EntreContos

Detox Literário.

Laurinha e Mario guiando no mundo imaginário (Rodrigues)

road

Descia a rua de skate junto de seu amigo Mario. Mas Mario não existia e Laurinha não conseguia vê-lo. Morria de vontade de tomar sorvete e comer todos os doces do mundo o tempo todo, mas não podia. Então queria ao menos ficar andando de carro com seu pai, de lá pra cá, de cá pra lá, mas não podia, também. Era noite de Natal. As tias chegavam perto dela e apertavam suas bochechas rosadas. Sentou no sofá e ficou sozinha assistindo um desses filmes especiais de fim de ano.

– Mama! Aonde você vai com o peru de Natal?

– Vou ali fora passar na cerveja, filha.

– Ecati! Que nojo!

– Nojo? Nada!

– Tá.

Então Mario começou a falar que o Natal seria uma chatice e a noite toda seria torturante com aquele monte de tios bêbados e pessoas eufóricas. Além disso, não bastava serem chatos e impertinentes, tinham que ficar fazendo aquela cena medonha de todos darem as mãos em volta da mesa para rezarem. E, afinal, neste ano o falecido vovô não poderia fazer o discurso de Natal. Ia ficar um clima estranho.

Provavelmente, a Rosalina, viúva do vovô, faria as graças, mas não seria a mesma coisa, pois a velha não teria a mesma eloquência e gaguejaria. “Nossa, já estou até vendo, as criancinhas segurando a risada e os adultos fazendo aquela cara de ‘nossa, como respeito muito tudo isso’, mas se apertássemos a tecla SAP sairia um belo ‘PELO AMOR DE DEUS! ACABA COM ESSA COISA DEPRIMENTE! QUERO ENCHER O PANÇA DE COMIDA’!” – disse Mario.

Laurinha fez cara feia pra Mario. Também não era assim. Mas no fundo sabia que era, mas era criança e não queria que a verdade fosse verdade e queria sair um pouco dali pra refrescar a mente e esquecer tudo isso. Mario seguiu a garota com um copo de champanhe vazio.

– Laurinha!!! Onde você vai!!???

– Brincar na rua!!! Hahahahaha!!! Brincar na rua!

– Peraíííííííí…

Saíram os dois caminhando pelo meio da avenida, num espaço verde por onde as pessoas passeavam com os cachorros e faziam cooper. Um tiozão passou de bermudinha pequena, se sentindo jovial, e passou a mão na cabeça da menina. Outra tia gorda vinha correndo suada, arfando e procurando ar a todo custo. Sentou numa pedra e abriu uma barrinha de cereal coberto com chocolate. Alguns cachorros vinham com seus donos e Laurinha brincava com eles. Mario e a garotinha chegaram ao final da avenida, onde havia uma pracinha e um playground. Mario sentou-se em um lado da gangorra e Laurinha de outro. A menina notou que a brincadeira não daria certo, pois Mario não tinha peso. ¬¬

– Hahahaha, assim não dá! Né, Má?

– Nossa, achei que agora iria ser um momento dramático e você ia descobrir que eu não existia, e ia tocar uma música triste e lágrimas iriam rolar… Laralara…

– Não, né? Besta. Eu sei que você não existe. Se bem que mesmo você não existindo você é melhor que qualquer um que tava lá.

– Chuif… Assim você me comove, Lau…

– Huhu, deixa disso, mongo.

– Bora lá pro estacionamento?

– Vamo!

Os dois sabiam que quanto mais longe ficassem de casa, mais chances teriam de não voltar. Por isso, seguiam cada vez mais e cada vez mais se sentiam bem ao caminhar juntos e rindo das coisas. Chegaram ao estacionamento e se sentaram nessas lombadinhas amarelas que ficam entre as vagas dos carros. Pegaram algumas pedrinhas do asfalto e ficaram jogando pra frente e vendo as pessoas comerem no restaurante ao lado. Havia uma família reunida, pareciam com pressa para sair de lá, pois comiam depressa. Então um homem careca chegou perto de Laurinha e perguntou se os dois estavam sozinhos ali.

– Caudê os pai e a mãe da vocês? – disse o homem.

– Quê? Fala direito! – respondeu Laurinha.

– Eu tenvu essi probremo pra faluar, não cunsigo.

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

– Paura de rird!!! Eu teniu essi problema desdo poqueno!

– Tá, tá. Mas o que você quer?

– Eus to pudrido aqui.

– O que!? Você tá podre?

– Não, purdido!

– Ah, tá. Mas a gente é criança e não conhece nada.

– Entrua alio nu meu carru, aí vuceis me ajudamp.

– Você acha que a gente é o que? Otário? Você pode ser um pedólifo!

– Nuns é pedólifo! É pedófilo. Hahphahapthaha.

– Olha quem fala! O Sr. Troca-Letras!

– Vocies vaum u nãot?

– Você parece legal. O que acha, Mario?

– Adoro uma aventura com um desconhecido. Por mim, demorou.

– Ok, nós vamos.

O fala-errado tinha um velho furgão branco e Laurinha ficou no banco da frente, tendo Mario se ajeitado em algum lugar do veículo. O homem ligou o rádio e começou a ouvir uma velha canção. Tudo aquilo parecia estranho para Lau, mas ela se deixou levar e começou a chacoalhar a cabeça com a música. Lembrou-se do filme que acabara de ver na tevê, onde duas meninas seguiam por uma estrada sem fim no carro das renas de natal. As renas iam a toda velocidade e o cabelo das garotas voava.

– Ei, que música é essa? – disse Lau.

– Acho que é Ronnietesfg!

– Quem?

Mario entrou na conversa.

– Esse som é bem legal!! Isso é “Do I Love You?”, das Ronettes! Foi o que ele quis dizer. Não foi?

– Issopt. Rotenners.

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Você é engraçado, cara!

Foi quase só isso que falaram a viagem toda, tirando alguns comentários sobre a careca do troca-letras e os cachorros caídos pelo asfalto. Chegaram em outro parque, esse mais vazio. Desceram do carro e seguiram o homem até um lago bonito que ficava entre algumas árvores. Estava escurecendo. Os três sentaram-se num tronco que estava na grama. O careca resolveu ir até o carro. Voltou com alguns lanches e refrigerantes e deu um pouco para a menina e os dois começaram a comer bisnaguinhas com mel. A menina olhou para ele com a boca cheia de comida e disse.

– Flosss flofl ofosoddlds

Ele riu.

– Fpala de bocaf vaziu, mnina.

– Eu não entendi uma coisa, meu. Como você sabia que o Mario existia? – disse Laurinha.

– Seu lá, você tiava fauland com ele qquant eum cheguei, nãos tava?

– É, tava. Mas é que você chegou falando “cadê os pai de você”.

– Sim, eup quis entrarf na brincadiera.

– Legal. Esse refrigerante é muito bom. É de que? É aquele novo de maracujá?

– Épf, eu neim desvetria ter dexado você bebert isso. Faz mal.

– Noooossa!!! Eu sempre quis experimentar essa merda!

– Olhap a bocaq!

– Ei, Mario. Você quer?

– Não, valeu. To aqui olhando pro céu e brindando a minha inexistência.

– Eu também. – disse o fala-errado.

Os três deitaram-se na grama formando um T. As cabeças juntas. Todas as certezas que tinham estavam naquele lugar ermo e selvagem. Havia perigo, havia uma ameaça e uma força estranha pairava no ar indicando que tudo aquilo era errado, proibido, mas que era muito gostoso. A garrafa de refrigerante caiu e um filete amarelado foi na direção do lago. O trio via a mesma paisagem: o céu estrelado, as nuvens dispersas e o fundo negro que os envolvia como numa gigante cápsula espacial. Aos poucos, foram deixando-se levar pelo sono. Os olhos foram fechando-se até relaxarem por completo. Tudo ficou na mais completa escuridão.

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6 comentários em “Laurinha e Mario guiando no mundo imaginário (Rodrigues)

  1. Maria Santino
    10 de outubro de 2014

    Olá!
    Eu fiquei o tempo todo esperando o troca letras debulhar seus propósitos sórdidos (acho que estou meio escaldada desses contos com crianças. A sério, já estava preparada para o pior 😦 ). Fiquei confusa quanto o final, a menininha morreu? O refri estava envenenado? Ou dormiram inocentes?
    Bem, queria mais. Em todos os sentidos.
    Abraço!

  2. Ledi Spenassatto
    10 de outubro de 2014

    Senti falta das perguntas, que poderiam pairar, no final do conto.

  3. Anorkinda Neide
    9 de outubro de 2014

    Ahhh se eu soubesse q vc traria Laurinha e Mário, teria trazido a minha adaptação, lembras que teve um desafio que era pra gente adaptar o conto de um colega e eu fiz: No mundo imaginário de Laurinha e Mário, é um dos meus queridinhos 🙂
    O crédito todo vai para estes personagens que são uns fofos.. hehehe

  4. Gustavo Garcia De Andrade
    9 de outubro de 2014

    É legal de ler este conto, ele flui de um jeito bem leve e dá pra sentir a infantilidade. Mas achei meio superficial… sem profundidade, subtexto.

E Então? O que achou?

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Publicado às 9 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .