EntreContos

Detox Literário.

Autorretrato da loucura (Rafael Sollberg)

O grito

“Nós vivemos em um arco-íris de caos”

Paul Cézanne

Sozinho no mundo, despedaçado pelo fracasso. Mutilado pelo delírio recorrente, o homem de cabelos vermelhos encarou a tela branca jogada no canto do quarto. O lugar, inundado pela umidade fétida que corroía cada lasca de madeira solta, estava soterrado pelo negror reconfortante.

Comera pratos quentes de rejeição durante toda a sua jornada, portanto, o frio cortante não era uma variável insuportável. A quietude de seu comportamento habitual contrastava com o pandemônio de vozes que gritavam frases desconexas em sua cabeça genial. O silêncio “do lado de fora” era ideal, pois precisava escutar a obra – a agonia berrada das linhas contorcidas.

Quando jorrou suas primeiras impressões curvadas sobre a superfície alva imaculada, a porta do modesto cômodo rangeu. Do corredor sombreado surgiu a figura soturna de um sujeito de bigode elegante encimado por um generoso nariz adunco. Os olhos brilhantes carregavam a força primal de um estilo único e duro. O casulo era elegante, mas a borboleta era rústica e brutal.

Incrédulo, o pintor deteve-se por um momento ao encarar o intruso que ousava adentrar em seu santuário. Em seguida, espremeu a visão e contemplou com satisfação o indivíduo intrometido. Sorriu de boca fechada, deixando escapar pequenos suspiros de melancolia. A visita era oportuna, mas o quadro precisava ser terminado.

– Pensei que jamais fosse rever essa narina descomunal.

– E eu achei que você não pudesse ficar mais feio.

– Sempre fomos um punhado de equívocos.

– Mas nem sempre soubemos contorná-los.

Os dois homens se abraçaram como leões juvenis brincando na savana. Duas massas disformes preenchendo cada espaço vazio da solidão. Eram mercúrio e mercúrio em singela harmonia – a temperatura não oferecia riscos. Pelo menos naquela noite não haveria ebulição.  Entreolharam-se durante duradouros minutos, contemplando cada minúscula memória na íris fraterna.

O forasteiro fitou os borrões embrionários no quadrado sem moldura e posicionou-se exatamente atrás.  Olhou de forma melancólica para o velho amigo e relutou em dizer:

– Não deveria ter feito isso…

– Eu te segui com uma navalha!

– Seu maldito comedor de batatas, você não teria coragem de fazer alguma coisa? – Perguntou com indícios de retórica.

– Sempre tive, mas não existe coragem na covardia!

– De qualquer modo, não devia ter feito. Isso apenas reforçou sua horrenda assimetria.

O homem ruivo gargalhou ruidosamente e virou um trago de absinto verde na garganta avermelhada. Andou até o quadro quase descarnado e franziu o cenho. As feridas no peito começavam a doer.

– Rachel não soube apreciar o presente.

– Prostituas gostam de dinheiro e não de carne.

– Não de carne… – Repetiu consigo, sem deixar que os olhos escapassem para o horizonte.

– Nunca duvidei do seu altruísmo, mas doar um pedaço de si foi acima do tom, até mesmo pra você. – O visitante asseverou com uma ponta de reprovação.

– Não me venha falar de tons.

– Basta você diminuir os amarelos.

– Por que não sugeriu isso quando eu estava com a navalha na mão? – O sujeito que pintava disse, escancarando um sorriso sarcástico.

– Porque o pincel não tem lâmina e na minha veia não corre inesgotável tinta escarlate.

– Seu frouxo.

-Seu tenso!

O tipo de barba alaranjada soltou novamente uma retumbante risada e soluçou entre os suspiros cansados. O ar do quarto parecia se esgotar, assim como as parcas cores que iniciavam um estranho processo de retração. De canto de olho, viu a escuridão se fechar ao redor. Sentiu a atmosfera vital esvaziando vagarosamente até encontrar a tela desvirginada. O breve resto de vida que ainda não se findara. Sabia que não restavam mais tantos grãos, por essa razão, pintou mais rápido e mais forte, demonstrando o vigor dos últimos dias de abstinência.

– Não faça isso… –  Pediu o homem de nariz adunco, com certa tristeza na voz.

– Não tenho escolha.

– Não seja bobo, um homem que trocou pontilhados por pinceladas não pode falar isso.

– Um homem com uma arma na mão não pode falar em escolhas.

Dessa vez quem riu foi o amigo que permanecia em pé atrás da tela iniciada. Seu corpo estava atolado em breu, o nariz proeminente e o cano diminuto levemente revelados pela cor vivaz e generosa que escapava do quadro.

– Como certa vez disse para o seu irmão, você e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz.

– Eu me lembro. – O sujeito ruivo confirmou, sem tirar os olhos de sua obra. – “Incompatibilidade de temperamentos”, foi o que você disse.

– É, mas hoje vejo que é mais que isso. Somos iguais, dois lados de um mesmo girassol. Somos um só.

– Três orelhas e dois narigões. – Ele disse sorrindo.

– Muitos para apenas uma cadeira!

O pintor ajeitou a manga da camisa enquanto dava os últimos retoques ao famigerado traçado. Um homem distorcido sobre uma ponte – gritando de boca aberta. A voz ecoando da tela, a agonia em um volume ensurdecedor.

– Mas esse quadro não é seu! – O homem berrou com a arma empunho e o coração abaixado.

– Não é nosso! – o artista de cabelos cor de fogo devolveu para a felicidade do colega.

– Adeus Vincent!

– Adeus Gauguin…

Van Gogh recebeu a bala no peito de braços abertos. Esperou o golpe do mesmo jeito que esperara a afeição durante toda vida. Tombou como um ídolo, uma imagem de sua obra imortal. Olhou uma última vez para o amigo que não estava mais lá.  A eternidade durara trinta e sete anos…

– A tristeza durará para sempre. – Sibilou por entre os dentes antes de cair sobre o cavalete solidário que sustentava toda a verdade de sua vida.

http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_(pintura)#mediaviewer/Ficheiro:O_Grito.jpgn

O grito, Edvard Munch.

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7 comentários em “Autorretrato da loucura (Rafael Sollberg)

  1. Gustavo Araujo
    7 de abril de 2019

    Bueno, depois de quatro anos e tanto, eis-me aqui comentando este conto genial. Todo esse tempo, talvez, tenha sido propício, já que na época em que você o escreveu eu provavelmente não teria tido a bagagem necessária para apreciá-lo devidamente. Portanto, fico feliz em fazê-lo agora.

    O conto é uma clara homenagem à amizade tempestuosa entre Van Gogh e Gauguin. Apesar de imprecisa em termos biográficos, a cena descrita chama atenção por conta dos diálogos verossímeis. Vincent e Gauguin viviam às turras na Casa Amarela, discutindo sobre tudo, e normalmente discordando em todos os aspectos.

    Van Gogh, apesar disso, nutria uma admiração e uma devoção quase religiosa por Gauguin – que na verdade estava ali muito mais por interesses financeiros do que qualquer outra coisa. Tanto que não suportou a atmosfera e decidiu partir — fato que desaguou no episódio da orelha decepada. Claro, sabemos que Vincent foi internado logo depois disso e que só viria a morrer depois de quase dois anos, sem jamais ter visto Gauguin outra vez.

    Mas o legal é que o conto parece real, quer dizer, parece transcrever um fato verdadeiro. É como se Gauguin realmente tivesse atirado em Vincent, levando-o à morte, após uma discussão, após uma conversa de início amigável mas cheia de acusações de duplo sentido.

    O curioso é que, se pensarmos bem talvez a partida de Gauguin tenha realmente levado Vincent a morrer. Ao menos metaforicamente, já que o rompimento entre os dois foi o que precipitou a espiral de loucura que acabaria tragando de vez o homem ruivo para a insanidade em Saint Rémy e a morte em Auvers.

    Enfim, parabéns pelo conto. Antes tarde do que nunca, não é mesmo?

    • Rsollbeg
      8 de abril de 2019

      Obrigado pela geniosidade, Chefe!
      Antes tarde do que nunca é um bom lema, mas no meu caso ao escrever esse conto deveria ser antes Nunca do que tarde.
      Escrevi esse texto para um desafio de terror com o tema Arte/Sobrenatural do Recanto das Letras.
      De inicio então pensei em descrever os últimos momentos do artista, abrindo duas possibilidades aos leitores; uma alucinação de Van Gogh projetando Gauguin ou um visita real do amigo (escondida, é claro) em um ultimo ato extremado.
      Ocorre que nada tinha de terror ou sobrenatural. Assim sendo, optei por um desfecho “além da imaginação”, ainda não existia Black Mirror, trazendo um quadro do futuro do Munch para desespero de Gauguin que não se conformava com o plágio. Na realidade, revendo hoje, para meu desespero também.
      Creio que vou reaproveitar esse conto, em especial os diálogos, para dar um tratamento melhor aos grandes artistas. Quem sabe rende algo…

      Grande abraço!!

  2. Lucas Rezende
    13 de outubro de 2014

    Adorei a cena!!!
    A relação dos personagens é incrível, não sei explicar. Eles são tão amigos e não se suportam.
    Parabéns!!!

    • rsollberg
      13 de outubro de 2014

      É isso mesmo Lucas, os dois artistas tinham uma relação muito conflituosa.
      Obrigado pelo comentário.

  3. rsollberg
    11 de outubro de 2014

    Obrigado Anorkinda!

  4. Anorkinda Neide
    11 de outubro de 2014

    Achei este conto, este diálogo espetacular… não sei o que comentar, só quero registrar que li e amei. Assim como vemos um quadro, não tem palavras pra definir as sensações. Parabens pelo conto!

    • rsollberg
      11 de outubro de 2014

      Fico feliz que tenha gostado do diálogo.

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Informação

Publicado às 10 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .