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Literatura que desafia.

Silêncio Interestelar (Victor O. de Faria)

exoplaneta

No final, todo ser humano deseja apenas ser amado…

Desceu o dedo indicador suavemente por sua face. Afagou seus cabelos e, por fim, a abraçou. Longa e demoradamente. A gota que escorria de seus olhos insistia em desafiar a gravidade. Simples moléculas de água continham maior significado que todo o gesto anterior. Se pudesse extrair o oxigênio do H2O, já o teria feito.

Os sentimentos mais profundos surgiram apenas no fim, um comportamento contraditório cultivado desde o nascimento – aprende-se a criar barreiras impenetráveis que desabam somente em situações sem retorno. Segurou-a pelos braços, uma última vez.

Sempre desejou estar conectada ao universo – fato que já era realidade, pois era filha do cosmos, contendo as mesmas propriedades de sóis em uma dimensão física. “Somos feitos de poeira de estrelas”, já dizia um famoso astrônomo. No entanto, a conexão era mais forte em conjunto. O zero sempre precisou do um, assim como os elétrons dos prótons.

Agora seria apenas um elétron, vagando sozinho pelo espaço desconhecido. Encontraria nebulosas espetaculares, de cores jamais compreendidas por olhos humanos. Sistemas binários, terciários e quaternários. Estrelas em seus últimos dias, corpos celestes desconhecidos e por fim, uma nova civilização. Única, coletiva, telepática e incrivelmente inteligente. Microscópica.

Um vazio indescritível invadiu todo seu ser. Se aquela falha não tivesse ocorrido… Uma falha humana. De que adiantava estabelecer a comunicação interespacial, se não havia ninguém com quem repartir a conquista? Esperava que seus conterrâneos, aliás, toda a humanidade, entendesse o que estava envolvido naquele passo grandioso, quando recebessem os registros da missão.

Pois o que estava prestes a fazer, revelava muito sobre a conquista espacial. Apertou um grande botão vermelho. Abaixo dele, escrito em varias línguas, a palavra “despressurização” piscava. A comporta se abriu.

O corpo já sem vida foi sugado para fora. Finalmente ela estaria em paz – um esquife de gelo criado pelo próprio espaço. Uma conexão. Uma volta às origens. Estava disposto a concluir a missão, mas depois…

Um brilho de vários megatons percorreu o espaço. Sozinho. Silencioso. Efêmero. Jamais chegaria à Terra.

Entenderiam muitos anos depois, que o ser humano não precisava de milhares de naves espaciais, computadores, autômatos, maquinários fantásticos, energia atômica.

E sim, pessoas.

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11 comentários em “Silêncio Interestelar (Victor O. de Faria)

  1. Wender Lemes
    31 de agosto de 2014

    Muito bom. O começo do seu parágrafo sobre a filha do cosmos me lembrou Sagan. A citação só confirmou kkk. Concordo com o que você disse sobre ser poético em FC, realmente é algo complicado, mas não é impossível. Prova disso é o seu conto – e o próprio Carl Sagan, claro. Parabéns.

  2. Claudia Roberta Angst
    28 de agosto de 2014

    Gosto de contos curtos. Claro que devem ter conteúdo interessante. Apesar de não ser grande fã de sci-fi, apreciei a narrativa. Bom trabalho!

  3. José Leonardo
    28 de agosto de 2014

    Olá. Como a Maria Santino, também conheço alguns textos do autor no RL. Essa espécie de “sci-fi sentimental” (no melhor entendimento da expressão) é fascinante, quiçá inédita naquele site ou neste. O zelo com a escrita é um item à parte, e como sempre o autor se destaca. Contos longos me atraem mais que curtos (se bem trabalhados, podem causar até mais impacto que os de menor extensão), mas este prendeu minha atenção. Abraços.

  4. rubemcabral
    28 de agosto de 2014

    Gostei, tem algumas passagens bem inspiradas. Contudo, achei meio curto, preferiria ver o enredo um tanto mais desenvolvido.

    • Brian Oliveira Lancaster
      28 de agosto de 2014

      Essa é uma característica minha. Prefiro contos curtos de alto impacto, do que longos que se perdem no caminho (ou podem conter mais erros, despercebidos). Obrigado pela leitura!

  5. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2014

    Muito bonito, emocionante até!
    Um sepultamento interestelar.. rsrrs
    linda esta frase:
    ‘Sempre desejou estar conectada ao universo – fato que já era realidade, pois era filha do cosmos’

    parabéns!

    • Brian Oliveira Lancaster
      28 de agosto de 2014

      Agradeço o elogio! Sei que não é bem do gênero que você gosta, mas realmente tentei soar mais “poético” (tarefa complicada em FC).

  6. mariasantino1
    27 de agosto de 2014

    Hum… esse nome não me é estranho, rs.

    Olá, Brian! Eu já disse que gosto de sci-fi? Pois, é… Gosto demais! Percebo essa sua mescla de sentimentos e máquinas, sentimentos otimistas com desilusão, desesperança… Fica bom, melancólico… Gosto desse tom. Abraço e (como diria um colega de escrita do “além mar”) AVANTE!

    • Brian Oliveira Lancaster
      28 de agosto de 2014

      Já havia comentado seu “outro” conto em alguma ilha destes mares virtuais. Lembro de tê-la conhecido pelo RL. Também curto muito seu estilo! (Eu sou um pouco melancólico, então dependendo do dia, isso se reflete no que escrevo).

  7. JC Lemos
    27 de agosto de 2014

    O título chamou a atenção logo de cara.
    E a história não deixou a desejar. Gostei da linguagem rápida e com boas analogias. Tive a mesma sensação de quando assisti Gravidade, e isso é bom. haha

    Em poucas palavras conseguiu me cativar. Muito bom!
    Parabéns!

    • Brian Oliveira Lancaster
      28 de agosto de 2014

      Escrevi este micro conto em uma manhã chuvosa. A ideia era ser direto ao ponto mesmo, mas, por incrível que pareça, saiu diferente do que pensava. De início não tinha nada a ver com espaço. Obrigado pela leitura!

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Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .