EntreContos

Detox Literário.

Crime em Pindorama (Rubem Cabral)

pindorama

Província das Minas Geraes, 1901.

Março chegara abrupto e trouxera no balaio sua cota costumeira de ira celestial sob forma de chuva intermitente e irritante. E, como sempre, Vila Rica, a capital comercial do Império de Pindorama e Portugal, não se preparara para os rigores daquela estação afogada e nevoenta.

Logo, a falta de luz solar fez brotar suicidas como cogumelos num porão,esgotou os estoques de tintura de láudano e beladona das boticas e entupiu os periódicos de deprimentes poemas existenciais.

De súbito, então, um estrondo! Algo, como um tiro de canhão em meio àquela pasmaceira de cemitério de almas encharcadas, ecoou. De forma inesperada, rasgando a mortalha cinza do céu matutino, uma Esfera Dumontiana expressa zuniu e desenhou uma linha branca na abóboda. Sobrevoou as torres da igreja, pairou por sobre a Casa dos Contratos, girou sobre si mesma, emitiu silvos vaporosos e, por fim, pousou graciosa no pátio interno do rico casarão.

Do outro lado da rua, através duma janela entreaberta da Pensão da Moura, estirado num catre coberto por um ralo colchão, Samuel Maltês observara tudo, assoviando de espanto. Ainda com o olho semicerrado por lágrimas alcóolicas, esticou o braço pardacento meio a esmo e resgatou o que sobrara do charuto que esquecera queimando na borda do criado-mudo. Acendeu o restolho numa lamparina, tragou fundo, tossiu, espectorou com precisão uma bola asquerosa e marrom na escarradeira junto da porta, disse palavrões que enrubesceriam estivadores e então levantou-se.

“Correspondência à esfera-vapor era um luxo quase exclusivo da Família Real; razoavelmente caro até para os padrões dos Rodrigues de Macedo”, ele matutou sobre os proprietários da Casa dos Contratos, enquanto fazia a higiene bucal com bochechos de cachaça, diretamente do gargalo.

Engoliu a “marvada” feito remédio e percebeu, não sem certo prazer, o progressivo entorpecimento de sua dor de dente crônica e o calor reconfortante no estômago que já roncava vazio.

Vestiu-se então com algum vagar: tapa-olho de couro, calça de lã, camisa de linhão, colete, chapéu e um abrigo cáqui – quase tudo meio puído e fedorento, prendas de um caso que resolvera há dois anos para um alfaiate inglês; época de saudosas vacas mais gordas, quando até tivera escritório na capital. Isso, antes de certo fracasso escandaloso num caso envolvendo a nobreza, que o forçara a voltar à sua cidade e a sobreviver da caça de ladrões de galinhas e de escravos fujões.

Depois de arrumar uma trouxa com seus parcos pertences o ex-investigador já se preparava para saltar pela janela e enganar a hospedagem, escorregando pela calha de bronze que corria do lado externo. Foi quando alguém bateu à porta.

Pensou em escapar logo, mas o bater macio e polido de mãos talvez enluvadas revelava que não deveria ser a dona da pensão, que lhe cobrara com vigor as diárias atrasadas na véspera. Com o pingo de vaidade que ainda lhe restava, Samuel alisou o bigode, ajeitou as “joias da família”, empertigou-se e abriu a porta.

Do corredor uma mulher o olhou dos pés à cabeça, sem disfarçar a surpresa e que não havia gostado do que viu ou farejou. Era jovem, certamente com uns dezoito ou dezenove. Tinha um rosto bochechudo de querubim, mas com os olhos inchados. A tez era branca e os cabelos pretos cacheados.

— Senhor Samuel Paranhos Maltês? É essa a vossa graça?

— Sim, a vosso dispor. A quem devo o prazer? – Ele falou, arrependendo-se tardiamente do cacoete “galante” de piscar o olho bom e de dar um peteleco na aba do próprio chapéu.

— Condessa Carlota Maria Luíza Rodrigues de Macedo – ela reforçou o sobrenome. — Minha mucama me contou que Vossa Mercê prestava serviços investigativos antigamente e que estaria hospedado aqui.

Samuel não precisou refletir muito para se lembrar da “Beleza”, uma fornida mulata com olhos de gazela e fôlego de leoa, que pusera sua cama em chamas, três dias antes. Ela havia comentado alguma vez que era mucama alforriada de certa madame na cidade.

— Posso ajudá-la de alguma forma? Aconteceu alguma cousa?

— Pois bem, quero contratar vossos serviços, a Bertoleza me disse que Vossa Mercê era très bon no que faz. Ma-mataram ontem um… amigo querido meu: André Nogueira Machado Neto, empresário lá do Rio de Janeiro. Eu exijo, digo, imploro, por favor, ide até a capital, ide descobrir quem foi, e trazei… – Ela crispou as mãos, as palavras lhe faltaram e lágrimas pularam como golfinhos de seus grandes olhos castanhos. — Os bagos do filho duma rameira de cinco mil-réis que fez isso!

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Na manhã seguinte Samuel segurava-se aos braços duma poltrona como um gato prestes a ser imerso numa tina de água gelada. Praguejava sem ligar para os olhares ofendidos dos outros nobres passageiros cada vez que o veículo corcoveava e relâmpagos brilhavam lá fora. Jamais deveria ter aceitado aquele tipo de transporte, porém a cliente exigira rapidez e não media custos… Dez Contos de Réis, fora despesas! Limpos! Nem acreditava no valor exorbitante que conseguira negociar.

Abriu um jornal para tentar se distrair, mas não lograva se concentrar. O crime só era citado numa nota na terceira página. Na primeira, apenas em destaque a indicação de Santos-Dumont, o Engenheiro Imperial, à fabulosa Comenda Joaquim Silvério dos Reis e a recente reanexação forçada da Cisplatina, que ousou ostentar por um tempo a alcunha de Uruguay.

Através das escotilhas do pássaro mecânico, ele observou os detalhes da metrópole que aos poucos se revelava, espalhando-se feito cancro escuro ao redor da Baía de Guanabara. Seus rios de bile correndo para o mar de sangue-pisado, seus céus baços pelo fumo das muitas chaminés da zona portuária.

“Toda noite a verdadeira cidade grita feito mil órfãos violados, afogados no próprio vômito pelo demônio em pessoa, embora ninguém ouça ou dê atenção. Na manhã seguinte lava-se o sangue e a bosta até as bocas-de-lobo, finge-se que não houve nada e A Gazeta publica fofocas sobre os banquetes do imperador Dom Afonso Pedro I. Não. Eu não senti saudades daqui”, ele pensou amargurado.

O detetive conhecia bem os recôndidos purulentos do Rio; as esquinas onde poder-se-ia comprar ópio ou crianças roubadas, encomendar um assassinato sem perguntas, ou melhor, com algumas perguntas sobre os detalhes. “Rápido ou lento? Algum recado antes de enfiar a peixeira no bucho e girar, nhôzinho?”

A máquina bateu as asas mais vagorosamente e despencou, nuvens escaparam sibilantes de suas laterais, como numa caldeira prestes a explodir. Samuel olhou para os lados, com olhos de bolas de bilhar. No entanto, todos estavam calmos e a coisa apenas pousou minutos depois, quicando feito bola de borracha num campo em São Cristóvão.

E ele então vociferou um palavrão recém-inventado, do tipo que faria seus estivadores imaginários se atirarem ao esgoto ou baterem palmas de pé, com faces lacrimosas.

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Do aeroporto tomou uma liteira carregada por autômatos – afinal, não precisava poupar – e, em menos de trinta minutos, chegou ao Largo do Machado.

O primeiro açougue da rede Machado, cujo fundador original dera nome ao bairro, estava cerrado. A fachada exibia o instrumento homônimo, de grandes proporções, e que se tornara famosa marca registrada de todos dez estabelecimentos espalhados em vários pontos da capital.

Um policial com farda surrada e cara faminta fazia guarda em frente ao lugar. Samuel discretamente jogou conversa e apertou a mão do sujeito, passando dois cruzados de prata no ato.

— O leitinho das crianças – ele sussurrou, arreganhando um sorriso. — Só preciso passar o olho por uns cinco minutos e já saio, oficial.

Bajular quase sempre funcionava tão bem quanto dinheiro; ele recordava-se do necessário traquejo social, sobre como azeitar a máquina e fazê-la funcionar a seu favor.

Lá dentro, silêncio e quase escuridão. Julgando pelas silhuetas, apenas algumas mantas de carne-seca e pedaços de toucinho continuavam pendurados em ganchos; toda carne fresca fora roubada ou doada. O chão de pedra e as paredes revestidas de azulejos hidráulicos provavelmente foram lavados, pois havia poucas moscas.

Por detrás do balcão marmorizado, quase colado à parede, um objeto grande chamou sua atenção. Roçou os dedos para se certificar do que se tratava.

A superfície porosa daquele cepo de madeira estava úmida e exalava um cheiro untuoso de ferrugem, um mélange adocicado de tutano, carne, gordura, que se agarrava às narinas feito refrão de música ruim à memória.

Caminhou por detrás daquele altar de sacrifícios ao deus do comércio, tocando as paredes no lugar aonde segundo A Gazeta o corpo de André Machado fora encontrado travado, quase de pé, sem marcas ou cortes.

Voilà! – Ele exclamou, ao extrair uma gorducha agulha de latão cravada na argamassa dentre os azulejos e ao guardá-la num lenço, depois de poucos minutos de pesquisa. — Bendita seja nossa polícia lambona e incompetente! Como dizem, a necessidade aguça o engenho! Talvez agora uma visita ao necrotério esclareça outros pontos mais…

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A Gamboa não era nem de longe o bairro mais aprazível da capital, com cortiços apinhados de criminosos e rufiões, prostituição à luz do dia e esgoto correndo a céu aberto. Em grande contraste com a região, o novo Hospital dos Servidores do Império era moderno e um dos poucos no mundo a contar com necrotério; um diamante engastado num berloque de esterco.

Era tardinha quando o investigador chegou, e as imediações do nosocômio estavam cheias de gente e severamente policiadas após um atentado republicano antiescravagista que ocorrera pela manhã.

Samuel sentiu-se ali em seu elemento e “navegou” ágil pelo populacho, sem chamar atenção. Penetrou o hospital com a desculpa de visitar sua mãe muito doente. Com discrição caminhou pelos corredores, entrou na lavanderia e escapou de lá com uma toca e um jaleco comprido, abotoado até o pescoço.

Não tardou muito e localizou o depósito dos mortos no subsolo do prédio. Havia uma placa à porta, mas o ruído dum compressor de amônia e o odor de formaldeído já denunciavam o que haveria além do batente.

Fumaça se formou a partir da respiração do detetive enquanto ele tentava fazer foco com seu único olho bom no cômodo semiescuro. Acendeu um isqueiro de fluido e, depois de remover o lençol do corpo de uma mulher, notou com surpresa a óbvia etiqueta amarrada ao dedão, com número de matrícula e nome.

— Cáspite! – Riu. — Simples e eficiente como uma lâmina entre as costelas!

Seguiu a sequência das macas dispostas com pouco espaço entre si. “Emengarda Filomena da Silva”, “Indigente 33”, “Manoel do Gentio de Guiné”…

— A casamento e batizado, não vás sem ser convidado! – Disse de supetão alguém que acabara de abrir a porta.

Samuel instintivamente agarrou a garrucha escondida no bolso da calça enquanto um homem de cabelos brancos e barba bem aparada entrou tranquilamente.

— Não, não me diga! Vossa mercê é outro repórter? – Indagou o velho.

Outro?

— Não me tomes por algum beócio. Vieste aqui para espiar o gigante também, não foi? Atrás, como dizem mesmo, dum furo? Feito o rapazola do Jornal do Commercio. Vamos, venha, não me faças perder tempo.

Então, com um movimento rápido e meio fanfarrão, o homem grisalho debulhou a mortalha que cobria o cadáver de André Machado.

André fora realmente um gigante! O jovem de presumíveis vinte e poucos anos deveria ter mais de metro e noventa, e o corpo liso de pelos exibia músculos saltados e definidos, sob uma enorme cicatriz carmim em “Y”. Mesmo com pele arroxeada, seu rosto era formoso, encimado por cabelos claros e adornado por um nariz grego.

— Mas que diabos é isso?! – Apontou o detetive, quase tendo um acesso de riso.

— Certamente foi um culturista, talvez discípulo do famoso Senhor Sandow – desconversou o médico. — Ah, sim, isso… Embora o membro viril fosse de dimensões avantajadas, o que Vossa Mercê vê é o resultado do óbito ter ocorrido com o corpo quase na vertical, daí o acúmulo de sangue. Tecnicamente denominamos tal fenômeno “priapismo do enforcado”, mas é mais conhecido como “anjo da luxúria”. Bem, estamos aqui a dialogar e nem sequer nos apresentamos. Sou o Doutor Felisberto Martins Coelho. Qual é vossa graça?

— Roberto Freitas, d’A Gazeta, repórter. Vossa mercê acertou em cheio. E a causa da morte, qual foi?

— Ora, não posso dar um parecer oficial. Se meu nome sair na imprensa terei que negar tudo!

— Sem nomes, só estou curioso.

— Considerando a cianose e a aparente paralisia quando vivo, suspeitamos de envenenamento neurotóxico, mas não temos recursos para provar; não havia espuma na boca ou equimoses no corpo. Outrossim, a congestão do fígado e o edema pulmonar corroboram tal hipótese.

Samuel não compreendeu muito bem todo o linguajar técnico e o português empolado do médico, mas seu orgulho profissional não lhe permitiu expressar dúvidas.

— Bem, obrigado, doutor! Meus leitores apreciarão vossas informações.

— Por nada! São duzentos mil Réis.

— Quer dinheiro?! Vossa mercê perdeu a razão? Tomai-me pela gansa dos ovos de ouro?

— Foi o que o rapazola me pagou. Eu pedi noventa, e ele me ofereceu duzentos! Ou o senhor gostaria de confabular com a Polícia Imperial?

“Em outros tempos mais rudes o velho ganharia uma coronhada ou duas como pagamento…”

— Pois tome oitenta então, não carrego todo esse dinheiro comigo. Não, Vossa mercê não me faça esta cara! Afinal, antes caia do cu do que do alforge, não?

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Chuva fina começara a pingar quando Samuel deixou o hospital. Junto da praça, um blindado de cobre dissipara a multidão eficientemente e a calma retornara.

— Malditos sanguessugas! Já se foi boa parte do adiantamento em subornos… – Resmungou.

Acendeu um charuto e caminhou a esmo, imerso em pensamentos.

“Enumerando o que já sei. Alguém matou o pau-de-cavalo com alguma arma desconhecida, isso é certo. Disparou mais de uma agulha envenenada e não viu a que ficou presa à parede, removendo as do corpo depois do óbito, para não deixar pistas.

Quem seria capaz de fabricar tal sofisticada zarabatana?

O Don Juan cara-de-anjo seguramente fizera crescer uma galhada considerável na cabeça do Conde Rodrigues de Macedo, que é pelo menos trinta anos mais velho que sua bela esposa e, por certo, menos equipado. André em princípio não precisaria do dinheiro da amásia, não era um pé-rapado açougueiro como o avô, mas um proprietário de dez estabelecimentos e de uma olaria. Então, chantagem não seria provável, a não ser que ele houvesse contraído dívidas. Tenho que investigar… Teria o velho conde descoberto a razão verdadeira das fugas frequentes da esposa à capital?”

O investigador mal virara uma esquina, à procura de transporte, quando sentiu uma fisgada na parte de trás do pescoço. Girou, já com a garrucha engatilhada, mas apenas viu o mundo rodando e alguém, ridiculamente baixo e magro e usando um chapéu absurdo, caminhar em sua direção. O detetive caiu então de joelhos e uma cortina de breu desabou por detrás de suas pálpebras.

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Fazia frio e sua cabeça pendia… A memória adernava e trazia flashes de um veículo aéreo compacto, de muitos braços negros carregando-o.

Samuel notou que seu corpo estava tenazmente atado a uma cadeira. Uma mão pequena e macia batia em seu rosto. Seu olho bom ainda se esforçava em fazer foco, e o detetive notou um estranho relógio fixado por uma tira de couro ao pulso do dono daquela mão.

— Onde estou?

Sacrebleu! Acorda, seu verdugo desgraçado! Estás na Encantada, em Petrópolis. Irás morrer aqui! – Dizia a voz débil de quem vinha tentando despertá-lo, tornando a bater em seu rosto com mais força.

— Quando esbofeteado, aguenta-se e aprende-se a gostar. Bata com mais força, neném.

O homenzinho xingou em francês, o que faria os estivadores imaginários do senhor Maltês rirem até se urinarem. Aos poucos o mundo resolveu descer do carrossel, e o detetive finalmente pôde ver o semblante de seu captor.

Ele deveria ter pouco mais de metro e meio e uns quarenta quilos. Era pálido e usava um bigodinho aparado. Vestia roupas caras e extremamente bem cortadas. E, claro, ostentava um chapéu que era quase um sombrero mexicano.

— Pelas barbas de Pedro II! Alberto Santos-Dumont!

— Vossa mercê vai fechar esta latrina que chama de boca e me contará, agora, como e porque matou o Andrezinho!

— Quem? Eu matei? Andrezinho?! Fechar a boca e contar? Como?

Meu Andrezinho! – Ele não segurava mais as lágrimas. — É claro que foi enviado por aquela rameira de Vila Rica, que descobriu tudo. De alguma forma Vossa mercê roubou um dos meus protótipos de arma não letal, que deixei no Largo do Machado, preparou as agulhas com veneno ao invés de narcótico. Matou! – Ele uivou, desesperado. — E quis me incriminar!

“Deus do céu! Santos-Dumont, um uranista?”

— Não, eu…

— Mas nada disso deu certo! Eu, eu o segui! Estive disfarçado em la morgue para me despedir e vi quando Vossa mercê de lá saiu. Informaram-me de vossa visita ao açougue também. Foi ao hospital conferir vossa maldade? Foi tentar plantar novas provas contra mim na cena do crime? Não bastou acabar com nossas vidas?

As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar. Haveria talvez uma sequência de evidências plantadas, que acabaria por levá-lo ao Engenheiro Imperial de qualquer forma. Um estratagema?

Samuel respirou fundo e sentiu as engrenagens de seu cérebro moverem-se dolorosamente.

— Acalma-te, Alberto. Precisamos conversar.

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Nos dez dias seguintes a cada manhã meninos descalços alardeavam histéricos com jornais em punho: “Engenheiro Imperial está desaparecido”, “Cisplatinos separatistas e republicanos suspeitos”, “Imperador consternado: onde estará nosso inventor-mor?”.

O relógio-carrilhão soava as onze da manhã na Casa dos Contratos, quando um trovão fez disparar os cavalos do curral. O almoço já estava sendo servido, e uma Esfera Dumontiana despencou dos céus, quebrou o telhado e pousou numa terrina de sopa, quebrando a mesa no mesmo ato e banhando todos os convivas com canja.

Depois, recuperada do susto e agradecendo aos céus pelo conde estar ausente, na intimidade de seus aposentos a condessa leu a mensagem embutida na coisa: “Bagos de uva colhidos e prontos para vossa justíssima pressão. Trazei restante do acordado e mais dez Contos, pelo risco extra e exemplar cumprimento da missão. Ide amanhã às quinze horas ao Morro do Desterro, Monte Alegre, 42. Não falteis ou… Seu criado, Samuel.”

“Mas era realmente um pedaço de asno!”, ela gargalhou. “O imbecil havia se metido em papos de aranha ao revelar daquela vez à imperatriz as identidades das duas amantes do imperador. Deveria então ter sido burro o suficiente para matar o invertido e ser preso ou morto no ato. Não falteis ou…?” – ela riu mais.

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A condessa encontrou destrancada a porta da casa, estava acompanhada por dois escravos gêmeos, capazes de estrangular leões.

Logo que entrou sentiu uma picada mínima no pescoço e estapeou-se, praguejando pelos mosquitos. Seguiram por um corredor comprido escuro e, finalmente, alcançaram uma sala iluminada por um facho de luz oscilante.

Santos-Dumont estava amarrado, com a cabeça pendente. Samuel estava sentado e abriu os braços quando a viu.

— Sentai, senhora! Gostaríes de beber algo? Ou de dizer algo?

Curioso o detetive indagar se desejava dizer algo. Desde que entrara, começou a se sentir eufórica, segura de si e mais que ávida por falar.

— Não desejo sentar-me. Descobri esta pistola – ela retirou da bolsa – quando fui uma vez à casa de André. Perguntei de quem era e o bobinho não só contou-me todo choroso, como me disse que deveríamos nos separar, pois ele intencionava viver em Paris com seu celebérrimo melhor amigo. Daí, roubei o revólver e voltei à Vila Rica. Consegui mandioca e parreira bravas com a Bertoleza, testei a eficácia do extrato no meu gado, até acertar a dosagem. O resto mesmo o senhor adivinharia: matei André, removi as agulhas mas dei um tiro na parede para deixar pista, voltei à cidade mas antes enviei uma esfera a mim mesma, pois meu marido estaria em viagem de negócios. Fui até o senhor, famoso por suas qualidades de detetive e ainda mais por não medir consequências no cumprimento de missões. Vossa Mercê deveria ter matado o invertido e morrido, mas… E aqui estamos nós!

A condessa repentinamente fez mira e disparou três agulhas em Santos-Dumont, que não se mexeu.

— Cosme, Damião, segurem o senhor Samuel, pois tenho que pagá-lo também.

Os dois gigantes de ébano vieram céleres, quando foram alvejados por uma saraivada de agulhas, saída da parede. Cosme caiu, embora Damião atravessasse os braços enormes pelo que parecia ser o fantasma do detetive, diante de uma tela. Outra agulha narcótica colocou então o gigante a nocaute.

— O que está acontecendo? – Indagou a condessa, sentindo um novo fisgar.

Santos-Dummont, Samuel e alguns senhores desconhecidos saíram de trás de uma cortina preta, escondida pela penumbra do corredor.

— Usamos primeiro o “Soro da Verdade” do senhor Crookes quando Vossa Mercê entrou. O restante da encenação foi realizada com o apoio de meus colegas aqui, Auguste e Louis Lumière, e sua confissão foi gravada numa pianola do Senhor Votey. Nós, cientistas, somos uma classe unida, ao contrário da das rameiras – disse Dumont.

A condessa caiu e Samuel foi apará-la.

— Sr. Maltês, só fiz tudo por… amor…

— Sim, boneca, e o Inferno é só uma sauna! – Ele disse, aproveitando para beijá-la nos lábios. — Bah, as pessoas às vezes esquecem de que um corpo morto pesa mais que um coração partido, não? Vamos, senhores, quem me pagará um trago?

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26 comentários em “Crime em Pindorama (Rubem Cabral)

  1. Di Benedetto
    5 de dezembro de 2013

    Esse é outro conto que vou ter que ler de novo depois, com mais calma. Achei a ambientação steampunk (?) interessante e bem escrito. Mas esse tipo de linguagem (apesar de totalmente coerente dentro da ambientação) não me empolga muito.

  2. Alana das Fadas
    4 de dezembro de 2013

    Parabéns, ótimo conto. A linguagem meio romancesca demais não me agrada, mas no fim acabei gostando do conjunto!

  3. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    A ambientação é muito criativa, e a linguagem ficou impecável, especialmente no que diz respeito aos diálogos. O tom jocoso do texto combina perfeitamente com o estilo Steampunk Imperial.

    SUGESTÕES

    Não tenho muitas sugestões a dar. Ficou realmente muito bom. Talvez explorar um pouco mais a resolução do confronto final?

    TRECHO FAVORITO

    “E ele então vociferou um palavrão recém-inventado, do tipo que faria seus estivadores imaginários se atirarem ao esgoto ou baterem palmas de pé, com faces lacrimosas.”

  4. rubemcabral
    20 de novembro de 2013

    Bem bacana! Gostei do Brasil alternativo e do detetive boca-suja. Legal o humor do conto e a emulação de texto antigo.

  5. Claudio Peixoto dos Santos
    20 de novembro de 2013

    Ótimo! Esse tipo de conto não há o que comentar. É bom e pronto. Parabéns!

  6. Leandro B.
    18 de novembro de 2013

    Muito legal.

    Um mundo muito bem construído e uma técnica de escrita apuradíssima. Existe muito mérito nesse texto, desde o universo paralelo muito bem conduzido até a divertida trama de investigação.

    Não tenho nenhuma crítica aqui. Como outro texto que li, acho que a história não poderia ser construída de maneira melhor dentro do limite de 3500 palavras.

    Um trabalho excelente, parabéns autor!

  7. fernandoabreude88
    16 de novembro de 2013

    Um conto engenhoso, fruto de pesquisa ou de alguém que entende muito bem da época retratada. Consegui enxergar o noir em meio ao mundo e aos elementos criados, o único problema foi certa claridade que acompanha a atmosfera do texto, é como se ele pudesse ter sido escrito de duas formas, uma clara e a outra escura, mas parece que o modo “claridade” foi acionado. Isso é realmente subjetivo, mas foi uma questão que me veio à cabeça ao meio e ao final da leitura. Em outro aspecto, achei que a mistura do noir com esse “mundo antigo” funciona melhor a partir do momento em que a investigação é iniciada, quando o protagonista encontra seu “elemento” (parte muito boa), o texto toma um rumo diferente e prende mais o leitor (eu, no caso). No mais, parabéns pela construção desse UNIVERSO em tão poucas palavras, coisa de alguém com muito talento.

  8. Rodrigo Sena Magalhaes
    15 de novembro de 2013

    Excelente! Escrita profissional. Até agora o meu favorito. Parabéns ao autor (a).

  9. Jefferson Lemos
    14 de novembro de 2013

    Achei a escrita fantástica. O texto foi coerente e as descrições são magníficas. Apesar de eu ter achado que faltou um pouco mais do Noir, o texto foi o melhor que eu li até o momento.
    Parabéns ao autor, e como disse nosso amigo Pedro Luna, deixo minha inveja branca. hahaha

  10. Frank
    13 de novembro de 2013

    Um excelente conto! À medida que ia lendo fui me espantando com as informações históricas estranhas e os inventos fora de época (logicamente adorando tudo) e, quanto li os comentários, descobri algo novo: steampunk! Não conhecia! Quanto a escrita, que maravilha! Fluida…eu ia deslizando pela história e torcendo pelo anti-herói. A trama também é bem bacana. Enfim, me diverti, aprendi e fiquei com inveja branca! Parabéns!

  11. Pedro Luna Coelho Façanha
    13 de novembro de 2013

    Vou mandar a real. O texto é muito bom, mas não gostei muito porque não me envolvi bastante com a história. Mas digo para o autor que ele escreve muito. Senti uma inveja branca..rs. O conhecimento da linguagem da época, dos lances históricos e personalidades foi muito bacana. Ficou algo muito natural. Ponto para o autor.

  12. charlesdias
    13 de novembro de 2013

    Muito interessante o conto. Pena que o final ficou corrido e pouco emocionante. Sinceramente, merece mais uma três mil palavras.

    Quanto ao gênero passou longe de noir, é steampunk puro!

  13. Evelyn Postali
    13 de novembro de 2013

    Maravilhoso.
    De uma leitura extremamente agradável! Do começo ao fim. Eu amei! Tudo nele é entrelaçado. Viajei. E ainda não tinha lido nenhum texto nesse estilo steampunk. Me agradou por completo.
    Mais um favorito!
    Parabéns para o autor.

  14. Thata Pereira
    13 de novembro de 2013

    Como é maravilhosa sua escrita! Algumas vezes precisei voltar alguns trechos do conto, pois eu focava minha atenção na construção das frases e não na história em si. Nunca havia lido Steampunk e, na verdade, só conheci o gênero esse ano. Meio que “torci o nariz”. Foi bom ver que estava errada. É uma excelente história!

  15. Agenor Batista Jr.
    13 de novembro de 2013

    O uso de uma linguagem quase atemporal nos delicia pela criatividade e fluidez do texto. Confesso que no início da leitura pensei tratar-se de um genuíno “noir” mas no decorrer da narrativa passa-se ao fantástico imaginativo mas não menos agradável. Pena o tema do Desfio ter ficado em segundo plano. Apenas um pecadilho: melhor seria “palpos” de aranha ao invés de papos, visto que aranhas não os possuem. No mais, um excelente entretenimento a nos fazer agrados durante a leitura.

  16. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    12 de novembro de 2013

    Conto muito bem trabalhado, com caracterização histórica e preocupação com detalhes. Os elementos do noir estão aí bem dosados e misturados para formar uma narrativa cativante. Longo, mas agradável de ler. Parabéns!

  17. Marcellus
    11 de novembro de 2013

    Hoje chegou uma primeira prova de impressão e vejam o significado real de SINCRONICIDADE… [https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10202377340892180&set=pcb.10202377345092285&type=1&theater]

    🙂

  18. Rafael Sanzio
    11 de novembro de 2013

    É uma história muito bem elaborada. Situei a leitura em um noir mais próximo do universo machadiano, pela época e pelo vocabulário. Confesso que o Steampunk não é a minha praia; por isso, o desfecho à la Sherlock Holmes (filme) chegou pra mim de forma repentina e até um pouco confusa. No mais, é uma boa história. Abraços!

  19. Ricardo Gnecco Falco
    11 de novembro de 2013

    Interessante como uma (ótima) escrita, por si só, pode às vezes encantar até quem não gosta muito do estilo! Como uma sereia seduzindo escaladores no topo do Everest ou um mitológico Pan tocando uma bateria, este conto não me surpreendeu pelo mote, mas sim pelo “solo” muito bem efetuado.
    Parabéns pelo seu dom!
    😉

  20. felipefalconeri
    11 de novembro de 2013

    Olá Carcará.

    Fiquei surpreso com essa mistura de steampunk com noir. São dois gêneros que pedem muito da ambientação para funcionar. Misturá-los, então, é um grande desafio. Isso já emprestaria ousadia suficiente para o texto, mas você foi além ao tecer uma história com personagens reais – tocando, inclusive, no espinhoso tema da sexualidade de Santos Dumont.

    Por outro lado, essa mistura criou uma armadilha para o próprio conto: o universo steampunk brilha muito mais aqui do que a atmosfera noir. No primeiro parágrafo você começa construindo bem essa atmosfera, falando da “chuva intermitente e irritante” que caía durante a “estação afogada e nevoenta”. Mas daí pra frente não há mais nada que reforce esse ambiente. Você parece ter voltado todas as baterias para as descrições dos elementos históricos e do universo steampunk. Isso não diminui em nada a qualidade do texto. Mas – ao menos para mim – o enfraquece um pouco dentro do contexto do concurso.

    Em compensação, essas descrições ficaram excelentes. Nota-se que houve um notável trabalho de pesquisa que fica explícito desde o detalhamento das vestimentas dos personagens até os termos “de época” utilizados nos diálogos e até mesmo na narrativa. Muito bom.

    A única coisa que me deixou confuso foi a localização temporal da história. Tudo no texto faz parecer que ele se passa durante o Brasil Império. Mas quando a República foi proclamada Santos Dumont ainda era um adolescente. Se bem que, em se tratando de um universo alternativo, tudo é possível, inclusive o Império ter durado um pouco mais, hehe.

    Gostei da trama. Inicialmente o conto me pegou mais pela ambientação, depois fui me interessando pelos componentes do crime e a aparição de Santos Dumont despertou definitivamente meu interesse. Li intrigado até o final. Mas o final… Confesso que não gostei nem um pouco do desfecho da história. A aparição dos irmãos Lumière e do “Soro da Verdade” foram muito deus ex machina para mim. E essa coisa de fazer o vilão contar o próprio plano – ainda que sob influência do tal soro – não tem como não soar meio Austin Powers, rs.

    Mas, apesar de ter me decepcionado com o final, achei o conto muito bom. Sobretudo porque está MUITO bem escrito e isso supera qualquer possível falha.

    Parabéns seu Carcará. =)

    • O Carcará Sardo
      11 de novembro de 2013

      Muito grato pela leitura, Felipe.

      Bem, eu fui vítima do limite de caracteres, minha versão com 3900 palavras é bem melhor e atenua o “deus ex” do final. Nesta fica mais claro que o Brasil é uma potência econômica e militar que atraiu cientistas do mundo todo. Há uma espécie de Novo Iluminismo.

      Quanto ao período histórico, o conto se passa num Brasil alternativo chamado Império de Pindorama e Portugal. O imperador é o filho de Pedro II (que morreu com dois anos de idade, de epilepsia), Tiradentes foi um traidor da pátria, Vila Rica não se chama Ouro Preto, a Casa dos Contratos não foi vendida ao governo passando a se chamar Casa dos Contos, não há república, ainda há escravatura, Santos-Dummont voltou de Paris mais cedo e construiu A Encantada, o Uruguai foi reanexado ao Brasil, etc. Daí máquinas voadoras, liteiras puxadas por títeres e outras doidices retrofuturistas.

      Vamos ver se num próximo desafio eu invento algo menor, que não tenha que ficar truncado no limite de palavras imposto!

      Seu criado, mui atenciosamente.

  21. espirrodabrisa
    10 de novembro de 2013

    Esse conto é uma pequena pérola. Todos os elementos são muito bem dosados: as cores locais, as referências históricas, os tensionamentos dos limites do gênero. É uma pena que tudo aconteça um pouco rápido demais, porque acaba dando um gostinho de que o conto deveria ser prolongado por muito mais tempo. É uma pena que se tenha um limite de 3500 palavras. O conto foi primorosamente escrito, as palavras certas nas horas certas, e alguns trechos com descrições realmente muito belas. Perfeito! Parabéns! Pra quem gosta de steampunk é um prato cheio!

    • O Carcará Sardo
      11 de novembro de 2013

      Muito grato pela leitura “Espirro da Brisa”.

      Como comentei na resposta ao Felipe, fui meio vítima da minha ideia “grande” e do limite de 3500 palavras. A versão completa é bem mais interessante.

      Desde já obrigado pelas palavras de estímulo.

      Seu criado, mui atenciosamente.

  22. Marcellus
    10 de novembro de 2013

    O que dizer deste conto senão “excelente”? Praticamente perfeito em cada detalhe! Parabéns!

    Ah! Gostei especialmente do título! 🙂

  23. Masaki
    10 de novembro de 2013

    Fiquei fascinado pelos elementos históricos que o autor utilizou neste conto. Com maestria, ele foi encaixando todos os detalhes em uma trama muito bem elaborada e sólida. O fator de projetar a história em uma Rio de Janeiro de outrora deu o charme que precisava para completar a vasta gama de qualidades. Parabéns! EXCELENTE CONTO!

  24. Gustavo Araujo
    10 de novembro de 2013

    Esse é daqueles textos cuja criatividade nos deixa de queixo caído. A mistura de elementos históricos revisitados e subvertidos, com a adição de fatores impossíveis mas fantasticamente verossímeis transformaram a narrativa em um passeio dos mais interessantes. Isso sem esquecer o noir. Lá está o detetive durão, a femme fatale, o mistério bem elaborado. Mas o grande mérito do texto foi conduzir o leitor em uma viagem fascinante e bem arquitetada dentro do limite de 3500 palavras. Excelente conto.

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Informação

Publicado às 9 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .