintes. Em sua velocidade atual, atingiria Júpiter em poucos dias. Estaria voltando para casa?

Com tantos dados reunidos, a mensagem foi ignorada, permanecendo assim até que Sloth resolvesse voltar ao assunto – o que nunca aconteceu. Afinal, pouco tempo depois, recebeu a ordem de dispensa (dizem que sua única reação foi: “Posso ficar com o cubo mágico?”).

Algum dia, uma mente não tão indolente acessaria os arquivos e compreenderia que, na verdade, ele salvara o mundo.

A resposta estava na mensagem, o tempo todo.

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52 comentários em “Enigma (Victor O. de Faria)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    24 de fevereiro de 2015

    Então. Meu objetivo realmente era ver quem teria “preguiça” de desvendar o enigma, mesmo sendo fácil de forma proposital (o próprio parágrafo seguinte sugere “Números? Letras?”). Confesso que meu conto girou em torno dele e sim, poderia ser mais profundo. Mas com o limite de palavras foi impossível.

    Agradeço todas as críticas e sugestões, que serão bem aplicadas, com certeza. E, respondendo à alguns comentários, sempre gostei de escrita leve e temas complexos utilizados de forma simples (o único conto em que utilizei palavras rebuscadas, ‘Ópera Espacial’ do desafio passado, muitos não gostaram justamente pelas palavras complexas), ou seja, vai entender…

    Desvendando o enigma e deixando a preguiça de lado, você entende melhor o final do texto, onde muitos acertaram a mensagem cifrada “Deixem-me em paz e farei o mesmo” (também menciono no conto que foi utilizada a mesma frequência terrestre, por isso a “humanização”). Adendo: Sloth e Vain são respectivamente Preguiça e Vaidade em inglês. E o pseudônimo Sid, bem, quem nunca assistiu a Era do Gelo?

    Finalizando, foi bem complicado aplicar o tema aqui e sinto que não atingi completamente o objetivo. Agradeço as leituras e paciência!

    • Virginia Ossovski
      24 de fevereiro de 2015

      Ainda não acredito que não consegui decifrar a mensagem kkk mas tudo bem, agora tudo faz sentido. Mesmo assim gostei muito do conto, foi minha escolha para 1º lugar, boa sorte !

      • Brian Oliveira Lancaster
        24 de fevereiro de 2015

        Agradeço o incentivo, mas há textos MUITO melhores que o meu nesse desafio. Vai do gosto pessoal também.

      • Brian Oliveira Lancaster
        24 de fevereiro de 2015

        Agradeço o incentivo, mas há textos MUITO melhores que o meu nesse desafio. Vai doe gosto pessoal também.

  2. wilson barros
    23 de fevereiro de 2015

    O único conto de ficção científica do encontro trouxe, além disso, uma frase enigma, em que substituindo-se os números pelas letras correspondentes no alfabeto obtemos “Deixem-me em paz e farei o mesmo”. Muito interessante; esse recurso é sempre apreciado pelos leitores de contos fantásticos ou policiais. Os diálogos são bem trabalhados, em um estilo dinâmico. Você deve conhecer “O Escaravelho de Ouro” de Poe e os bonequinhos dançantes de Sherlock Holmes. Por falar nisso, o gênero policial é inexplorado em um país do tamanho do Brasil. Talvez aí esteja seu nicho. Boa sorte, parabéns pela idéia.

  3. Sidney Muniz
    23 de fevereiro de 2015

    Um bom conto.

    A escrita é boa, a narrativa também é interessante, mas peca um pouco por ser objetivo demais e acabar deixando a quem em relação a emoção. Sim, achei o texto um pouco frio demais.

    Fora isso, é um conto interessante, mesmo que o enredo seja um tanto quanto previsível.

    A gente (ao menos eu) adivinhei o que estava escrito na mensagem, sem ao antes mesmo de substituir as letras, também achei a correlação de letras X números ficou muito humanizada. A relação poderia fugir a obvia para ficar melhor.

    Trama(1-10)=7,5
    Narrativa(1-10)=7,5
    Personagens(1-10)=8,0
    Técnica (1-10)=8,5
    Inovação e ou forma de abordagem do tema (1-5)=5
    Título (1-5)=5

    Parabéns e boa sorte!

  4. Jowilton Amaral da Costa
    22 de fevereiro de 2015

    E a preguiça salvou o mundo. Está bem escrito e tem boas sacadas, mas, não me impressionou muito e não entendi direito o que era a tal “nuvem do mal”. Boa sorte.

  5. Edivana
    22 de fevereiro de 2015

    Bendita seja a preguiça! Muito legal o conto, ficamos esperando por alguma reação da personagem, e então, sua atitude despreocupada é a chave para a salvação da humanidade. Redenção desse pecado, certo? Bom.

  6. Alexandre Leite
    21 de fevereiro de 2015

    Texto com ritmo bem marcado que segue um roteiro bem definido até o final que deseja surpreender.

  7. Leandro B.
    21 de fevereiro de 2015

    Oi, sid.
    Rapaz, achei o conto bastante divertido, consegui rir em alguns trechos, especialmente nos diálogos, o que é meio raro quando leio.

    Mas penso que o tema ficou um pouco (bastante) apagado. Quer dizer, deu pra entender que Sloth era preguiçoso (não é isso?), mas ainda assim o tema pecado parece bastante pálido. Na verdade, ele me pareceu mais apático do que qualquer outra coisa.

    Talvez eu pensasse diferente se compreendesse a reviravolta do final, mas devo vergonhosamente admitir que não entendi =x

    De todo modo, foi bacana. Valeu a viagem!

  8. Swylmar Ferreira
    20 de fevereiro de 2015

    O texto é bem escrito, gramática e concordância ok. Confesso que ao terminar a segunda leitura o conto me parece um enigma. Sinceramente não sei se atende ao tema proposto (talvez seja falta de entendimento de minha parte). Não consegui entender a conclusão.
    Um texto não pode apenas ser bem escrito precisa ter conteúdo inteligível ao leitor.
    Boa sorte.

  9. Lucas Almeida
    20 de fevereiro de 2015

    Não gostei da trama, achei o caso raso e os personagens não me cativaram, na verdade me incomodaram muito, porque não vi um propósito neles.
    Além disso, fiquei curioso pelo que o tal “enigma” dizia para que o preguiçoso acabasse sendo “um herói” no final.
    Boa sorte.

  10. Leonardo Jardim
    20 de fevereiro de 2015

    Prezado autor, optei por dividir minha avaliação nos seguintes critérios:

    ≋ Trama: (3/5) sempre tem um conto espacial no EC. Gosto do tema e gostei desse.

    ✍ Técnica: (3/5) boa, passa o que deseja e com fluidez. Gostei da brincadeira do enigma.

    ➵ Tema: (2/2) a preguiça salvou a humanidade (✓) 😀

    ☀ Criatividade: (3/3) muito criativo.

    ☯ Emoção/Impacto: (3/5) gostei de “desvendar” o enigma (mesmo sendo um bem simples…). A história toda é simples, mas bem divertida.

    Único problema encontrado:
    ● mas um porre. – murmurou. (ponto sobrando)

    Resolução do “enigma”:
    ● [4-5-9-24-5-13-13-5-5-13-16-1-26-5-6-1-18-5-9-15-13-5-19-13-15] = Deixem-me em paz e farei o mesmo

    Obs.: Ficou fora de minha lista pelos critérios de desempate, no caso logo no primeiro: “emoção/impacto”.

    • Brian Oliveira Lancaster
      24 de fevereiro de 2015

      Pois é, a emoção meio que ficou de lado. Complicado com este tamanho de palavras. Ou foi a preguiça mesmo…

  11. Bia Machado
    20 de fevereiro de 2015

    Texto interessante, que me prendeu pela “leveza” que senti na construção, mas que com relação ao enredo não chamou muito a atenção, não. E olha que até curto textos no estilo, mas acho que não estou em um dia bom para ler contos do tipo. Notei algumas coisinhas que passaram pela digitação, nada que uma revisão não dê conta. Gostei do texto, no geral.

  12. Pedro Luna
    20 de fevereiro de 2015

    Curti pra caramba e fiquei fã do astronauta mais desleixado da história. É tipo um Big Lebowski espacial. Massa.

  13. alexandre cthulhu
    19 de fevereiro de 2015

    pontos fortes:
    Uma boa narrativa com uma eloquência satisfatória
    Pontos a melhorar:
    não entendi o enquadramento deste texto com o tema do desafio “pecados”.
    Boa sorte

  14. Rodrigues
    18 de fevereiro de 2015

    Meu comentário foi comido? Bom, repetindo o que lembro. O que mais gostei no conto foi do personagem principal, sua preguiça quase matando a todos enquanto ele simplesmente faz piadas e manuseia um cubo mágico. Interessante o conto não estar em nenhum contexto, o que causa uma sensação boa de dois seres vagando num espaço sem sentido. Bom conto!

  15. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    17 de fevereiro de 2015

    DEIXEM-ME EM PAZ E FAREI O MESMO. O pecado da soberba nem sempre dá certo, mas conheço uma pecaminosa moça que adoraria esse Sloth. Pena que ele não largaria o cubo mágico por isso; um pecado! Só acho que os dois últimos parágrafos não são necessários para um conto despretensioso e inteligente como esse.

  16. rsollberg
    17 de fevereiro de 2015

    Sempre soube que a preguiça um dia iria salvar a humanidade, rs.
    Bem, parte do conto ainda permanece um enigma para esse leitor azêmola.

    Os nomes dos personagens foram bem escolhidos Sloth e seu famigerado chocolate, e Vain que não consegue deixar seus cabelos despenteados nem na solidão do espaço.

    Os diálogos instigantes e bem humorados.
    Confesso que não decifrei a mensagem, nesse aspecto sou bem Sloth.

    Espero ansiosamente o final do certame para descobrir o teor desta mensagem tão importante.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  17. Maurem Kayna (@mauremk)
    17 de fevereiro de 2015

    Como alguém tão desinteressado (mais que preguiçoso) poderia ter se tornado especialista em códigos? Não convence. Talvez por minha falta de intimidade com o gênero ficção científica, tenha sido tão difícil formar imagens a partir do texto. Tudo me soou muito impreciso. E o final deixa uma puta curiosidade sobre porque, afinal, o fato de não responder a mensagem seria uma salvação.

    • Brian Oliveira Lancaster
      24 de fevereiro de 2015

      Conheço várias pessoas assim – alheios aos assuntos externos, mas gênios por dentro. O final faz parte do enigma, respondido por alguns colegas e em minha resposta oficial, lá em cima. Agradeço a leitura e os apontamentos!

  18. Gilson Raimundo
    16 de fevereiro de 2015

    Achei bacana, principalmente no fim quando o pecado se tornou a virtude que salvou a humanidade.

  19. Eduardo Selga
    15 de fevereiro de 2015

    Contos de ficção científica, cheios de naves espaciais e coisas assim costumam ser, como este, centrados na ação e nos diálogos, deixando um pouco de lado a construção de personagem, que normalmente são estruturados de maneira plana, ou seja, são personagens unidimensionais e pouco profundos.

    Ora, muito mais que a ação, o personagem é fundamental num bom conto. Ele não pode ser encarado apenas como peça de uma engrenagem, e sua existência se justificaria para ser o repositório da ação. Ele é mais do que isso: é preciso que ele tenha nuances, gradações, que a ação, ao passar por ele, encontre um ponto de tensão, não um servo fiel. Metaforicamente dizendo, a ação precisa recear o protagonista, ela precisa “saber” que ele pode mudá-la, exatamente por ter as contradições e vacilos humanos.

    Fiz esse preâmbulo para comentar a impressão que o protagonista me causou. Enquadrá-lo como personagem redondo não considero exato, mas também é pouco preciso considerá-lo plano. Ele se encontra entre um ponto e outro ou, tentando ser mais específico, é personagem plano que se encaminha para a esfericidade. É uma tipologia pouco comumente encontrada nos textos do Desafio Entrecontos, nos quais tem sido muito mais comum a presença dos extremos.

    A “planificação” dele está na preguiça com certo ar de irresponsabilidade divertida (para ele mesmo e para o leitor). É já quase um tipo na ficção de entretenimento, que encontra eco no cotidiano do real empírico, pois ele mostra um comportamento muito comum nessa geração contemporânea de eterna adolescência. Refiro-me ao “foda-se” o mundo, o importante sou eu e meu umbigo, nada é realmente sério na vida, transposto para o mundo ficcional. É um protagonista que mostra, de certa maneira, uma das características mais marcantes da sociedade atual, a presentificação, ou seja, a certeza de que as categorias “passado” e “futuro” não têm a menor importância. Apenas o presente é relevante, e na verdade nem tanto assim. Por isso o diálogo “— Não está nem um pouco preocupado?/ — Com a humanidade? / — Isso. / — Não. / Temos questões mais importantes”. Em nosso cotidiano é muito comum encontramos comportamentos similares, um louvor ao presente, à emoção do momento, alienando o indivíduo de sua história e da história de seu povo (o passado) bem como mostrando uma descrença no futuro, ou medo dele, sob um disfarce da alegria meio forçada do presente. Hoje, há uma espécie de obrigação de ser feliz, impulsionado pela mídia e reforçado pelas redes sociais (já repararam na quantidade de “kkkkkkk’s” usados nos “bate-papos” virtuais, numa felicidade contagiante, numa alegria absurda? Não há uma esquizofrenia paranóide?).

    Mas o personagem se encaminha à esfericidade, e isso é muito bom nele, no momento em que ele se comporta de modo niilista, ou seja, a sensação de que nada é realmente válido, nenhum sistema social, político ou econômico, estaríamos destinados à falta de sentido, não haveria Deus nem ideologias. Esse aspecto, não obstante sirva muito bem aos poderes políticos dominantes na medida em que faz o sujeito perder as esperanças num futuro igualitário entre os homens, possui uma dimensão filosófica importante e bastante pertinente na pós-modernidade. Está no questionamento da relevância de nossas atitudes o peso do personagem, principalmente quando contraposto ao outro personagem, muito mais “caxias” e centrado. Aliás, se o comportamento do protagonista é pós-moderno, o do outro personagem é moderno. A modernidade acredita em grandes narrativas, conhecimentos essenciais, na relação causa e efeito, ao passo que a pós quebra tudo isso e abre espaço, na narrativa, ao personagem fragmentado, ao enredo “ilógico”.

    • Brian Oliveira Lancaster
      24 de fevereiro de 2015

      Nossa, você viu tudo isso em meu “micro” conto? Agradeço o investimento de seu tempo a fim de delinear essas características com a crítica embutida. Captei a mensagem! Obrigado.

  20. Ricardo Gnecco Falco
    15 de fevereiro de 2015

    Interessante a abordagem da Preguiça no contexto espacial. Criou-se um conto que ganha pontos no quesito inusitado. Porém, originalidade nem sempre (ou quase nunca), sozinha, consegue atingir a fórmula mágica que resulta em um “Adorei!” ao final da leitura. O conto é original, a sacação da abordagem foi muito bem trabalhada; está bem escrito (confesso que fiquei remoendo o “lenços umEdecidos” por um longo tempo… Nunca tinha parado para pensar na flexão da palavra que dá origem ao dito cujo) e, o que mais gostei, possui um final deliciosamente bem estruturado — regra PRINCIPAL para um bom trabalho no gênero (um bom final é tudo!).
    Mas… Sei lá… Faltou um pouquinho mais de sabor no recheio desse sanduíche estratosférico. Gosto puramente pessoal.
    Mas o/a escritor/a merece um belo parabéns!
    Boa sorte,
    Paz e Bem!

  21. Cácia Leal
    13 de fevereiro de 2015

    Para mim o final continua um enigma… o conto está bem escrito, é criativo, retrata bem a preguiça, e até aborda de maneira divertida o dito popular de que “o mundo é dos preguiçosos”… no entanto, esse tipo de história de universos e galáxias, não me atraem muito. Confesso que fiquei curiosa com a mensagem, qual seria?

  22. Virginia Ossovski
    12 de fevereiro de 2015

    Gostei do conto e adoraria ter entendido a mensagem. Adorei o início do conto e gostei mais ainda da força dos personagens, muito bem construídos em tão poucas linhas. Um dos meus favoritos, boa sorte !

  23. Thata Pereira
    12 de fevereiro de 2015

    Muito bem escrito, mas confesso que o gênero não me atrai. Desconfio quem escreveu… o tema do pecado, aqui, foi explorado de uma maneira bastante leve. Completamente diferente dos outros contos. O limite fez com que eu não me cansasse da leitura, como acontece quando leio contos desse gênero. Acabei gostando, até. Mas, vem cá, o que estava escrito na mensagem? Haja

    Boa sorte!

  24. Willians Marc
    11 de fevereiro de 2015

    Olá, autor(a). Primeiro, segue abaixo os meus critérios:

    Trama: Qualidade da narrativa em si.
    Ortografia/Revisão: Erros de português, falhas de digitação, etc.
    Técnica: Habilidade de escrita do autor(a), ou seja, capacidade de fazer bons diálogos, descrições, cenários, etc.
    Impacto: Efeito surpresa ao fim do texto.
    Inovação: Capacidade de sair do clichê e fazer algo novo.

    A Nota Geral será atribuída através da média dessas cinco notas.

    Segue abaixo as notas para o conto exposto:
    Trama: 7
    Ortografia/Revisão: 10
    Técnica: 7
    Impacto: 9
    Inovação: 9

    Minha opinião: Muito bom. Apesar de o autor(a) não usar grandes frases ou construções, o conto é muito instigante e como não foi revelada a solução do enigma, brinquei de detetive e eu mesmo solucionei-o, haha.

    O tema preguiça, pouco aproveitado durante o desafio, foi usado de forma muito interessante, com toques de humor e sarcasmo, e de uma forma não ligada à religião(o que estou achando um ponto positivo nesse desafio), tanto que o pecado do protagonista fez com que a terra fosse salva.

    Não encontrei falhas de revisão.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  25. Claudia Roberta Angst
    11 de fevereiro de 2015

    Ai,ai, ai. Tenho uma preguiça com essa coisa de ficção científica. Desculpe-me pela minha indolência, mas fui contagiada pelo ritmo e postura do personagem. Não achei que o tema proposto tenha sido abordado com afinco. Deu uma preguiça, né?
    Gostei dos diálogos que sempre agilizam a leitura. Mas eu já falei da preguiça?
    Boa sorte!

  26. Rodrigo Forte
    11 de fevereiro de 2015

    Gostei bastante do conto. Bastante original e o fato de mostrar de maneira tão inteligente o pecado foi o que mais se destacou. Lembrou um conto que li certa vez que envolvia um tal Capitão Barbosa.

    Parabéns pelo texto e boa sorte!

  27. Gustavo Araujo
    10 de fevereiro de 2015

    A abordagem da preguiça — inclusive no nome do personagem — ficou bem sacada. Gostei dos diálogos, até mesmo porque me fizeram lembrar um pouco do nonsense de Spaceballs, rs E, para completar, um enigma que muita gente vai ter preguiça (ta-da!) de desvendar. Naturalmente, daria para fazer muito mais com um limite adequado, mas deve-se louvar o fato do autor ter conseguido inserir um pecado como este, de difícil abordagem, num conto espacial. Parabéns.

  28. Gustavo de Andrade
    10 de fevereiro de 2015

    Esse “— Mas que…” sempre me incomoda. Nunca deixa de me parecer uma intenção de tradução do “What the…” dos recorrentes “What the fuck” da cultura estadunidense.
    Ficou meio chato. Entramos de solavanco num mundo estranho, e não temos nenhuma dica para nos guiarmos através do universo apresentado. Umas piadinhas desnecessárias num conto tão curto, pois desperdiçam o espaço que poderia ser aproveitado para imergir mais quem lê no universo.

    Assim, o conto não apresentou nada muito chamativo, sendo o ato de “decifrar a mensagem” um tanto lugar-comum.

  29. Gustavo Aquino dos Reis
    9 de fevereiro de 2015

    Sci-fi puro. Muito bem escrito, diálogos impecáveis. Porém, sinceramente, não consegui relacionar o conto com o certame do desafio. Falha minha, talvez. Bora ler de novo…

  30. Anorkinda Neide
    9 de fevereiro de 2015

    Gostei bastante.
    Nunca pensei que viesse a surgir um conto pecaminoso no espaço e nem é sexo! uhuhuhuuu
    Gostei bastante deste preguiçoso, me identifiquei..srsrs
    e o fina aberto, dá agonia, mas é bom! 🙂
    Parabens pelo conto.

  31. Andre Luiz
    8 de fevereiro de 2015

    Olá, caro Sid!

    A)Gostei muito de sua narrativa futurística neste estilo que pode denunciar a autoria (kkk) e o início bombástico que achei muito legal. Além, a problemática abordada é extasiante e super mirabolante, lotado de descrições fantásticas que transmitem o leitor para junto dos personagens. Parabéns!

    B)Seu único erro foi o uso de palavras desconhecidas que prejudicaram um pouco a leitura, mas não deixaram de compor o cenário, então, não sei se poderia ter enquadrado isto como um erro. Mesmo assim, reitero meus parabéns! Sucesso!

  32. Luan do Nascimento Corrêa
    8 de fevereiro de 2015

    Muito criativa a ideia, gostei bastante! No entanto, mesmo sendo possível compreender a totalidade do conto, a escrita está bastante confusa, principalmente no começo do texto. Com certeza foi preciso muita criatividade para criar essa história e, para além do que apontei anteriormente, sua escrita é agradável.

  33. mariasantino1
    8 de fevereiro de 2015

    Oi. É o Brian? Acho que sim 😀

    Gostei sim do seu conto. O cara moroso é tanto preguiçoso quanto egoísta e sua narrativa é sempre instigante. Não achei que haveria algum texto de ficção científica por aqui, e confesso que preferia algum conto que envolvesse máquinas e amor (algo que sempre me cativa).
    Muito bom conto, só desejei mais ousadia.
    Abraço!

    • Brian Oliveira Lancaster
      24 de fevereiro de 2015

      Pois é. Não consigo largar o “doce”, é inevitável. Uma história como você sugeriu requeria mais profundidade, impossível com esse limite, mas cheguei a cogitar este estilo sim.

  34. Tiago Volpato
    8 de fevereiro de 2015

    Muito bom, você já domina essa arte.

  35. Thales Soares
    7 de fevereiro de 2015

    Gostei deste conto! Me prendeu bastante a atenção. Eu queria que, como vc, mais pessoas explorassem esses pecados “lado b” ao invés de ficar escrevendo só sobre a luxuria e a inveja. Só acho que a preguiça demonstrada pelo astronauta não precisava ser dessa forma tão escancarada, e poderia optar por algo mais sútil, com ele fingindo que esta fazendo trabalho e inventanfo desculpas esfarrapadas para escapar do serviço, para ficar mais condizente com a realidade. Do jeito que está, me pareceu muito forçado. Ele não chegaria a tão alto posto com essas atitudes. O conto está muitíssimo bem escrito e prazeroso de se ler. O autor soube aproveitar muito bem o limite de palavras. Parabéns.

  36. Mariana Gomes
    7 de fevereiro de 2015

    Sua historia é até curiosa, gosto dessas coisas de espaço e tals. Sua escrita é boa e convence, mas recomendo indicar que personagem está falando na hora dos diálogos, pois, como o leitor perceberá isso enquanto não tem afinidade com os personagens?
    Parabéns e boa sorte!

  37. Luis F. T.
    6 de fevereiro de 2015

    Ótimo! Excelente! E ainda teve a charadinha pra desvendar, ainda bem que era fácil, rs! Até então, dia 6/2, é sem dúvida um dos meus 3 contos favoritos!

  38. Pedro Coelho
    6 de fevereiro de 2015

    Que o texto é muito criativo não há duvidas, o autor viajou demais pautado em nessa criatividade. Mas o texto não ficou confuso, o que costuma acontecer quando um autor começa a viajar. Foi bem conduzido até o final e também terminou bem.Só as tentativas de humor que ficaram forçadas e não deram certo.Mas foi uma boa abordagem e contraditoriamente dinamica, da preguiça.

  39. rubemcabral
    6 de fevereiro de 2015

    Bom conto, bem criativo o uso do díficil pecado capital da preguiça. Só senti falta de algumas metáforas ou frases bem sacadas, para dar um pouco mais de cor ao texto.

    Spoiler pra quem não matou o enigma: são as letras do alfabeto (incluindo o K,Y e W, pois vai até 26). Substituindo: DEIXEMMEEMPAZEFAREIOMESMO.

  40. JC Lemos
    5 de fevereiro de 2015

    Sobre a técnica.
    Simples e limpa. Narrou bem e conseguiu criar a raiva pela preguiça. Que cara insuportável! Hahaha
    Gostei do enigma criado.
    Sobre o enredo.
    Foi uma história morna. Não foi ruim, mas não teve muitos momentos excepcionais. Gostei da forma como fugiu da luxúria. Primeira vez que alguém escreve sobre preguiça, e foi bem trabalhado dentro da proposta.

    Parabéns e boa sorte!

  41. Pétrya Bischoff
    5 de fevereiro de 2015

    Cara, eu amo esses contos macro… quando envolvem o cosmos e as coisas físicas e mentais. É uma narrativa despreocupada e informal muito gostosa de ler. A escrita também é acessível e as descrições são suficientes. Quando o texto terminou eu fiquei tipo: O.O Quero saber o que diziaaaaa! Daí, como sou um gênio mesmo, a primeira coisa que pensei foi a mais banal: A ordem alfabética :v hahahahha Gostei bastante. Parabéns e boa sorte.

  42. Sonia Rodrigues
    5 de fevereiro de 2015

    Bom português.
    Idéia interessante.
    Trama fraca. Os diálogos monossilábicos são pobres.
    Nuvem cósmica, cometa, mensagem cifrada, todos esses elementos são ricos e poderiam compor um conto atraente; pedem para ser mais explorados.
    Infelizmente acabei não entendendo a mensagem, sou péssima em matemática.
    Sugiro que escreva um conto mais longo para esclarecer o leitor.

  43. Fabio Baptista
    4 de fevereiro de 2015

    “deixem me em paz e farei o mesmo”… boa! kkkkkkk

    Um conto agradável, divertido em alguns momentos, mas infelizmente não muito mais que isso.

    Fiquei pensando até uma certa altura – qual diabos será o pecado aqui?

    Óbvio que a preguiça! Perfeitamente enquadrado no tema do desafio.

    Veredito: conto gostoso de ler.

  44. Alan Machado de Almeida
    4 de fevereiro de 2015

    Adorei a ficção científica meio Lost (me perguntei se os números são os da série), Guia do Mochileiro das Galáxias. Mas eu não vi correlação com o tema do desafio. Não percebi qual foi o pecado.

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Publicado às 4 de fevereiro de 2015 por em Pecados e marcado .